Derrida lê um fragmento de Para além do bem e do mal em que
Nietzsche fala de um novo tipo de filósofos capazes de pensar o “talvez”, no contexto de um ataque aos chamados “espíritos livres” e ao “gosto pela democracia”: “Essa responsabilidade que inspira (em
Nietzsche) um discurso de hostilidade sobre o 'gosto pela democracia' e as 'ideias modernas' – exercer-se-ia ela contra a democracia em geral, contra a modernidade em geral? Ou então ela responde ao contrário ao nome de uma hipérbole da democracia ou da modernidade por vir, respondendo diante dela [devant elle, avant elle], uma hipérbole da qual o 'gosto' e as 'ideias', na Europa e América nomeadas aqui por
Nietzsche, são apenas caricaturas medíocres, farisaísmo tagarela, perversão ou preconceito – abuso do termo democracia? Não são essas caricaturas realistas, justamente por serem realistas, o pior inimigo daquilo de que têm a aparência, cujo nome usurpam? A pior repressão, justamente aquela que deve, contra a analogia, ser aberta e verdadeiramente desbloqueada? (Deixemos essa questão em suspenso; ela respira o talvez, e o talvez que vem terá sempre vindo antes da questão. A questão é secundária, ela é sempre tardia e segunda. No momento em que se forma, um talvez a terá aberto. Ele sempre lhe proibirá fechar-se, talvez, no próprio lugar em que se forma. Nenhuma resposta, nenhuma responsabilidade abolirá o talvez. Que um talvez abra e preceda para sempre o questionar, que ele suspenda antecipadamente – não para neutralizá-los ou inibi-los, mas para torná-los possíveis – todas as ordens determinadas e determinantes que dependem do questionar [pesquisa, conhecimento, ciência e filosofia, lógica, direito, política e ética, linguagem mesmo e em geral], isso é uma necessidade à qual tentamos fazer justiça de várias maneiras. Por exemplo: 1. Recordando aquiescência [Zusage] que é mais originária do que a questão e que, sem dizer sim a nada de positivo, só pode afirmar a possibilidade do futuro abrindo-se à determinabilidade, e portanto acolhendo o que ainda permanece indeterminado e indeterminável. Trata-se de fato de um talvez que ainda não pode ser determinado como dubitativo ou cético, o talvez do que resta a ser pensado, a ser feito, a viver [até a morte]. Ora, esse talvez não vem apenas 'antes' da questão [investigação, pesquisa, conhecimento, teoria, filosofia]; viria também, tornando-a possível, 'antes' da aquiescência originária que antecipadamente compromete a questão com o outro.)”