Coisa como resistência

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

III. Complicações com as coisas

10. A coisa como resistência, complexamente mediada e retraente

1. Nesta seção conclusiva, a discussão é ampliada ao colocarem-se três conjuntos de questões sobre a coisa, a coisa em si mesma e a possibilidade de uma ética das coisas, de modo a preparar o terreno para os capítulos subsequentes da Parte Um, focados no vazio, na inutilidade e num comportamento de cuidado e nutrição da vida das coisas.

2. Há três modos de descrever a inacessibilidade da coisa a partir da situação histórica e recepção de Heidegger, que contextualizam, complicam e potencialmente desafiam sua filosofia tardia da coisa, sendo, primeiro, a coisa caracterizada como aquilo que resiste e se opõe (Gegen-stand) ao percebedor como faticidade irredutível ao sujeito.

3. Segundo, a complexidade da coisa parece exigir arqueologia na qual desaparece em vez de fenomenologia de seu aparecer, argumentando o neovitalista Hans Driesch contra a visão fenomenológica direta da coisa como vivência da coisa, considerando sua aparência de “estar-aí” formação complexamente mediada de sentido, significado e construção de ordem experiencial.

4. Terceiro, a realidade da coisa ultrapassa a coisa experiencial, linguística e conceitualmente mediada, ou a coisa simbólica, como na diferenciação lacaniana da coisa enquanto significada e enquanto além da significação, havendo algo da coisa que inevitavelmente se retrai, como diz Heidegger, e escapa, como aponta Derrida.

5. A coisa tem identidade e unidade através do tempo e do espaço frente à consciência intencional, tendo, para ser justo, o próprio Husserl reconhecido em sua fenomenologia da coisa o sombreamento e o aparecer/não-aparecer da coisa na relação figura/fundo.

6. O ocultamento, a periculosidade potencial e a inquietante estranheza da coisa clamam por humildade diante da profundidade e multiplicidade da coisa e abertura para adaptar-se apropriadamente aos padrões fluentes e transformantes das coisas, clamando a coisa por suas próprias formas de “saltar-adiante”.

7. Questiona-se então o que é a filosofia, evocando Heidegger a definição aristotélica tradicional da filosofia como ciência da essência das coisas ao mesmo tempo em que a revisa de modo quase daoístico, definindo filosofia como conhecer aberto e inútil no saltar-adiante antecipatório do essenciar autoocultante das coisas.

8. O conhecer requer essa abertura da coisa e a abertura abrindo espaço para a coisa em seu aparecer e não-aparecer, analisando Heidegger isso como seu desvelamento e autoocultamento (das Sichverbergen), indicando o “si” ou “si mesmo” autorreflexivo ou autorrelacional, expresso no pronome reflexivo alemão de terceira pessoa “sich”.

11. A questão da “coisa em si”

9. Continua-se a questionar a coisa, sendo faceta crucial da coisa seu autorretraimento, autoocultamento, e seu surgir e funcionar a partir do nada, tema que fontes Lao-Zhuang iniciais abordam sem bifurcar a coisa entre a coisa aparecente e a coisa em si em Kant, na Crítica da Razão Pura.

10. Nas interpretações heideggerianas da coisa aparecente e não aparecente kantiana durante os anos 1920 e 1930, a coisa-em-si de Kant é modo distinto de relacionar-se com a coisa, outra perspectiva sobre ela, sendo relação ou perspectiva incomum sobre a coisa.

11. Como descrito antes, Heidegger tem, de fato, senso da inquietante estranheza e violência da natureza como phúsis, que celebrou como criativa em meados dos anos 1930, aparecendo em Heidegger a inquietante estranheza da coisa na avaria de sua utilidade, sua ausência faltante e sua aniquilação tecnológica.

12. O autoocorrer e autoocultar da coisa (si no sentido de “zi” e “sich”) requerem transição da fenomenologia de (1) o que aparece à consciência intencional ou encorporada e às aparências como descritível e apreensível, para (2) o que aparece como resistente, escapante e retraente no autoocultamento da coisa.

13. Essa perspectiva da liberdade da coisa implica ethos ou modo de habitar diferente, que reconhece seu autodevir bem como seu uso antropocentricamente demarcado, contrastando com a exigência de dominação da natureza expressa no contexto chinês antigo nas críticas de Xunzi a Zhuangzi de que a natureza externa e interna deve ser ativamente controlada e forçosamente remodelada.

14. “Natureza” e coisas como livres da necessidade ostensiva de dominação, sacrifício e utilidade parecem improváveis em meio à devastação e aflição predominantes que são mais que ecológicas, sendo, contudo, como Heidegger reitera de Hölderlin, “onde há perigo, cresce também o que salva”.

12. Questionar o ethos das coisas

15. A perspectiva desse outro ethos e voz implica questões conceituais e existenciais que serão consideradas preliminarmente aqui e mais plenamente abordadas no Capítulo 5, além das questões da realidade e ficcionalidade, plenitude e pobreza, da coisa como aparecente e não aparecente.

16. Primeiro, questiona-se se é possível ser responsivo às coisas em relações miméticas e correlacionais livres e desimpedidas (que desfazem fixações) em oposição a relações servis e temerosas (que estabelecem fixações em vez de deslocar-se através delas), e sem fetichismo e idolatria.

17. As interrogações críticas de Adorno e Levinas, como leitores polêmicos mas atentos do imaginário agrário rural de Heidegger, indicam cantos ausentes do quadrado: a importância de não negligenciar relações inter-humanas e as circunstâncias materiais e político-econômicas da existência humana.

18. Reconstruir e reimaginar a filosofia tardia heideggeriana da coisa, informada pelo daoismo, oferece indicação formal, modelo crítico e fio condutor significativos para confrontar a degradação contemporânea de coisas e ambientes.

13. Buber e Heidegger como pensadores da coisa

19. Deseja-se concluir este capítulo insistindo na importância histórica e filosófica de Buber, tendo a literatura sobre Heidegger razões distintas para ignorar os escritos de Buber, mesmo se cruzando com e inspirando parte do uso conceitual e jogo linguístico de Heidegger.

20. Em vez de rejeitar a modernidade, as ideias libertadoras de 1789 e o Iluminismo, a visão de Buber do daoismo permite reorientação para longe da dominação, do poder e da luta pela existência, rumo a genuíno ser-com-os-outros, nutrir criaturas e co-criar o mundo.

21. Buber observou, em palestra de 1924 “A Concepção Religiosa do Mundo”, proferida poucos meses depois de suas palestras de agosto em Ascona sobre o Daodejing, que “ver as coisas sem seu mistério significa torná-las imaginárias, significa viver com fantasmas” em vez de com coisas genuínas.

22. Ainda assim, há mais na coisa que uso, troca e consumo, sendo esse canto do quadrado, a vida e o mistério da coisa articulados em Buber e Heidegger, o que constitui o foco primário da Parte Um do presente livro.

23. Esse nexo interculturalmente enredado é elucidado nos capítulos seguintes sobre a coisa vazia e inutilmente desnecessária, com olho voltado a outros modos de habitar e encontrar — no-mundo com e em meio às coisas no sentido expansivo de seus próprios modos de ser.