Ser-aí x ser-o-aí

JBDH2

O Da-sein, o “estar-aí”, que constitui o ponto de partida de *Sein und Zeit*, nos parece, assim, muito mais próximo da ψυχή dos gregos do que do cogito cartesiano, pelo menos se a ψυχή, como nos sugere Aristóteles, for, por eleição, o sujeito do verbo ἀληθεύειν: permanecer no seio do Aberto, onde tudo se apresenta à vista. Não, sem dúvida, para se exibir ali sem reservas, pois o que é pensado até seu ser e a partir dele não é simplesmente ἀληθές, mas sim ἀληθές ή ψεῦδoς, à vista ou em recuo, sendo que esse recuo projeta fenomenologicamente à frente de si mesmo uma face da coisa diferente daquela que se abriga nela. Mas, então, a ψυχή dos gregos estaria nos antípodas de tudo o que é psíquico no sentido moderno? Certamente. Muito mais relação do que coisa em si, a ψυχή aparece, para Aristóteles, como algo que “é, à sua maneira, todos os seres na medida em que eles são”. Isso não significa que, ao ver uma árvore, eu me transforme nela, mas que eu respondo a ela da maneira mais próxima, no sentido de que sou o “ali” dela, ou seja, a presença, a tal ponto que ela e eu só estamos separados um do outro pelo “entre-dois” que nos estabelece um para o outro. Assim, a ψυχή é o “lá” de todos os seres, por meio do qual eles são. É assim que Heidegger interpreta o πώς de Aristóteles, que ainda nos apresenta apenas um enigma. E é por isso também que é essencial traduzir Da-sein como “ser o lá” e não como “estar lá”, como se costuma fazer.

Se a característica fundamental da filosofia grega é, como nos diz Platão, “surpreender-se”, uma questão se coloca: com o que os gregos se surpreendiam ao se maravilharem? Com o fato de existirem? Certamente, mas no sentido grego da palavra e da coisa. Os gregos não eram, de forma alguma, aqueles que ficavam boquiabertos por estarem ali. Tal espanto não tem nada de grego. Seria, antes, o de Cébès no início de *Tête d’Or*:

Aqui estou eu,
Imbecil, ignorante,
Homem novo diante das coisas desconhecidas…

(51) O que os gregos nunca deixaram de se surpreender, pelo menos até Aristóteles, não era de forma alguma o fato de estarem ali, mas sim de serem o “ali”, a própria presença de todas as coisas, a ponto de os deuses, diz um fragmento de Hesíodo, “terem-lhes encarado em todo o seu esplendor”. Ler a filosofia grega de outra forma é fechar-se de antemão ao que ela nos dá a entender. Um ignorante como Hipias não entendia nada do que Platão dizia. “Entre: o que é belo (τί έστι καλόν;) e: o que é o belo (τί έστι τὸ καλόν;), você não vê diferença?”, perguntava Sócrates. “Nem a menor”, respondia Hipias. Heidegger nos pergunta hoje: “Entre estar ali e ser o ali, vocês não sentem a diferença? » Ούδέν γὰρ διαφέρει, continua a responder o eterno Hipias.

Se, no entanto, a ψυχή, no sentido grego, não tem absolutamente nada a ver — nem com a alma cristã, apesar de ser traduzida como “alma”, nem com o cogito de Descartes, que é a janela aberta para a coisa como objeto —, o inverso, porém, não é de forma alguma verdadeiro. A alma cristã e o cogito têm, pelo contrário, muito a ver — e muito mais do que imaginam — com a ψυχή dos pensadores gregos; é claro, de fato, que muitas proposições da Quarta Meditação provêm diretamente do De Anima. Como, porém, compreender essa relação? Como, senão por meio de uma reflexão sobre a história diferente daquela que hoje permite a crença ingênua no progresso? É possível, de fato, que o “ego cogito” de Descartes não seja, afinal, a valorização do que Heráclito, Platão e Aristóteles chamavam de ψυχή, mas o esquecimento radical do que eles entendiam por isso, embora nunca tenham especificado claramente o que a ψυχή significava para eles. Platão, no entanto, escreve no final do Fedão que μὴ καλώς λέγειν “não é apenas cometer um erro de linguagem”, mas, como se costuma traduzir, “prejudica as almas”. Mas de que maneira? E o que as almas vêm fazer aqui? Platão não diz, ao contrário, que μὴ καλώς λέγειν perturba aquilo que, em cada um de nós, é a ψυχή, transformando-nos em desertores do mundo? Quando Marx diz, por exemplo, que a filosofia de Platão não é, em sua essência, outra coisa senão “a idealização ateniense do sistema egípcio de castas”, sua proposição se refere a μὴ καλώς no sentido de Platão. É, portanto, o “lá” em si que lhe escapa em favor de empreendimentos certamente mais empolgantes. Tanto as “almas” quanto o “ser-aí” estão fora de questão. Trata-se, antes, de uma evacuação do “aí” em si mesmo naquele cujo ser consiste em “ser-o-aí”. Assim, a denominação do Dasein retorna do cogito cartesiano ao pensamento grego, do qual o cogito é o eclipse. É exatamente por isso que, aos olhos (52) de Sartre, Heidegger “evita” o cogito. É o mesmo que dizer que ele o esquiva e se afasta dele. Na verdade, ele não o “evita” de forma alguma, mas remonta ao que foi übersprungen, ultrapassado de um salto, pelo cogito de Descartes. Daí a empreitada do que Heidegger denomina a “destruição fenomenológica” do cogito, entendendo “destruição” no sentido em que René Char nos diz: “Afinal, se você destruir, que seja com ferramentas nupciais.”