CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.
Temporalidade
1. Husserl aproximou-se, nas “Lições sobre o tempo”, de concepção estreita das relações entre intenção e matéria, conforme salienta G. Granel em seus comentários sobre a constituição em profundidade da hyle, vendo-se Husserl obrigado, ao refletir sobre a constituição do fluxo temporal, a aproximar o esboço impressional da animação intencional, pois a consciência presa aos limites do instante não poderia experimentar sucessão alguma.
2. A ausência de limite do presente identifica-se à estreiteza e intimidade da relação que o liga aos horizontes de distanciamento, pois dizer que as fases são contínuas, ou as retenções retenções de retenções, significa que o mesmo A inicial é retido através de um distanciamento escavado pela fuga adiante do puro Jetzt (agora), sendo a inserção do presente em seus limites idêntica à penetração mútua do presente e daquilo que o limita.
3. Seria necessário destituir explicitamente o presente impressional de seu valor de origem, dada a impossibilidade de atribuir um começo ao fluxo originário e incompressível do tempo, o que não é, porém, a tese de Husserl, para quem a impressão originária é o não-modificado absoluto, a fonte originária de toda consciência e de todo ser ulterior, sendo o presente um ponto-limite.
4. Deixar de conceber o presente como átomo do Tempo equivale, no plano do aparecer horizontal, a relativizar a impressão sensível, não mais permitindo a unidade dos horizontes e das impressões compreender o objeto transcendente como significação elaborada no seio de uma diversidade hilética, perdendo o objeto transcendente a razão de ser considerado ser ideal.
5. A impressão sensível e o dado intuitivo perdem seu privilégio, estando já realizado seu transbordamento pelo horizonte, o qual recupera caráter de totalidade, supondo isso a presença unitária do horizonte co-dado na percepção, presença longe de se reduzir a mera ideia reguladora.
6. As críticas de Sartre a Husserl justificam-se quando afirma que “a hylé não poderia ser da consciência, do contrário se dissolveria em translucidez e não poderia oferecer essa base impressional e resistente que deve ser ultrapassada rumo ao objeto”, sendo o caráter perspectivista um caráter do próprio objeto, no qual o horizonte está presente conferindo-lhe o limite pelo qual se opõe e excede o conhecimento que dele tomamos.
7. Os momentos impressionais são momentos-de-coisa transcendentes que só valem pelo transbordamento dos horizontes que os secundariza, perdendo sua autonomia e não podendo mais ser tratados como fatos de consciência, sendo o momento da diversidade e o momento da unidade inseparáveis, constituindo sua unidade o fenômeno de horizonte.
8. G. Granel fala do silêncio declarativo das coisas, não sendo a unidade da coisa momento acentuado que ressalte por si mesma, pois enquanto numerosa de aspectos a coisa se declara num só e mesmo movimento que relega de antemão à abstração a proposição da diversidade ou da unidade.
9. Granel pensa assim desembocar numa autonomia radical da transcendência-abertura que já não se relaciona ao homem, não sendo feito de nada senão de si mesma, tornando-se nesse sentido a consciência absoluta, liberta do relativismo entre sujeito e objeto e da preeminência da coisa, sustentando-se como campo da aparição.
10. Sendo a coisa segunda relativamente aos horizontes, estes possuem caráter de totalidade em si, não sendo apenas condição dos limites da sensibilidade mas anunciando a cosmicidade do mundo, constituindo o grão ou a carne das coisas na medida em que não são apenas o campo de sua aparição, não possuindo essa autonomia por si mesmos.
11. Recai-se sobre a ontologia de Fink, sobre a relação em si do ser e do ente, fazendo isso ressurgir o problema de qual é o vínculo entre a distância da aparição e a relação de pertencimento, não estando elucidada a natureza dessa torção ou retorno.
12. Reina certa obscuridade nas análises, pois o realismo da abertura, arrancada do sujeito, confere valor próprio à manifestação das coisas e revela com razão o caráter improdutivo da consciência, mas questiona-se onde fica o espectador, sendo econômica demais a solução que resolve o círculo do conhecimento suprimindo seu polo-sujeito.
13. Não haveria mais sujeito porque, supostamente, os tetos se teriam desprendido para ele, sendo a ausência de autonomia própria das coisas o que as impede de estar diante de um sujeito, ficando o homem assim arrancado de seu aparente centramento sobre si mesmo no meio das coisas.
14. Questiona-se como entender a afirmação segundo a qual, livre do face a face com uma realidade espaço-temporal posta ali diante como espetáculo cheio de coisas, a consciência, o ser do homem, já não começa em lugar nenhum numa objetividade que o incluiria, indagando-se se tal pensamento não desconhece a significação do face a face.
15. Convém distinguir um face a face onde o ser está apenas em frente, instalado em posição relativa ao sujeito, e um face a face mais sutil, levemente desmentido pelo transbordamento dos horizontes, no qual as coisas se voltam um pouco de esguelha deixando entrever a infinidade de seus motivos, sem deixarem de estar em frente.
16. Granel pensou o retraimento como o próprio traço do traçado, mas tende talvez a acentuá-lo demais, tematizando-o de modo que paradoxalmente o inclui na objetivação, fazendo dele a estrutura quase formal do próprio traçado, constituindo a unidade do retraimento e do traço a atualidade do fenômeno em sentido amplo.
17. Apagar demasiadamente os limites que circunscrevem o objeto suprime o sítio, fazendo parecer o espetáculo do mundo percorrido de parte a parte, reconhecido de todo lugar e de nenhum, o que desmente o caráter perspectivista suposto no recuo das coisas e seu transbordamento pelo horizonte, devendo a abertura ser vivida de um ponto de vista.
18. Em ambos os planos trata-se do Tempo, exigindo-se em ambos os casos um sujeito apto a acolher a vinda, a qual, sendo arrancamento, só pode ser passivamente sofrida num afeto, sendo no plano horizontal o tempo aquilo que arranca as coisas à atualidade simples da visão, arrancando a face das coisas ao sujeito.
19. De modo geral, a temporalidade solda a transcendência à imanência, realizando a junção entre a horizontalidade do espetáculo e o pertencimento interno ao mundo, sendo o foco dessa conjugação, desse nó, desse retorno pelo qual o horizonte é, segundo seu outro aspecto, fundo portador de totalidade.
20. A abertura exige, contudo, um sítio no qual não seja apenas advento de um espaço espetacular, mas potência portadora que confere limites ao ponto de vista do sujeito, não bastando ser apenas campo de uma visibilidade para incluir sua testemunha, sendo necessário que o tempo flua através de um sujeito empírico para que o espectador tenha um ponto de vista.
21. Só há sítio no tempo, o que implica a existência de uma subjetividade, pois se a abertura é em si um reino temporal, não é um fora absoluto e radical que circunscreveria o homem e as coisas, requerendo antes a existência de uma subjetividade como lugar de sua travessia, de uma interioridade em que reina.