Lendo além da intenção óbvia do texto de Lévinas,
Derrida quer dizer que essa presença originária do terceiro, assombrando o face-a-face com o outro, pode parecer comprometer ou contaminar a pureza da relação propriamente ética, mas que essa possível contaminação, esse compromisso da pureza, é necessário se a relação ética deve evitar a possibilidade de uma violência absoluta dessa própria pureza: “O terceiro não espera, sua illeidade clama desde o momento da epifania do rosto no face-a-face. Pois a ausência do terceiro ameaçaria com violência a pureza do ético na imediação absoluta do face-a-face com o único. Sem dúvida Lévinas não diz isso nessa forma. Mas o que está ele fazendo quando, além ou através do duelo do face-a-face entre dois 'seres únicos', apela para a justiça, afirma e reafirma que a justiça 'é necessária' [il faut]? Não está ele, então, levando em conta essa hipótese de uma violência da ética pura e imediata no face-a-face do rosto? De uma violência potencialmente desencadeada na experiência do próximo e da unicidade absoluta? Da impossibilidade de discernir o bem do mal, o amor do ódio, o dar do tomar, o desejo de vida e a pulsão de morte, a acolhida hospitaleira do fechamento egoísta ou narcísico? O terceiro protegeria assim contra a vertigem da própria violência ética. A ética poderia ser duplamente exposta a essa mesma violência: exposta a sofrê-la, mas também a exercê-la. Alternativamente ou simultaneamente. É verdade que o terceiro protetor ou mediador, em seu devir jurídico-político, viola por sua vez, ao menos virtualmente, a pureza do desejo ético pelo único. Daí a terrível fatalidade de um duplo constrangimento.” (66)