Physis e coisa

NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, freedom. London New York Oxford New Delhi Sydney: Bloomsbury Academic, 2024

I. Physis e a coisa

1. Natureza, physis e ziran

1. O desprendimento e a sintonia responsiva da coisa no wuwei, em materiais iniciais relacionados à formação do Daodejing e do Zhuangzi, pressupõem ordem cosmológico-natural-política da autogeratividade das coisas e temporalidade sazonal em que operam.

2. “Natureza” e a “coisa natural” são primariamente interpretadas a partir de “mundo” em Ser e Tempo e são conceitos derivativos abstraídos das relações-mundo do Dasein e de seu modo de ser-no-mundo, sendo o “espaço homogêneo da natureza” espaço “desmundanizado”.

3. As funções experienciais e discursivas do ziran implicam forma distintiva, mas cruzante, de evento-mundo e desvelamento, a partir da recuperação por Heidegger da experiência e concepção gregas antigas da physis (φύσις) como mais elemental que qualquer experiência ou conceito de “natureza”.

4. O phúō (φῠω) grego antigo relaciona-se a palavras indo-europeias arcaicas para nascimento, terra, habitação e ser, designando aquilo que é trazido à luz, gerado e produzido, sendo o sentido de physis aquilo que surge e se dispersa (afim de ziran nessa medida).

5. Physis significa ainda, na leitura provocativa de Heidegger, aquilo que é como surto emergente da ocultação e ocultamento do ser, um reinar permanecente (Walten), e essência (Wesen) como essenciar (Wesung) em vez de ideia ou princípio subjacente determinado da coisa.

2. Physis e seu desvelamento e dizer

6. A palavra physis opera como nome para o próprio ser, como aquilo pelo qual os entes aparecem, referindo-se ao evento emergente do ser, aos entes e coisas emergentes, e a sua verdade desvelada, estando interconectados o emergido e o submergido, o desvelado e o ocultado.

7. Segundo o fragmento 123 de Heráclito, “a natureza tende à ocultação” (φύσις κρύπτεσθαι φιλεῖ), traduzindo Heidegger isso como “o emergir favorece o autoocultar-se”, podendo-se pensar que physis nomeia a autoemergência (von ihm selbst her) dos entes a partir do ser.

8. Devem-se abordar agora várias questões, mencionando Heidegger lógos (λoγος), e não physis, em conjunção com o dao, operando palavra-guia básica (Leitwort) como dao como palavra orientadora-de-mundo originária, como Heidegger notou.

9. “A Partir de um Diálogo sobre a Linguagem”, de Heidegger, texto-chave explorado na parte dois, exprime hesitação e adverte contra identificações demasiado fáceis que dão aparência de entendimento mútuo sem que ocorra encontro genuíno entre dois interlocutores, desvelando cada palavra-guia básica um mundo distintivo.

3. A hermenêutica e a política da physis e da coisa

10. A filosofia intercultural, que contesta as identidades fixadas da filosofia ortodoxa, precisa reconhecer tanto proximidade quanto distância, resistindo tanto à fusão totalizante quanto à particularidade isolada, não devendo apenas co-iluminar perspectivas e configurações discursivas diversas.

11. No ensaio de 1937, Heidegger parece preso entre o querer autodeterminante do povo alemão (das deutsche Volk), que dominou seu pensamento durante os anos 1930, e a Gelassenheit para com os outros, estando a autodeterminação problematicamente conectada a decisões sobre determinar criativamente o destino e a missão do Ocidente.

12. Questiona-se se modelos político-ziranistas Lao-Zhuang de comunidades e ambientes autoordenadores simpoieticamente podem ser empregados não só para co-iluminar, mas também para transcender o pensamento político e a filosofia da natureza e da arte de Heidegger.

13. Ação não coercitiva (wuwei) e não intervenção nos assuntos (wushi) foram formuladas no ambiente dos Reinos Combatentes de debates sobre política coercitiva, em que, para resumir, “legalistas” advogavam lei, punição, força do Estado e poder último do rei-sábio.

14. A physis grega antiga é retratada na reconstrução de Heidegger como o “primeiro começo”, do qual emerge a metafísica ocidental, havendo também o “outro começo” que confronta esse primeiro começo, tendo, no período pós-guerra, vários leitores descoberto o “outro começo” no pensamento chinês antigo e outras formas de pensamento.

15. O pensamento europeu moderno foi moldado em suas interações com seus outros, que tipicamente se esforça por excluir de seu próprio senso de história e autoidentidade sem-outros, devendo as fontes indianas e islâmicas de ciência e matemática ser óbvias demais para negar.

16. Imagens utópicas agrárias de campos, florestas e rios dominam muitos escritos de Heidegger, não sendo, contudo, conspicuamente, tais considerações o foco da visão de Heidegger da decisão do Dasein alemão em 1933 nem de grandes líderes poeticamente criando e formando um povo em sua própria autodeterminação a partir da physis do ser em meados dos anos 1930.

17. Jacques Derrida, entre outros, explicitou em A Fera e o Soberano a imposição de violência, poder e “potência soberana” na concepção heideggeriana de physis como reinar (Walten), de modo capaz de subscrever compromissos políticos através da filosofia da natureza.

18. Heidegger está, neste momento, perto e longe dos insights wuwei-ziran dos anos 1920 ou da guinada semi-daoista de meados dos anos 1940, afirmando, durante esse período politicamente e filosoficamente problemático, a autoordenação do povo e sua identidade comunal imaginada em contraste com o Dasein individual, sociedade pluralista, ou mortais e coisas em sua reunião e ressonância.

19. Faz-se aqui necessária esclarecimento importante: a autopoiese será interpretada aqui através do daoismo, e não imposta a ele, só ocorrendo a autopoiese daoista através de singulares (coisas) em sua interação (dao) através do vazio, sendo inerentemente comunicativa, mútua ou simpoiética.

4. A coisa, a obra e o poético

20. A coisa desloca-se de sua caracterização pragmática até então passiva e estática, como objeto para olhos e mãos humanos, para papel inédito no fazer criativo (poēsis, ποίησις) e na obra durante o início e meados dos anos 1930.

21. Heidegger, em seus melhores momentos (que priorizam entes existentes), reconhece o ser da coisa como sua autopoiese existencial, de modo que o ôntico opera em relação ao ontológico sem a ele se reduzir.

22. Questiona-se então qual a relação entre physis (como reinar surgente e emergente) e a coisa particular, já chamando Heidegger, nos anos 1930, por libertar a coisa de ser mera portadora particular de propriedades e do paradigma do pensamento representacional e da verdade como correção e correspondência.

23. Já há indicações apontando para a priorização da coisa em seu pensamento tardio, sendo physis chamada o primeiro começo e Da-sein, como “abertura do aí”, o outro começo, em suas notas para a versão das palestras de Frankfurt de 1935 de “A Origem da Obra de Arte” (GA5), eventualmente reelaborada para publicação em 1949.

24. A coisa só pode ser encontrada em meio à clareira (Lichtung), não significando isso primariamente luz, mas antes afinamento, como em área aberta numa floresta na qual a luz pode então brilhar, dando Heidegger duas interpretações aparentemente diferentes, mas talvez complementares, da relação entre clareira e coisa.

25. Outra estratégia hermenêutica diverge mais poderosamente da degradação da coisa em prol da ideia e da alma na metafísica ocidental, priorizando essa estratégia a coisa tal como molda momento e lugar, centrando abertura e clareira na reunião e mundanização relacionais únicas da coisa: “a coisa coisa mundo”.

26. Questiona-se como se deu o pensamento modificado de Heidegger sobre a coisa, desempenhando, reveladoramente, a coisa em sua coisidade, como portando e abrindo “o aí” em “A Origem da Obra de Arte”, papel cada vez mais notável desde a versão inicial de 1935 até sua eventual publicação em 1949.

27. Questiona-se quanto à coisa na obra, confrontando o pensar a maior resistência a determinar a coisidade da coisa à medida que a coisa inconspícua obstinadamente se retrai dele, tendo a obra de arte base coisal e funcionando como coisa pragmática e simbolicamente mediada.

28. A materialidade e a equipamentalidade da coisa são apropriadas na obra de arte de modo que a obra coisal possa trazer, colocar em frente e tornar-se desveladora e construtora de mundo, desvelando as botas de Van Gogh, que Heidegger provavelmente interpretou mal, “o mundo do camponês como relacionado à terra”.

29. As coisas são derivativas em relação à obra e à verdade, interligadas numa economia sacrificial da verdade do ser e sua encenação em obras criativas e violentas.

30. O pensamento de Heidegger neste ensaio permanece inadequado à verdade ziranista da coisa, não sendo essa coisa na obra a coisa autogeradora que oferece medida, nem essa criação poética a palavra íntima responsivamente ligada ao acontecer da coisa.