3 Ser-no-mundo

AHO, Kevin. Existentialism: an introduction. 2ed. Cambridge, UK ; Medford, MA: Polity, 2020.

Ser-em

1. A rejeição existencialista do distanciamento e da objetividade decorre de sua incapacidade de apreender as necessidades e os compromissos situados que importam à existência individual, pois a busca de uma perspectiva da eternidade abandona os significados concretos que constituem a vida e obscurece o fato de que já se está inserido e envolvido em um mundo compartilhado.

2. Por constituir a própria existência humana, o ser-em mostra que não se é uma mente desinteressada contemplando o mundo de fora, mas alguém sempre já envolvido em uma situação concreta, manejando instrumentos, realizando tarefas, relacionando-se com outros e inserindo-se em significados e valores socio-históricos que condicionam a compreensão das coisas e de si mesmo, permitindo ao existencialismo desmontar diversos dualismos tradicionais mediante as concepções de ser-no-mundo desenvolvidas particularmente por Heidegger e Merleau-Ponty.

Desfazendo dualismos

1. Ao conferir primazia ao ser-no-mundo, o existencialismo contesta o modelo sujeito–objeto característico de grande parte da filosofia moderna, segundo o qual o ser humano seria um sujeito encerrado na mente e precisaria determinar se suas percepções e ideias internas representam adequadamente objetos externos.

2. Realismo e idealismo são rejeitados porque a experiência cotidiana não apresenta uma separação originária entre interior e exterior, eu e mundo, uma vez que já se está aberto aos entes e envolvido praticamente com eles antes de qualquer representação reflexiva.

3. A compreensão situada da existência permite também contestar o dualismo moderno entre fato e valor, segundo o qual fatos objetivos pertenceriam ao mundo físico independente da mente, enquanto significados, finalidades e valores seriam apenas projeções subjetivas decorrentes de gostos individuais, contextos culturais ou aparatos sensoriais.

4. Embora seja objetivamente verdadeiro que um computador possui determinado peso, ele não é encontrado ordinariamente como mero objeto simplesmente dado (vorhanden), mas como instrumento à mão (zuhanden), disponível e funcional dentro da rede de atividades, projetos e instrumentos que constituem uma determinada identidade prática.

O mundo do trabalho

1. Na análise do martelar apresentada em Ser e Tempo, Heidegger mostra que um martelo somente possui sentido em relação a outros instrumentos, materiais e atividades — como pregos, tábuas, luvas, construir um armário ou instalar uma porta —, de maneira que nenhum instrumento pode ser compreendido isoladamente.

2. Abrir uma porta não exige refletir previamente sobre as propriedades físicas da maçaneta, pois, no fluxo cotidiano, simplesmente se estende a mão e se realiza a ação, fazendo com que as propriedades objetivas da porta desapareçam da atenção enquanto ela funciona adequadamente.

3. A concepção heideggeriana do mundo como contexto unificado de significações contesta tanto a representação científica do mundo como recipiente espaço-temporal ou soma de objetos quanto a pressuposição naturalista de que o valor seja mera projeção subjetiva de gostos individuais.

O mundo perceptivo

1. Em Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty propõe um retorno ao mundo da experiência efetiva anterior ao mundo objetivo, contestando o distanciamento teórico que reduz a realidade a um recipiente espaço-temporal composto de objetos exteriormente relacionados como partes fora de partes.

2. A diferença entre Merleau-Ponty e Heidegger aparece no modo de acessar o ser-no-mundo: enquanto Heidegger privilegia a manualidade e as relações instrumentais do mundo do trabalho, Merleau-Ponty toma o mundo perceptivo como fundo unificado que situa e orienta os projetos humanos.

3. A crítica merleau-pontyana da percepção rejeita simultaneamente realismo e idealismo, pois ambos partem de sensações discretas e adotam o mesmo modelo científico distanciado de um espaço geométrico ocupado por objetos em interação causal.

4. A investigação de Merleau-Ponty começa pelas percepções vividas em que se está corporalmente circundado, envolvido no mundo e situado aqui e agora, pois a orientação perceptiva limitada oferece diferentes aspectos de um fundo unificado que constitui o horizonte dos horizontes de toda experiência.

5. O significado não consiste em uma ideia ou representação mental, mas emerge espontaneamente das percepções situadas e envolvidas, da orientação no espaço público e do uso corporal das coisas.

6. O ser humano não pode ser compreendido como combinação de duas substâncias independentes, mente e corpo, porque constitui uma unidade cuja relação conceitual com as coisas depende da sinergia contínua entre consciência encarnada e mundo.

7. A concepção de ser-no-mundo oferece uma crítica ao naturalismo dominante em grande parte da filosofia anglófona contemporânea, fortalecido pelos avanços das ciências empíricas e da neurociência e sustentado por pressuposições epistemológicas e metafísicas específicas.

8. Heidegger e Merleau-Ponty mostram que a relação primordial com as coisas não é de distanciamento e objetividade, mas de envolvimento situado e habilidoso numa rede referencial de significações que nunca pode ser inteiramente explicitada teoricamente.

Aspectos da alteridade

1. Uma contribuição decisiva da concepção existencialista de ser-no-mundo consiste em tornar possível a consideração de perspectivas historicamente marginalizadas, pois, se toda compreensão parte de uma orientação situada e corporal, essa orientação também é configurada por formas de alteridade como loucura, diferenças raciais e sexuais e deficiência física.

2. Fanon identifica uma camada ainda mais profunda de alienação, denominada esquema epidérmico-racial, na qual o olhar julgador do europeu branco transforma a pessoa negra em objeto e rompe sua relação espontânea com o mundo.

3. Iris Marion Young, apoiando-se em Beauvoir e Merleau-Ponty, identifica uma estrutura análoga na motilidade e na orientação espacial femininas, sustentando que existe um estilo corporal característico da existência feminina produzido não por diferenças biológicas essenciais, mas pela opressão exercida num mundo patriarcal.

4. O estilo corporal feminino é positivamente aprendido à medida que a menina compreende socialmente que é uma menina, adquirindo hábitos como caminhar, inclinar a cabeça, ficar em pé ou sentar-se de maneiras culturalmente reconhecidas como femininas, e quanto mais assume esse estatuto, mais pode compreender-se como frágil e imóvel e realizar ativamente sua própria inibição corporal.

5. Filósofas feministas latinas como Gloria Anzaldúa, Mariana Ortega e Ofelia Schutte ampliam a problematização do ser-no-mundo ao examinar a experiência vivida de imigrantes, exilados e pessoas marginalizadas que habitam zonas fronteiriças ambíguas, possuem identidades múltiplas ou transitórias e, por estarem entre culturas, não encontram um pertencimento pleno ao mundo.

6. A experiência de não pertencer plenamente nem ao mundo dominante nem às próprias culturas de origem reúne diferentes formas de opressão sob a condição comum de não se ajustar às estruturas estabelecidas, condição que pode transformar sujeitos marginalizados em ameaça para a ordem cultural dominante e favorecer a identificação solidária entre experiências distintas de exclusão.

7. Existir entre mundos produz um sofrimento específico marcado pela ansiedade, pelo risco de violência e pela ausência de pertencimento, contrastando com a descrição heideggeriana da cotidianidade média como compreensão pré-reflexiva fluida e familiar do mundo.

8. As análises da alteridade enriquecem a compreensão da existência ao mostrar que o ser-no-mundo assume formas profundamente diferentes e pode ser desorganizado por opressões estruturais e violências relacionadas a raça, gênero e etnia, abrindo ainda novas investigações sobre doença, deficiência, identidade sexual, corporeidade e transtornos mentais.

9. O ser-no-mundo designa primeiramente a existência concreta e situada que antecede toda teorização distanciada, pois a filosofia nunca começa a partir de lugar nenhum, mas de uma situação corporal particular já inserida em um mundo unificado no qual se está inevitavelmente envolvido.

10. O significado das coisas não é produzido por associações cognitivas, mas por suas relações com outras coisas no interior da totalidade estruturada em que já se está envolvido, de modo que nada é encontrado isoladamente e cada coisa adquire sentido por sua inserção nos projetos práticos e na trama contextual de corpo, consciência e mundo.

11. O envolvimento no mundo implica uma compreensão pré-reflexiva que possibilita manejar coisas e mover-se de maneira fluida, fazendo com que a maior parte das ações cotidianas ocorra sem intenções mentais explicitamente autorreferenciais.

12. A experiência de dirigir longas distâncias em estado de automatismo mostra que é possível manter o automóvel na estrada, frear, acionar a embreagem e executar outras ações adequadas sem consciência explícita do que se está fazendo, evidenciando uma competência prática que não depende continuamente de representações conscientes.

13. Grande parte da vida cotidiana transcorre nesse estado pré-reflexivo de absorção prática, tornando inadequada a concepção cartesiana segundo a qual toda ação corporal seria causada por uma intenção mental autorreferencial, pois a própria inserção situada no mundo já incorpora uma familiaridade fluida com as coisas que dispensa consciência temática constante.

14. A partir de Hubert Dreyfus e de sua crítica pioneira ao modelo computacional da mente, o existencialismo forneceu bases para questionar a concepção tradicional das ciências cognitivas segundo a qual o cérebro funcionaria como um computador e a mente como um conjunto de programas regidos por regras.