A distinção entre essência e existência, que
Sartre utiliza para fundar seu humanismo, tem sua origem na filosofia grega, onde, com
Aristóteles, a precedência é dada ao “hoti” (o fato de que é) sobre o “ti” (o que é), em oposição a
Platão, para quem o “hoti” é apenas um “mê on” (não-ser).
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Para os gregos, “ser” significa “presença”, e a distinção entre essência e existência só emerge quando a interpretação grega do ser como presença é obscurecida pela interpretação romana, que concebe a obra (opus) como produto (id quod exstat ab agitatu) e, portanto, em termos de ação e força de trabalho.
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A distinção escolástica entre essência e existência, que marca a dependência das criaturas em relação a Deus, é um desdobramento da interpretação romana do ser, onde a essência é o possível e a existência é o ato, sendo que em Deus ambos são um só, enquanto nas criaturas há uma distinção real.
Leibniz, ao buscar reconectar os elementos da distinção a um conceito geral do ser, descobre na noção de força a essência do ente, onde a existência é a “simples sequência do ser possível”, e o possível é um “conatus ad existendum”, o que inicia um movimento que culmina em
Nietzsche com a vontade de potência como a essência mais íntima do ser.
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A interpretação grega do ser como presença, portadora da distinção aristotélica, desaparece com a interpretação romana, que não olha mais para a presença, mas para a ação, e essa perda do “vínculo espiritual” é o que torna a filosofia um jogo com “pedaços” (essência e existência) sem unidade.
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A crítica de
Schelling a
Hegel, que
Kierkegaard acolhe, opõe à interpretação hegeliana da existência como desenvolvimento de um germe (Keim) a noção de um fundamento obscuro (
Grund) que se retrai, estabelecendo entre Grund e
Existenz uma “distinção muito real” que pode esclarecer a possibilidade universal do mal.
O conceito de existência em
Kierkegaard, restrito ao homem diante do Deus da Bíblia, é um estreitamento dogmático do conceito metafísico de
Schelling, e é desse conceito, pensado sem a referência essencial à fé judaico-cristã, que
Sartre derivará seu existencialismo humanista, onde a existência precede a essência.
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Os humanismos, incluindo o existencialista, são a sombra portada e conflituosa de uma metafísica hoje mais que crepuscular, e a questão que se coloca é saber se a hora chegou de perguntar o que é a metafísica e se essa pergunta abre o caminho para um pensamento mais essencial que ela.
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A Carta sobre o Humanismo de Heidegger anuncia um pensamento que advém e que não é mais filosofia, pois pensa mais radicalmente que a metafísica, e que se prepara para descer na pobreza de sua essência precursora, recolhendo a palavra na simplicidade de seu dizer.