NATUREZA EXPERIENCIAL DO MUNDO (LM:19-23)

ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]

* Os homens nascem em um mundo repleto de coisas naturais e artificiais, vivas e mortas, transitórias e sempiternas, cujo traço comum é aparecerem a criaturas sensíveis, de modo que Ser e Aparecer coincidem e nada existe sem pressupor um espectador, pois tudo que é aparece a alguém e a pluralidade dos homens, e não um Homem singular, constitui a lei da Terra.

* Os seres sensíveis, homens e animais, sendo eles mesmos aparências que veem e são vistos, não podem ser reduzidos a sujeitos, pois são simultaneamente sujeitos e objetos e sua realidade não se assegura pela mera consciência, como demonstra a insuficiência do Cogito me cogitare ergo sum de Descartes, já que a res cogitans só aparece quando se manifesta em discurso destinado a ouvintes ou leitores.

* A infinita diversidade das aparências do mundo, raramente tematizada por pensadores e filósofos exceto incidentalmente por Aristóteles ao incluir a fruição sensível entre os modos de vida voltados ao kalon, corresponde à diversidade de órgãos sensoriais das espécies animais, de modo que cada espécie habita um mundo próprio, embora todas compartilhem a estrutura da aparência e o fato de aparecerem e desaparecerem em um mundo que as precede e lhes sobrevive.

* Estar vivo significa existir em um mundo que precede e sobreviverá à própria vida, de modo que aparecer e desaparecer demarcam o tempo como intervalo entre nascimento e morte, constituindo o protótipo secreto de todas as medidas temporais, enquanto a experiência subjetiva da duração varia conforme a proporção do ano na vida e contrasta com o tempo objetivo do mundo, cujo pressuposto é não ter princípio nem fim.

* Em contraste com a matéria inorgânica, os seres vivos são meras aparências dotadas de impulso de auto-exposição, surgindo como atores em um palco comum que se mostra diversamente a cada espécie e indivíduo, onde parecer é sempre parecer para outros segundo perspectivas plurais, de modo que toda aparência comporta um disfarce inerente à sua fenomenalidade.

* O impulso de auto-exposição comum a homens e animais faz cada ser vivo depender de um mundo estável, de outros seres e de espectadores que certificam sua existência, sendo cada vida individual percebida como processo de desenvolvimento ascendente até a epifania plena, seguido de declínio e desaparecimento, e a realidade fenomênica fundamenta o critério de completude e perfeição na aparição como medida essencial do ser.

* A primazia da aparência para criaturas diante das quais o mundo surge como parece-me condiciona as atividades espirituais, que se caracterizam por retirada do mundo aparente em direção ao eu, sem que isso elimine o fato de que homens são do mundo e também aparências, de modo que a teoria dos dois mundos, embora falaciosa, corresponde a experiências fundamentais, pois, como formulou Merleau-Ponty, só se escapa do ser para o ser, e como Ser e Aparecer coincidem, escapa-se apenas da aparência para a aparência, permanecendo a questão se o pensamento e demais atividades espirituais invisíveis podem encontrar lugar neste mundo fenomênico.