Diferença

CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.

A irrealidade real da diferença

1. A unidade do Mundo e do ente, pensada por Eugen Fink, revela que a transcendência horizontal atesta, por sua estrutura, uma transcendência vertical na qual o ente é erguido e sustentado, de modo que meditar a verticalidade da transcendência prolonga naturalmente a transcendência horizontal a partir de seu caráter significativo.

2. A transcendência horizontal, caracterizada pela diferença ontológica entre o ente e o Ser, revela-se como sintoma da não subsistência do Ser, pois sua radical diferença em relação ao ente impede que ele se mantenha isolado, conduzindo Fink a naturalizar a diferença ontológica e a distinguir dois modos de ser-no-mundo (In-der-Welt-sein): o ser-no-mundo em si de todo ente e o ser-no-mundo compreensivo na cena da manifestação, o que suscita a questão de como se articulam a diferença vertical e a diferença horizontal.

3. Suspeita-se que a relação horizontal entre o Ser e o ente anuncia uma relação de pertencimento vertical, sendo por isso segunda em relação a esta, de modo que o desdobramento horizontal se configura como um mirage de uma transcendência recolhida no ente, ainda que este mirage não seja ilusão, pois o mesmo campo se desdobra nas duas diferenças, remetendo à questão kantiana da idealidade do espaço.

4. A não objetividade do espaço não implica automaticamente sua irrealidade, e a inclusão do Mundo na representação humana não soluciona o problema, levando Fink a criticar tanto Kant quanto Heidegger, a quem reprova o antropocentrismo por identificar Welt e Umwelt e por reduzir o Mundo a uma estrutura da existência humana.

5. É necessário pensar o problema do Mundo em seu sentido correto, restituindo-lhe sua função cosmológica, pois reduzido ao seu valor fenomenológico ele perde sua verdadeira dimensão, e a descoberta fundamental de Fink consiste em compreender que a inobjetividade do mundo atestada na diferença fenomenal significa que o Mundo é uma atividade, um processo de conferir limites ao conjunto do ente, revelando-se simultaneamente como fundamento total e como fundo que não subsiste por si mesmo, dado que se acha essencialmente referido ao nada daquilo que sustenta.

6. O horizonte da totalidade que se recorta na manifestação não se revela como simples espaço dispensador de aparecimento, mas antes como produção do ente no absoluto, de modo que o Fora da manifestação não tem realidade por si mesmo, devendo sua realidade englobante à relação unitária e interna que mantém com o ente em si, relação primordial em face da qual o desdobramento do Fora é segundo.

7. A dimensão extática da existência não é qualidade do homem, mas se funda no Mundo enquanto universo, pois é porque o Mundo é o Todo em si do ente, o Real em sua unicidade, que o homem lhe está aberto e recebe dele sua abertura ao além de si mesmo.

8. O Mundo permanece ainda um pensamento, o pensamento humano por excelência, e o homem está atado a ele como ser-do-ente, no que se denomina consciência, sendo o único existente a quem o universo aparece como tal, ainda que o pensamento do universo não seja um pensamento do homem, mas antes o habite como disposição afetiva mais do que como conceito claro.

9. O pensamento do Mundo possui o homem, e não o inverso, pois a abertura ao mundo não coube ao homem, mas o homem é que coube à abertura ao mundo, existindo extaticamente voltado para a extensão do universo do qual lhe advém a luz da razão, da linguagem e da compreensão ontológica, sendo a distinção entre o ser-dentro das coisas e o ser-dentro do homem a única solução possível para melhor penetrar a natureza do círculo do conhecimento.

10. As indicações de Fink permitem compreender melhor a identidade do saber e do ser e como a compreensão humana do ser se articula sobre a totalidade do ser em si, ainda que sem revelar suficientemente a natureza dessa relação, remetendo às pesquisas de Fink sobre o imaginário e a irrealidade.

11. A reflexão de Fink sobre o imaginário é antiga, remontando a um artigo de época husserliana no qual têm origem certas ideias de “O Jogo como Símbolo do Mundo”, conduzindo já à lisura de sua ontologia cosmológica, embora ainda circunscrita a um plano fenomenológico e descritivo, cuja descrição das propriedades do imaginário suscita questões que não podem ser tratadas na perspectiva da redução fenomenológica.

12. A fenomenologia husserliana, ao fazer da abertura intencional a propriedade distintiva da consciência, era obrigada a reencontrá-la em todas as suas atitudes, incluindo memória, sonho e imaginação, cujos objetos são também objetos transcendentes, suscitando a dificuldade de diferenciar a abertura perceptiva primitiva da abertura da consciência imageante e de saber se era coerente pensar os objetos imaginários como transcendentes.

13. A originalidade das análises fenomenológicas está em distinguir o objeto imaginário do simples imagem, mostrando Fink como os objetos da lembrança e da representação são realmente, à sua maneira, exteriores, dado que a representação, análoga ao objeto percebido, possui espessura e profundidade de horizonte próprios, constituindo um mundo distinto do mundo real mas ainda assim um mundo.

14. Da mundanidade da representação resulta que o irreal pode absorver seu espectador, podendo o homem perder-se no lembrar, no sonho ou no imaginário a ponto de esquecer momentaneamente seu mundo presente, revelando essa fascinação a autonomia da aparência frente ao real.

15. O mundo representado não equivale ao mundo real da percepção, devendo manter-se de modo radical a diferença entre ambos, pois a representação dá seu objeto no modo do como-se, atestando um caráter de ausência que a distingue da simples imagem, remetendo à distinção fundamental entre retenções e representações-lembranças.

16. A representação integral do passado é impossível, pois a cadeia das lembranças jamais alcança um começo da consciência nem é infinita, perdendo-se antes numa obscuridade impenetrável, como afirma Fink ao dizer que “é absolutamente impossível esgotar por via de lembrança a totalidade do passado transcendental” e que o perder-se na obscuridade é o único modo fenomenologicamente atribuível ao fim da subjetividade transcendental do ponto de vista de seu passado.

17. A obscuridade do passado revela a dependência da consciência em relação ao horizonte do tempo, podendo ela remontar de uma lembrança distante a uma mais próxima, mas não descer indefinidamente por via representativa, jamais alcançando seu limite e por isso a ele submetida, sendo o tempo a totalidade responsável pelos limites que dominam a consciência.

18. A diferença entre representações e horizontes de ausência evita confundir percepção e representação, justificando o caráter autônomo do mundo da representação, o qual, ao dar o objeto no como-se da presença, penetra os horizontes de ausência não para dominá-los, mas para restituí-los como tais, exercendo função de médium entre a percepção e seu horizonte.

19. Fink redescobre temas análogos aos kantianos, mas lhes restitui a profundidade devida, sustentando que a imaginação só pode ser médium revelador do horizonte se este permanecer independente dela, pois transformada em visão atual a experiência do horizonte se reduziria a mera imagem incapaz de penetrar a envergadura própria do longínquo.

20. A representação, ao revelar o horizonte, arranca o homem da preocupação e o lança na contemplação, evocando Fink a insouciance específica da imaginação pura que se opõe ao cuidado, atribuindo à imaginação um sentido existencial constitutivo de uma teoria da mundanização como finitização do ego puro.

21. O enraizamento das representações confere-lhes estrutura de mundo que permite a iteração das representações, ou representações de representações, explicitando essa repetição o Mundo contido em toda experiência, sendo a representação exploração do Mundo, remetendo Fink à noção de lembrança do presente, na qual o presente do mundo total contém a representação como virtualidade.

22. Coloca-se o problema do estatuto da irrealidade, pois embora o representado se refira ao mundo real, conserva sua autonomia, podendo o ego viver simultaneamente nos planos prático e contemplativo, sendo a absorção no imaginário estado durável porém momentâneo, e o despertar atestando, tanto quanto a absorção, o estatuto próprio do mundo representativo enquanto irrealidade dotada de realidade própria.

23. O mundo da representação não flutua no nada, ancorando-se no fluxo real dos vividos que co-constituem a percepção, colocando-se contudo o problema difícil de como o tempo do mundo da representação se insere no tempo do fluxo impressional, sendo as durações próprias da percepção e da representação quase independentes entre si.

24. A questão da articulação entre o mundo real e o mundo da representação confirma a impossibilidade de reduzir a consciência de representação a uma consciência de imagem, sendo instrutivo refletir sobre o estatuto de uma imagem objetiva, como a de um quadro, cuja função de imagem se revela problemática por articular um suporte real e um mundo irreal.

25. Na imagem coincidem o suporte real e o mundo da irrealidade, sendo essa coincidência misteriosa, pois o suporte não é dado como tal mas apenas por sua superfície, dissimulando-se ao aparecer, de modo que a cobertura do suporte pela imagem constitui um entre-dois que não é nem real nem irreal, mas ponto de passagem do real ao irreal.

26. A clivagem do ego entre sua posição de espectador do suporte da imagem no mundo real e sua posição de espectador do mundo de imagem faz o ego residir no entre-dois, descobrindo também o vivido de consciência correspondente a irrealidade como momento de seu ser que não pode conter.

27. Se a percepção de uma imagem objetiva é paradoxal, mais ainda o é a consciência de representação, pois interpretá-la como consciência de imagem exige demonstrar não apenas um suporte impressional, mas que os dados representados se refletem nos dados hiléticos impressionais, não podendo a consciência de representação ser interpretada segundo a distinção entre imanência e transcendência.

28. O problema colocado à fenomenologia descritiva pela consciência representativa concerne ao estatuto de seu suporte impressional, situando-se a perspectiva de constituição egológica husserliana no dessprendimento do sentido do correlato noemático, remetendo o caráter horizontal da conexão a uma estrutura da própria forma do conhecimento.

29. A redução que distingue o Mundo como correlato do ego fratura a unidade do objeto transcendente, sendo necessário arrancar o processo da aparição de seu resultado e destruir a consistência aparente do objeto por meio da hipótese de uma Weltvernichtung (aniquilação do mundo), onde o mundo aparece como simulacro possível cuja unidade se revela contingente e relativa a resíduos de consciência.

30. O arrancamento dos horizontes à familiaridade enganosa que os mascara não contradiz a explosão da unidade do Mundo, pois há vínculo entre a concepção transcendental do Mundo e a negação de seu caráter de totalidade, ganhando a consciência o poder de constituir os horizontes ao negar a generalidade única e primeira do Mundo, restando apenas multiplicidade de horizontes particulares articulados segundo modos arquitetônicos diversos.

31. A concepção segundo a qual a temporalidade organiza uma matéria por uma forma pressupõe o corte radical entre o material sensual e a atividade intencional, necessário para diferenciar o momento objetivo-transcendente do momento intuitivo da conexão, sendo o objetivo remetido à significação e o intuitivo à imanência subjetiva enquanto plenitude impressional.

32. A descrição da consciência de irrealidade contraria o corte radical entre matéria e forma, obrigando a pensar relação mais estreita entre o conteúdo impressional e os horizontes de retenção e protenção, de modo que os conteúdos impressionais perdem a estrita realidade que possuíam na análise fenomenológica clássica, enquanto os horizontes ganham em realidade.

33. Se a temporalidade é médium entre o tempo do real e o da representação, conforme mostram as pesquisas de Fink, ela deve conter em sua essência a possibilidade da representação, havendo um presente da imagem inserido na temporalidade real do fluxo das impressões que contém a temporalidade das imagens, sendo em “O Jogo como Símbolo do Mundo” que a análise do estatuto da irrealidade, antes descritiva e fenomenológica, transita para a ontologia.

34. “O Jogo como Símbolo do Mundo” retoma a questão do estatuto da imagem e de sua relação com o suporte, não bastando as condições físicas da reflexão para esgotar o ser da imagem, cujo próprio é não ter existência substancial, remetendo além de si mesma; Fink critica a concepção platônica da imitação por não penetrar suficientemente na problemática da imagem.

35. A solução não reside em fazer da consciência humana o fundamento do caráter de remissão significativo da imagem, pois ainda que essa ideia remedeie a insuficiência da explicação pelo suporte material, permanece insuficiente, já que a imagem necessita essencialmente de um suporte real e o homem não pode inventar sua dimensão de irrealidade nem instaurar a relação à irrealidade que o transcende, sendo contudo o mundo refletido um espaço finito e fechado dotado de autonomia própria.

36. Toda essa articulação converge para o mistério da relação entre o irreal e o real, poupando o irreal de reduzir-se a produção da consciência, afirmando Fink que “não há apenas o real e o irreal, há também a mediação entre os dois”, restando saber qual é esse médium nem real nem irreal que precede a ambos.

37. Nem toda imagem é cópia, gozando pintor e poeta de liberdade de estilo que os liberta de originais, o que aparece também no fenômeno dos jogos, os quais não imitam servilmente a vida séria, possuindo antes poder de encantamento capaz de arrancar momentaneamente o homem à estreiteza de sua existência e de libertá-lo do cuidado e do peso do passado, sendo a autonomia do imaginário idêntica ao fato paradoxal de sua realidade.

38. O imaginário não possui essa realidade acima do real por si mesmo, permanecendo dimensão segunda cuja subsistência repousa sobre realidades, como as personagens sobre a pessoa física dos atores, remetendo novamente ao médium do real e do irreal.

39. A relação entre o irreal e o real repousa sobre a dimensão originária que os reúne, o Mundo como totalidade em si, meio supremamente concreto de todas as coisas e por isso mesmo irreal, pois não tem realidade por si, não subsistindo sem o ente, sendo real como fundamento deste.

40. É porque o Mundo é a potência geradora do Tempo que ele não possui existência própria à maneira de um Ente Supremo, consistindo a atualidade ou realidade do Tempo apenas no existente que traz consigo, no próprio ato de trazer, sendo essa atualidade jamais acabada constantemente penetrada por certa irrealidade que entra em sua natureza sem defini-la, conferindo a atividade em gênese uma realidade segunda à dimensão do imaginário.

41. Quando a imaginação se liberta de sua sujeição a um modelo, suas imagens deixando de ser cópias, ela não deixa de se referir mais estreitamente à realidade, fazendo sinal não para as coisas mas para seu ser, designando e manifestando o Outro das coisas não como o que delas está separado, mas como aquilo que a elas remete, no que consiste o fato dos símbolos.

42. Ocorre um completamento que reporta explicitamente as coisas finitas, enquanto coisas individuais e finitas, ao mundo que a tudo engloba, tornando-se então símbolos não como signos para outra coisa, mas como símbolos em si mesmas na medida em que apresentam sua finitude como intramundanidade.

43. Coloca-se a questão do vínculo entre a intramundanidade em si e sua revelação, pois o Todo, inseparável do ente, ainda não se manifesta na própria dobra do ser e do ente em si, devendo contudo poder tornar-se visível como tal e manifestar sua superação, a qual não aponta para realidade superior aos entes, mas se anuncia justamente atada a eles, remetendo a uma pertença mais antiga do fundado e do fundamento.

44. O Todo é imagem porque a superação remete ao ente sem designar além dele nenhuma realidade subsistente, não sendo essa imagem representação do Todo mas idêntica a ele, refletindo-se o Todo em si mesmo por autoindicar-se, sendo já, no em-si de sua totalidade, imagem no ente.

45. Da intramundanidade a sua revelação produz-se como um retorno, sendo a manifestação do Mundo imagem de uma imagem, imagem daquilo que, sendo já imagem no em-si, não podia distinguir-se e tornar-se primitivamente visível por si mesmo, mas que, sendo imagem, possuía por princípio a possibilidade de refletir-se além dos entes e indicar-se num ultrapassamento finito.

46. Que no ultrapassamento o Mundo seja reportado ao ente não tem significação restritiva alguma, pois o Mundo, nada sendo de ôntico, não subsistiria independentemente do ente, não sendo o existente ultrapassado rumo a uma realidade que o sobrevoa, aparecendo o reenvio do Mundo ao intramundano como restrição apenas em face de uma visada tensa rumo a um pretenso objeto absoluto por trás do ente.

47. Ainda que nada encontre além do ente, o ultrapassamento permanece sendo ultrapassamento, devendo admitir-se que a visada rumo ao além das coisas nada designa senão a si mesma, sendo, nesse sentido, apenas uma ideia porque anuncia precisamente um além das coisas que pertence às próprias coisas, dimensão que é o Outro das coisas nas coisas.

48. O Mundo é ideia no fenômeno, mas não como ideia reguladora, sendo antes ideia por anunciar, por analogia, uma relação cósmica da qual se faz signo, não podendo esse signo ser ideia do homem ou do sujeito sob pena de perder seu valor iniciático, pois se o Mundo atestado na diferença fosse apenas ideia projetada pelo homem, o ultrapassamento não teria realidade alguma e o campo de transcendência em que o homem é lançado não seria envolvente.

49. A idealidade do ultrapassamento consiste em sua incapacidade de sustentar-se a si mesmo, pressupondo a atualidade do movimento gerador do Tempo, o qual não tem realidade alguma sem o ente, enquanto ultrapassamento agente e criador inseparável de sua criação, significando essa idealidade o caráter segundo da transcendência horizontal, que se torna assim espécie de imagem ou ideia relativa a quem a conhece.

50. Essa idealidade não significa, contudo, que o ultrapassamento esteja contido na representação do sujeito, sendo necessário compreender melhor como se constitui o pensador capaz de conter a ideia ou imagem do cosmos sem reduzi-la à sua representação, e como se constitui a testemunha da transcendência horizontal apta a receber, por meio dela, o anúncio da transcendência vertical e portadora, remetendo às pesquisas de Merleau-Ponty sobre a transfenomenalidade para melhor abordar esses temas.