Função "e se..."

SUMMA, Michela; FUCHS, Thomas; VANZAGO, Luca (ORGS.). Imagination and social perspectives: approaches from phenomenology and psychopathology. 1 [edition] ed. New York: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.

1. A capacidade de distinguir entre o factual e o ficcional ou entre o real e o virtual constitui faculdade fundamental da mente humana, que permite suspender a força e a validade da experiência imediata e ingressar num mundo paralelo de imaginação, devaneio, pensamento hipotético, ficção, fingimento, jogo de papéis ou teatro, tomar coisas como significando ou representando outras, como uma imagem especular, um mapa, um ator no palco ou uma metáfora, e pôr entre parênteses a própria posição centrada no corpo para adotar a perspectiva alheia como se se estivesse em seu lugar, atos intencionais que põem seu objeto como contrafactual ou suspendem a questão de sua existência e que se resumem como adoção da atitude ou função do como se.

2. A função do como se figura entre as mais elevadas da mente humana e fundamenta o desenvolvimento cultural da humanidade como espécie simbólica, mas é também capacidade complexa e exigente que pode ser perturbada nas doenças mentais, sobretudo na esquizofrenia, como mostram o concretismo, incapacidade de compreender corretamente a linguagem metafórica, as perturbações da tomada de perspectiva que levam ao transitivismo e à perda dos limites do eu e a passagem de experiências anormais ainda expressas em termos de como se ao delírio pleno, em que o como se se perde, de modo que a análise dessa função ilumina perturbações esquizofrênicas típicas, as quais por sua vez ilustram o que ela normalmente proporciona.

3. A investigação percorre primeiro uma análise geral da função do como se e examina depois três perturbações esquizofrênicas, o concretismo, o transitivismo e o delírio.

1. A função do como se

1. A estrutura lógica do como se revela que essas duas partículas aparentemente inócuas, quando unidas, adquirem poder e tensão altamente dinâmicos.

2. O como significa uma comparação que põe dois termos numa relação de semelhança ou analogia.

3. O se questiona ou suspende parcialmente essa comparação, anunciando uma oração condicional que põe o segundo termo como dado apenas hipotética ou ficticiamente e, portanto, como contrafactual, ausente ou irreal e muitas vezes pertencente a um quadro de referência inteiramente diverso, como na metáfora de chover gatos e cachorros.

4. A combinação como se implica a decisão de afirmar a comparação apesar de sua suspensão parcial, resultando numa oração comparativa irreal em que algo dado se compara a algo cuja irrealidade ou impossibilidade se declara ao mesmo tempo, sobretudo no comportamento de faz de conta, que transpõe a comparação impossível para a ação visível, como ao usar uma banana como telefone enquanto ela desmente esse uso por sua presença visível, de modo que o como se exibe estrutura ambígua e oscilante, uma dupla intenção que mantém ambos os termos presentes e nitidamente separados.

5. A função do como se liga-se a uma intencionalidade específica e ambígua que mantém a consciência da diferença de modalidades, pois não se pode fingir involuntariamente nem mentir por acaso, já que a consciência da verdade é inerente à mentira, assim como a imaginação, segundo Sartre, põe seu objeto como inexistente, ausente ou existente noutro lugar, de modo que no devaneio de uma viagem pelo Nilo se sabe estar imaginando e o barco está apenas virtualmente presente, ao passo que no sonho efetivo o como se se perde, e a consciência de imagem implica, segundo Husserl, um conflito latente entre a imagem como coisa física pendurada na parede e a imagem como objeto imagético em que um tema ausente é representado em modo virtual.

6. A empatia com um ator no palco conserva a consciência implícita de que ele apenas representa seu papel, razão pela qual se ficaria confuso ou chocado se ele saísse subitamente do personagem ou desmaiasse de verdade, consciência que no cinema recua para o fundo pela imersão mais profunda, mas continua normalmente operante, suspendendo-se a compreensão da ficcionalidade numa entrega à ilusão sempre acompanhada de consciência cindida, como se evidencia quando essa capacidade se perde, por exemplo na demência, em que pacientes julgam que o apresentador do telejornal fala com eles.

7. Embora formas rudimentares da função do como se existam em alguns animais superiores capazes de autorreconhecimento especular ou de certo fingimento, apenas a vida humana é quase inteiramente permeada pelo como se, pela artificialidade, ficcionalidade, fingimento, ironia, metáfora, jogo de papéis, mascarada e intriga, como indica a própria noção de pessoa, derivada de prósopon e persona, máscara do ator antigo, depois papel social e por fim o próprio indivíduo, de modo que a pessoa é sempre homo duplex, sem imediatidade pura além da primeira infância, e ver-se com os olhos dos outros produz a dialética entre o eu e o mim de G. H. Mead, sempre entrelaçados, implicando todo desempenho do próprio papel social um como se na medida em que persiste ao menos uma distância interior latente em relação aos papéis assumidos.

8. A função do como se liga-se crucialmente à intersubjetividade e à posição excêntrica do homem segundo Plessner, pois tomar a perspectiva alheia só é possível em modo de como se, implicando a passagem de uma posição corporificada e egocêntrica a uma posição virtual e alocêntrica, e a posição excêntrica designa a capacidade de integrar a postura corporal primária e uma posição externa apenas virtualmente adotada, permitindo situar-se em outro ponto do espaço ou na situação de outra pessoa como se ali se estivesse, permanecendo ancorado no próprio centro corporal, comparando o eu-aqui ao eu-ali virtual, como a imagem especular que olha do nada, de modo que o como se se manifesta particularmente na autoconsciência reflexiva, em que o sujeito se vê de fora ou com os olhos dos outros, sendo a autorreflexão, em última análise, produto de uma atitude de como se.

9. A ligação entre função do como se e intersubjetividade evidencia-se no desenvolvimento infantil, estreitamente vinculado ao desenvolvimento gradual da tomada de perspectiva entre o primeiro e o quarto ano de vida, pois por volta de um ano os bebês partilham o ponto de vista alheio sobre objetos externos na atenção conjunta, na segunda metade do segundo ano reconhecem sua imagem especular e começam a brincar de faz de conta com adultos, passos importantes no desenvolvimento dessa função, e por volta dos dois anos e meio aprendem a determinar o que outras pessoas podem ou não perceber de seu ponto de vista espacial, como ao indicar qual animal o adulto vê num cartão com um cão de um lado e um gato do outro, passando do espaço egocêntrico ao alocêntrico em modo de como se.

10. Entre os quatro e os cinco anos as crianças compreendem a perspectividade do conhecimento e das crenças, entendendo que as pessoas veem e interpretam as coisas de modo diferente e que suas intenções ou crenças podem não corresponder ao estado de coisas atual, como nas tarefas de crença falsa, cuja solução exige estar consciente simultaneamente da própria perspectiva e da alheia ou alternar flexivelmente entre elas a partir de um ponto de vista superior que as compare e integre, a posição excêntrica, desenvolvimentos que ocorrem em estreita conexão com práticas interativas de atenção conjunta, brincadeira compartilhada e ação cooperativa entre crianças e cuidadores, nas quais as posturas egocêntrica e alocêntrica se alternam constantemente e transmitem compreensão e flexibilidade de perspectivas cruciais para a função do como se.

11. O faz de conta, como usar uma banana como telefone ou um lápis como escova de dentes, implica a capacidade de distanciar-se do significado e do uso primários das coisas e transpô-las para um novo quadro de referência, não descoberta solitariamente, mas vinculada a situações interativas em que a criança aprende e imita os significados fictícios e olha sorrindo para o adulto sabendo que o uso inusitado é engraçado, de modo que a nova realidade ficcional é criada conjuntamente por uma intencionalidade compartilhada ou do nós, pela qual, tomando implicitamente a perspectiva do outro, a criança se torna capaz de alternar entre o modo primário e o modo do como se, base posterior da tomada de papéis em que o objeto do fingimento é o próprio corpo ou o próprio sujeito desempenhando um papel diante dos outros, como ladrão, policial ou leão.

12. A função do como se é não apenas realização cognitivamente sofisticada, mas resultado de práticas interativas que desenvolvem a compreensão de uma intencionalidade compartilhada, a qual possibilita também uma virtualidade compartilhada, já que o engajamento conjunto na ficção ou na narração e o próprio uso de símbolos na linguagem dependem da capacidade de tomar algo, como um som verbal, por representação de algo ausente, realização altamente valorizada como marca de capacidade e sanidade mental, embora a fronteira entre imaginação e realidade nem sempre seja nítida, pois em muitas culturas o mundo dos sonhos, da fantasia e da alucinação participa do mundo compartilhado e a própria percepção contém componentes imaginativos ao basear-se em expectativas, desejos e pré-formas perceptivas projetadas no ambiente para facilitar a identificação.

2. A perda do como se na esquizofrenia

1. Na doença mental, sobretudo na esquizofrenia, encontram-se fenômenos compreensíveis como perturbação ou perda da função do como se, principalmente a linguagem e a ação concretistas, o transitivismo ou perda dos limites entre si e outro e o delírio, de modo que essa função, embora adquirida cedo, pode ser perdida, perda estreitamente ligada a uma perturbação fundamental da intersubjetividade.

2.1. Concretismo

1. O estilo concretista de pensamento na esquizofrenia, já descrito por Bleuler, consiste na incapacidade de usar e compreender adequadamente o sentido metafórico ou figurado da linguagem, tomando metáforas e provérbios literalmente e agindo sobre eles no plano concreto ou corporal.

2. Uma paciente que se sente sem valor engole um anel para ter algo de valor dentro de si.

3. Outro paciente toma um purgante para livrar-se de seus pensamentos sujos.

4. Uma paciente queixa-se da falta de coração da mãe dizendo que ela tem um defeito cardíaco e deveria consultar o médico.

5. Diante da advertência do psiquiatra de que pisa em gelo fino, um paciente responde que nevou no dia anterior.

6. A metáfora combina dois termos, um que designa geralmente um objeto concreto da experiência corporal e outro um termo abstrato análogo ao primeiro, como em grão de verdade ou entardecer da vida, oscilando entre dois significados ou quadros de referência que devem ser mantidos presentes para compreender seu como se, e manter a diferença entre ambos os níveis faz parte da flexibilidade perspectiva.

7. Os pacientes esquizofrênicos podem ser incapazes de manter esse como se, colapsando os dois níveis de significado num só e servindo a metáfora de guia para uma ação concretista, como aumentar o próprio valor pela ingestão de uma substância preciosa ou purgar pensamentos sujos como o conteúdo intestinal, de modo que os pacientes ainda reconhecem o segundo significado metafórico, mas não seu aspecto contrafactual, ligando ambos no mesmo nível.

8. Fenômeno semelhante é a incapacidade dos pacientes de explicar o sentido metafórico de provérbios.

9. Ao provérbio segundo o qual cozinheiros demais estragam o caldo, um paciente responde que, se um cozinheiro é responsável pela cozinha, deve-se deixá-la a ele para não estragar o jantar.

10. Ao provérbio segundo o qual se deve malhar o ferro enquanto está quente, um paciente explica que o calor amolece o ferro e permite forjá-lo melhor.

11. A explicação abstrata no rastro do como se exige maior esforço cognitivo do que permanecer no nível do imediatamente dado, e na esquizofrenia a dupla intenção inerente ao uso de provérbios se perde e os níveis concreto e metafórico colapsam, razão pela qual a explicação de provérbios pode servir como marcador diagnóstico da esquizofrenia.

2.2. Transitivismo

1. Outro fenômeno esquizofrênico ligado à tomada de perspectiva e à intersubjetividade é o transitivismo, termo de Bleuler para a perda da distinção ou demarcação entre si e outro.

2. Um paciente relata que, ao olhar para alguém, sua personalidade corre perigo, sofre uma transformação e seu si começa a desaparecer.

3. Outro relata que os olhares dos outros se tornam penetrantes, como se emergisse ao seu redor uma consciência de sua pessoa que o lê como um livro, até não saber mais quem é.

4. A mera presença dos outros pode ameaçar o paciente esquizofrênico com a perda de si, pois tornar-se consciente dos outros como conscientes de si é existencialmente ameaçador, já que, ao ver os corpos e os olhares alheios, o paciente toma sua perspectiva, mas, como no concretismo, colapsa a distinção entre o sentido corporal primário de si e o modo de como se do si como outro, perdendo seu centro corporificado ao apreender a perspectiva do outro.

5. Um jovem confundia-se frequentemente nas conversas, incapaz de distinguir entre si e o interlocutor e de saber de quem se originavam os pensamentos, sentindo-se como que invadido pelo outro numa experiência que despedaçava sua identidade e provocava intensa angústia, e evitava escrupulosamente olhar seu reflexo nas vitrines por não saber de que lado realmente estava.

6. Toda conversa implica oscilação contínua entre a perspectiva central corporificada e a perspectiva descentrada ou virtual a partir da qual se tem consciência do outro como consciente de si, exigindo pôr entre parênteses a existência centrada no corpo e fingir por um momento estar no lugar do outro, mas, para não se perder nessa oscilação, é necessário manter a diferença entre perspectiva corporificada e virtual, tensão dialética da posição excêntrica que o paciente esquizofrênico já não consegue sustentar, confundindo as perspectivas de si e do outro em vez de integrá-las e sentindo-se invadido e dominado pelo outro, confusão que surge também diante do espelho, quando colapsa o modo de representação do como se que exige dupla intencionalidade e, com ele, a distinção entre imagem e realidade.

7. A alienação da própria imagem especular é sintoma frequente na esquizofrenia, como mostra um exemplo relatado pelo psiquiatra japonês Kimura.

8. Um paciente relata não saber mais, diante do espelho, se está aqui olhando para si ali ou ali no espelho olhando para si aqui, nem distinguir de si outra pessoa refletida ou, nos piores momentos, uma pessoa real, nem saber, diante da televisão, se fala no aparelho ou ouve as palavras aqui, sem saber se o dentro se volta para fora ou o fora para dentro, como se o fundamento do si desmoronasse e houvesse dois eus.

9. A virtualidade da imagem especular mina o sentido corporificado de si, levando a indagar se o sujeito é quem se olha no espelho ou quem se olha a partir do espelho e se, ao imaginar-se visto pelo outro, não se torna o outro, desmoronando todas as distinções entre realidade e virtualidade.

10. As condições de possibilidade do transitivismo enraízam-se na estrutura dialética da intersubjetividade, pois reconhecer os outros como agentes mentais ou pessoas e reconhecer-se como pessoa separada entre outras constituem uma só realização, alcançar a posição excêntrica, na qual a própria subjetividade deve manter-se e afirmar-se apesar de seu descentramento contra as perspectivas ubíquas dos outros, realização ameaçada quando o sentido corporal básico de si está enfraquecido, como na esquizofrenia, e o modo de como se da tomada de perspectiva não pode ser mantido, resultando num curto-circuito de perspectivas em que a perspectiva central corporificada perece em seu descentramento e o paciente se vê e se perde nos olhos dos outros.

11. Esse curto-circuito pode levar à experiência de difusão do pensamento, em que todos os pensamentos do paciente são conhecidos pelos outros e já não há diferença entre sua vida mental e a deles, enredando-o numa visão de fora desencarnada, autorreferencial e delirante, razão pela qual os primeiros episódios de esquizofrenia ocorrem frequentemente em situações de exposição social e abertura emocional em que está em jogo a afirmação do próprio si contra a perspectiva dos outros, como sair da casa dos pais, iniciar uma relação íntima ou ingressar na vida profissional, situações em que o paciente pode perder a perspectiva corporificada e sentir-se observado, perseguido e atravessado por todos os lados.

12. A perda da função do como se subjacente à distinção entre imaginação e realidade pode explicar também outras experiências de pacientes.

13. Uma paciente de 22 anos, ao iniciar um relacionamento com um homem, sentiu o pai invadi-la e inserir pensamentos críticos em sua mente e, muito perturbada, procurou-o no dia seguinte para censurá-lo por essas intervenções indesejadas.

14. A paciente antecipava a crítica paterna, mas não conseguia manter o como se das objeções imaginadas, de modo que, perdido esse estatuto, as imaginações se convertem em percepções e adquirem realidade concretista, podendo as alucinações auditivas em geral ser explicadas como vozes imaginadas para as quais o como se e, com ele, a autoria das vozes se perderam.

15. Um paciente de 26 anos, assistindo a uma partida de futebol na televisão, percebeu que conseguia colocar-se perfeitamente no lugar dos jogadores e antecipar seus movimentos na imaginação, constatou que faziam exatamente o que ele pensava e passou a sentir que podia dirigir o jogo à sua vontade.

16. O modo de como se da transposição imaginária nos outros, que antecipa ou simula suas ações, colapsa, perdendo-se a distinção entre imaginação e ação e resultando aqui num delírio de onipotência, o que remete à relação entre o surgimento dos delírios e a função do como se, já que podem ser vistos como perda do como se e falha correlata da tomada intersubjetiva de perspectiva.

2.3. Delírio

1. O surgimento do delírio é geralmente precedido pelo humor ou atmosfera delirante descrito por Jaspers e Conrad, em que os objetos parecem falsos, fabricados ou artificiais, as pessoas parecem comportar-se de modo antinatural, como atores ou impostores, e tudo dá a sensação de estar no centro de uma encenação inquietante ou de um cenário pré-arranjado, experimentando os pacientes alterações ameaçadoras da percepção, do sentimento e do pensamento que dão a impressão de que um poder externo se apossa de sua mente.

2. Inicialmente os pacientes ainda mantêm distância crítica em relação à experiência, expressa geralmente em termos de como se, como se algo extraordinário estivesse acontecendo ou os outros fossem impostores, podendo o como se exprimir também a inefabilidade de experiências de alienação de si ou de influência alheia inteiramente novas, irregulares e alheias à normalidade, que escapam à terminologia usual e só podem ser circunscritas aproximadamente, representando em ambos os casos a última tentativa do paciente de permanecer ligado ao mundo compartilhado, cuja ruptura marca a passagem ao delírio, como se vê num caso de crescente alienação do corpo e dos movimentos.

3. Uma paciente relata não conseguir mais fazer o que queria nem mover as pernas rígidas, como se já não controlasse seus movimentos e as pernas não lhe obedecessem, passando a perguntar-se a cada passo se os movimentos eram seus e a testá-los andando e correndo, sem afastar o pensamento de que poderia estar programada para fazê-lo.

4. A natureza ambígua da alienação e a improbabilidade de ser dirigida ou programada exprimem-se em orações de como se, mas a crescente alienação da agência motora leva ao ponto em que a paciente já não consegue manter a reserva do como se e a impressão de ser manipulada por um poder estranho se torna avassaladora e converte-se em delírio.

5. A paciente convenceu-se de que poderes extraterrestres controlavam e dirigiam seus movimentos, sem saber como nem para quê, tornando-se sob essas influências realmente uma marionete.

6. O colapso do como se elimina por fim a ambiguidade torturante, alteração frequentemente vivida como revelação, súbita compreensão e até alívio, mas implica ao mesmo tempo a perda da capacidade de adotar um ponto de vista externo a partir do qual o que parece ser o caso não pode ser verdade.

7. Outra paciente relata não conseguir mais pensar como queria, como se fosse impedida de pensar e os pensamentos já não fossem seus, como se não fosse ela quem pensava, até perguntar-se se ainda era ela mesma ou uma pessoa trocada.

8. A paciente abandonou por fim a reserva do como se e convenceu-se de que um serviço secreto estrangeiro implantara um chip em seu cérebro para controlar seus pensamentos, de modo que o início dos delírios é marcado pelo colapso do como se, perdendo-se, como no sonho, o caráter imaginativo ou tentativo das ideias persecutórias, o que implica não apenas mudança no grau de certeza, mas perda de intersubjetividade, pois a possibilidade de pôr em dúvida a própria experiência baseia-se em tomar implicitamente a perspectiva do outro generalizado e ver-se a partir de uma distância crítica, equivalendo a perda do como se a uma falha da tomada de perspectiva ou perda da posição excêntrica.

9. Os delírios são convicções individuais, mas não estados meramente internos à mente ou à cabeça do paciente, constituindo também perturbações da intersubjetividade que se manifestam numa situação social composta por dois ou mais parceiros de interação, já que a experiência do mundo não é realização solitária, mas baseia-se numa cocriação intersubjetiva contínua de sentido, numa intencionalidade compartilhada, pela qual se vive num mundo da vida comum continuamente produzido por atividades coordenadas e produção participativa de sentido, incluindo processos circulares de compreensão mútua, negociação de intenções, alinhamento de perspectivas e correção recíproca de percepções presentes em toda interação e comunicação.

10. Os pacientes esquizofrênicos, ao conversar sobre o conteúdo delirante, mostram peculiar incapacidade de considerar a perspectiva do outro, compreender suas dúvidas e fazer-se adequadamente entender, de modo que o delírio se manifesta como perturbação específica da comunicação em que falham a comparação, a correção e o alinhamento de perspectivas, pois, embora ainda possam tomar a suposta perspectiva dos outros e estejam até excessivamente conscientes de ser aparentemente observados, como no transitivismo e nas ideias delirantes de referência, carecem da posição independente a partir da qual poderiam comparar o próprio ponto de vista com o alheio e relativizar ou questionar seu sentimento de centralidade e referência, perdendo no domínio do delírio a posição excêntrica que integra os pontos de vista egocêntrico e alocêntrico e substituindo a perspectiva do outro real por uma perspectiva ilusória autorreferencial.

11. A falha da excentricidade manifesta-se sobretudo diante de dúvidas ou objeções alheias, às quais o paciente em geral não consegue responder adequadamente, supondo uma situação consensualmente percebida que não existe do ponto de vista do outro, comportando-se como se os outros só pudessem pensar como ele e sem justificar suas afirmações de modo compreensível, de modo que o paciente delirante não fala propriamente de sua situação, o que implicaria distância em relação a seus enunciados e abertura a complementação ou correção, mas apenas declara sua convicção numa linguagem pré-predicativa, não simbólica e por fim concretista, podendo os delírios ser considerados, segundo Spitzer, autorrelatos de estados privados, como uma exclamação de dor, e não enunciados epistêmicos sobre fatos do mundo público, de modo que sua notória incorrigibilidade resulta do colapso do como se, perdendo a linguagem seu horizonte intersubjetivo aberto e tornando-se mera expressão subjetivista do próprio estado.

12. Outra consequência da perda do como se é a exclusão do acaso, princípio que permite neutralizar ocorrências aparentemente significativas atribuindo-as à contingência e não à intenção alheia e que pressupõe uma posição superior a partir da qual a impressão de significação pode ser suspensa num quadro de referência neutro em que o sujeito já não desempenha papel algum, ao passo que para o paciente esquizofrênico justamente os elementos de fundo normalmente irrelevantes e acidentais adquirem caráter significativo, sinistro ou ameaçador, até que, sob a pressão da ambiguidade, da tensão e da angústia crescentes, o como se colapsa, o acaso deixa de ser admitido e tudo passa a girar em torno do paciente, convertendo-se a reserva formal do como se em conteúdo do delírio, de modo que o que antes parecia irreal, encenado ou artificial no plano da percepção se torna a encenação, a farsa e a maquinação efetivas de inimigos ocultos.

13. Uma consequência aparentemente paradoxal do colapso do como se é a dupla contabilidade identificada por Bleuler, em que a realidade delirante e a realidade cotidiana se justapõem em vez de se integrarem e o paciente vive em dois mundos ao mesmo tempo, o das vozes e delírios e o percebido pelos outros, como o paciente que ouve vozes tão claramente quanto a voz do psiquiatra e as julga igualmente reais, admitindo porém que o psiquiatra não as ouve, ou o paciente grandioso convicto de sua iminente coroação que continua a prestar serviços humildes na enfermaria sem sentir conflito, casos em que também se perde a posição excêntrica integradora, mas a visão subjetiva ou delirante não substitui a perspectiva do senso comum, coexistindo ambas em domínios ontológicos distintos sem contiguidade nem sobreposição.

Conclusão

1. A função do como se é capacidade crucial da mente humana que permite ingressar em mundos de imaginação e ficção, transpor-se para o lugar do outro e ver-se com os olhos dos outros, exigindo consciência simultânea de duas perspectivas conflitantes e alternância flexível entre elas, uma representando o domínio primário, corporal ou concreto e outra o domínio virtual, desencarnado ou metafórico, alternância só possível a partir de um ponto de vista superior que as compare e integre, a posição excêntrica de Plessner.

2. O papel crucial da função do como se na evolução humana consiste, de um lado, em afrouxar o domínio da realidade e ampliar o campo das possibilidades, suspendendo e pondo entre parênteses a realidade imediata e libertando pensamento e imaginação da coerção do dado para criar mundos alternativos e possíveis úteis ao ensaio e à simulação antes da prática efetiva, e, de outro, em abrir um nível superior de compreensão dos outros para além da intercorporeidade imediata da expressão e do gesto, no qual se torna possível tomar a perspectiva alheia e estabelecer uma intencionalidade compartilhada, caracterizando-se os humanos como espécie simbólica pela tensão dialética entre realidade e virtualidade, postura egocêntrica e alocêntrica, espontaneidade e artificialidade, que precisam ser constantemente conciliadas e integradas.

3. A esquizofrenia pode ser considerada falha ou perda parcial da posição excêntrica e da função do como se que ela possibilita, manifesta no concretismo ou perturbação da linguagem metafórica, no transitivismo ou perda dos limites entre si e outro e no delírio como colapso do como se que constituía a última ligação do paciente com o mundo intersubjetivo, de modo que a coconstituição de um mundo compartilhado falha e é substituída pela nova e rígida coerência do delírio, colapsando nos três casos a tensão dialética essencial ao como se e encerrando-se o paciente na autocentralidade e no solipsismo, incapaz de transcender sua posição subjetivista em direção ao mundo aberto da intersubjetividade compartilhada, razão pela qual a esquizofrenia pode ser vista como o mais especificamente humano dos transtornos mentais, pois só os humanos podem partilhar o como se que lhes abre uma infinidade de mundos e só eles podem ser lançados, pela perda do como se, no abismo de um mundo solipsista.