Uma segunda explicação, externa mas decisiva, para esse retorno reside na influência considerável da fenomenologia alemã, sobretudo heideggeriana, que levava a negligenciar pura e simplesmente a fenomenologia francesa, isto é, essencialmente as filosofias de
Sartre e
Merleau-Ponty, consideradas na melhor das hipóteses pálidos epígonos e na pior bufonaria ou má literatura
Sartre é lido agora como autor filosófico clássico, interessando-se pela gênese de seu pensamento a partir da leitura de
Husserl e por sua influência considerável sobre
Merleau-Ponty e
Levinas, tendo passado o ano acadêmico de 1933-1934 no Instituto Francês de Berlim para estudar a fenomenologia
-
Sartre reencontrando em
Husserl suas próprias intuições, o cuidado com a concretude e o apego à positividade dos fenômenos, segundo mostrou Vincent de Coorebyter em
Sartre face à fenomenologia
-
o célebre artigo de Situations I sobre a intencionalidade explicando o fim das filosofias digestivas, a citação segundo a qual a consciência não tem interior, sendo apenas o exterior de si mesma
-
a citação segundo a qual consciência e mundo são dados de um mesmo golpe, o mundo sendo por essência relativo à consciência, interpretação da intencionalidade husserliana no sentido de um realismo
-
a fecundidade da abordagem husserliana explorada no campo da psicologia, em A imaginação e depois em O imaginário, a imagem sendo forma organizada de consciência e não conteúdo psíquico imanente
-
a citação segundo a qual a imagem de Pedro não é uma vaga fosforescência mas forma de consciência que visa diretamente o ser real Pedro
Ainda que contribua brilhantemente para a difusão dos temas maiores da fenomenologia na França,
Sartre não lê
Husserl como historiador da filosofia mas como filósofo, do que testemunha por excelência A transcendência do Ego, concebido durante a estadia em Berlim e primeira obra publicada de
Sartre
-
o objetivo de estabelecer que a consciência pode dispensar a presença do eu, superfluo por não ser exigido pela unificação do fluxo de consciência e nocivo por constituir um centro de opacidade
-
a ideia de uma consciência impessoal, absoluto não substancial e pura translucidez, tomando forma já nesse texto
O ser e o nada pode ser compreendido como vasto desenvolvimento dessa intuição inicial, nascendo a consciência voltada para um ser que não é ela mesma, revelante e não constituinte, opondo-se
Sartre à Abschattungslehre husserliana ao afirmar um ser transfenomenal dos fenômenos, o em-si
-
a consciência só podendo posicionar esse ser transcendente sob a estrita condição de que nada a separe de seu movimento posicional, sendo sua consciência de si necessariamente não cognitiva
-
a caracterização da consciência como nada, o para-si como presença a si só sendo ele mesmo no modo da negação, não se reencontrando senão ao diferir de si
-
o nada não podendo subsistir como nada senão sob a condição de não se distinguir daquilo que ele não é, não sendo ele mesmo senão se confundindo com o Ser
-
a dialética culminando na teoria de uma liberdade absoluta e incondicionada, por essência estranha ao Ser e no entanto avesso da facticidade e contingência do para-si
O movimento de nadificação que caracteriza a existência humana funda-se numa teoria do desejo, chave de abóbada da obra, o para-si só saindo de si rumo ao mundo por ser atravessado por um desejo insaciável, uma falta que não pode ser preenchida
-
o que falta ao para-si sendo sua realização em sentido estrito, uma identidade que não ameaçaria sua liberdade, querendo a existência humana realizar a síntese impossível do em-si e do para-si
-
a citação segundo a qual Deus não é ao mesmo tempo um ser que é o que é, enquanto positividade e fundamento do mundo, e um ser que não é o que é e é o que não é, enquanto consciência de si
-
o desejo constitutivo da existência humana sendo desejo de ser Deus, tudo se passando como se o mundo, o homem e o homem-no-mundo não conseguissem realizar senão um Deus malogrado