É sobretudo a propósito da linguagem que
Merleau-Ponty evidencia a mutação da reflexão husserliana, pois através dela se interroga o plano da idealidade e o sentido de todo o empreendimento constitutivo, questão que J.
Derrida caracteriza como redução da redução, abrindo caminho a uma discursividade infinita
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Merleau-Ponty distingue três períodos: primeiro, a busca eidética das formas a que toda língua possível deveria submeter-se, concepção dogmática que supõe o pensador capaz de destacar-se de sua própria língua
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Um segundo período, apoiado num artigo de H.J. Pos, atribui à fenomenologia a tarefa de descobrir nossa inerência a um certo sistema de fala do qual nos servimos com plena eficácia por nos ser presente como nosso próprio corpo, convergindo a fenomenologia da linguagem com a linguística da fala
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O fragmento sobre a origem da geometria consuma esse movimento ao situar a linguagem não mais do lado das realidades naturais redutíveis à essência mas como lugar mesmo da idealidade, cuja gênese deve ser reapreendida no elemento da palavra, sendo a perenidade da significação onitemporalidade fundada na escrita, e a existência ideal a possibilidade mais própria da encarnação linguística, conforme fragmento póstumo citado por
Merleau-Ponty
§ 2 O sentido autêntico da fenomenologia
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A fenomenologia, reapreendida do ponto de vista do movimento pelo qual acede à sua verdade, não é mais elaboração de um saber mas vigilância que não deixa esquecer a fonte de todo saber, não passagem a uma ordem de essências mas consciência mais aguda de nosso enraizamento nas coisas atuais
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O estudo da evolução de
Husserl revela realização da fenomenologia conforme seu projeto inicial de escapar tanto ao positivismo quanto ao platonismo, reconduzindo todo saber à experiência em que se enraíza sem renunciar à possibilidade do universal, o que exige compreender a razão como entelequia
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A atitude transcendental não pode ser oposta à atitude natural como o verdadeiro ao ilusório, pois suprimir a natureza sem suprimir o espírito não significa que o ser da natureza resida no espírito, sendo a própria redução que se ultrapassa na atitude transcendental sem se ultrapassar completamente
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As duas atitudes devem ser compreendidas como determinações abstratas de uma situação mais profunda que escapa a ambas, conforme a fórmula sobre haver, incontestavelmente, algo entre a Natureza transcendente e a imanência do espírito
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Há em
Husserl, como no
Merleau-Ponty da Phénoménologie de la perception, tensão entre o projeto de retorno ao solo originário e as categorias através das quais se realiza, o que explica a atenção crescente que culmina em Le philosophe et son ombre, verdadeira introdução à ontologia
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Husserl reconhece a necessidade de contato com a espontaneidade ensinante e retorno a um mundo da vida predado, mas essa exigência é recoberta pela afirmação de uma segunda redução que reconduz as estruturas assim reveladas à subjetividade transcendental, dilema já apontado na Phénoménologie de la perception sobre a constituição tornar o mundo transparente ou reter algo de sua opacidade
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Concebida como retorno ao mundo da vida, a fenomenologia não pode mais ser considerada preparatória à filosofia propriamente dita mas confunde-se com a própria filosofia, sendo a redução ao mundo da vida decisão sem apelo que não pode ser seguida de restauração de uma subjetividade absoluta, conforme a pergunta sobre como essa infraestrutura poderia repousar sobre atos da consciência absoluta
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A tarefa de
Merleau-Ponty é tomar consciência das implicações desse retorno ao mundo da vida, ultrapassando a fórmula transcendental da redução que vela o mundo da experiência tanto quanto o desvela, forjando conceitos convenientes a esse mundo bruto ou selvagem, conforme a nota de Le visible et l'invisible sobre o desvelamento do Ser selvagem pelo caminho de
Husserl e do mundo da vida
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A ontologia de
Merleau-Ponty não se opõe ao empreendimento fenomenológico mas é seu cumprimento, retomando a tarefa que
Husserl abandonara, de pensar até o fim esse mundo da vida ao qual uma fenomenologia consequente é necessariamente reconduzida
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A verdade da fenomenologia, como tentativa de levar a experiência muda à expressão pura de seu próprio sentido, consiste em desvelar uma parte de não filosofia, uma ordem que resiste à consciência constituinte, residindo no próprio lugar de seu limite, conforme a fórmula sobre a tarefa última da fenomenologia como filosofia da consciência ser compreender sua relação com a não fenomenologia e o princípio bárbaro de que falava
Schelling
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Isso não significa que a ontologia vise a coincidência com um fato bruto estranho ao sentido, restauração negativa da ordem da essência, mas que há um fato do sentido, uma teleologia da razão, que só são eles mesmos por procederem de um fundo jamais completamente reabsorvido
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A ontologia vem cumprir a fenomenologia ainda imperfeitamente exposta em
Husserl e no primeiro
Merleau-Ponty, não como negação do sentido mas tentativa do pensamento de situar-se na articulação do sentido e do não sentido, apreendendo o sentido no vivo mesmo de seu nascimento, tentativa da filosofia de igualar-se à sua parte de não filosofia, o que exige reflexão sobre o estatuto da interrogação filosófica e crítica mais radical do percurso husserliano