===== ZIMMERMAN (1982:244-246) – LIBERAÇÃO ===== O tratamento mais extenso de Heidegger sobre a liberação diz respeito à liberação do indivíduo da vontade própria e do pensamento objetivante. Essa discussão é encontrada em seu ensaio “Towards the Elucidation of Releasement: From a Dialogue on a Country Path about Thinking” (1944-1945) (GA77). Esse diálogo entre um cientista, um acadêmico e um [[termos:p:professor:start|Professor]] (que parece representar Heidegger) argumenta que o “pensamento” genuíno começa somente quando o indivíduo é liberado da intencionalidade inerente ao pensamento representacional. (G, 29-30/58-59) O pensamento representacional é intencional porque revela os entes apenas de acordo com os padrões que impõe. O fato de Heidegger já ter se engajado nesse tipo de pensamento fica evidente na seguinte observação que ele fez em 1927: Na ontologia, ou seja, na filosofia, Ser se torna (um) objeto explícito e tematicamente apreendido (Gegenstand). A (filosofia) é, portanto, a tarefa livremente apreendida da iluminação e formação da compreensão do Ser pertencente à existência humana. (GA25, 38) Em aparente referência a essas declarações anteriores em geral, e à orientação subjetivista de Ser e [[termos:t:tempo:start|tempo]] em particular, um dos interlocutores confessa que “Anteriormente, chegamos a ver o pensamento na forma de reapresentação transcendental-horizontal”. (G, 36/63) O horizonte transcendental refere-se ao campo no qual um objeto pode aparecer. Ao conhecer as coisas e lidar com elas, esquecemos as condições necessárias para a possibilidade de encontrá-las. O senso comum supõe que o horizonte se abre apenas porque abrimos os olhos, enquanto a filosofia sabe que olhar pressupõe um horizonte. Embora Ser e Tempo sugira que o [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]] projeta [[termos:h:horizontes:start|Horizontes]] para si mesmo, o diálogo deixa claro que o Dasein não é fonte nem centro do horizonte. Em vez disso, o horizonte é “o lado voltado para nós de uma abertura que nos cerca; uma abertura que está repleta de visões das aparições do que, para nossa reapresentação, são objetos”. (G, 37/64) Essa abertura é chamada de “[[termos:g:gegend:start|Gegend]]” ou “[[termos:g:gegnet:start|Gegnet]]”, termos etimologicamente ligados à preposição “gegen”, que significa “em direção a”, “na direção de” ou “de encontro”. Gegend parece ter o mesmo significado de [[termos:e:ereignis:start|Ereignis]]. Gegend reúne a clareira na qual os entes podem se manifestar uns aos outros. Esta clareira não é uma projeção subjetiva, mas a abertura na qual a própria “subjetividade” pode ocorrer primeiro. Sob o domínio do egoísmo e da vontade própria, o indivíduo considera a si mesmo como o ponto de vista autofundante em torno do qual tudo o mais é organizado como um objeto para ele. Na [[termos:v:verdade:start|verdade]], porém, nascemos em um jogo de aparições que não tem “centro” nem “interioridade”. Entretanto, somente se formos liberados do isolamento imposto pelo egoísmo obstinado é que poderemos nos abrir totalmente para esse jogo. Na liberação, a região lúdica “se apropria da presença (Wesen) do homem para sua própria região...” (G, 62/83) O indivíduo liberado não se sente mais olhando para os objetos; em vez disso, sente que os entes estão aparecendo uns aos outros por meio dele! Como essa liberação extraordinária é realizada? Em primeiro lugar, como o pensamento representacional ou objetivador é, em si, um tipo de vontade, dificilmente podemos esperar parar esse pensamento por um ato de vontade. A vontade apenas reforça a vontade. No entanto, a liberação não ocorre a menos que a pessoa esteja, de alguma forma, pronta para ela. Por isso, o cientista diz ao professor: “Você quer um não-querer no sentido de renunciar ao querer, de modo que, por meio disso, possamos nos liberar, ou pelo menos nos preparar para nos liberar, para a essência buscada de um pensamento que não é um querer”. (G, 31/59-60) Renunciar à vontade, entretanto, requer um “traço” de vontade que desaparece inteiramente na liberação. Esse “traço de vontade” é o modo como devemos “pensar a ‘resolutividade’ como é pensada em Ser e Tempo: como a [[termos:a:auto:start|auto]]-abertura propriamente (eigens) empreendida do Dasein para o aberto...” (G, 59/81) Como a liberação está além da vontade, ela está fora da distinção comum entre atividade e passividade. No contexto desse diálogo, “fazer” significa agir para atingir um objetivo proposto pelo [[termos:e:ego-hlex:start|ego]]. No entanto, o “não-fazer” característico do indivíduo liberado “não é, de forma alguma, uma questão de permitir que as coisas deslizem e andem à deriva”. (G, 33/61). Em vez disso, esse não-fazer é “algo como o poder da ação e da determinação”. (G, 58/80) Liberação significa a resolução de permitir que a natureza da verdade (não ocultação) seja revelada. Essa determinação, um tipo de “resistência” (Ausdauer) que aumenta à medida que a liberação aumenta, é chamada de “constância” (Inständigkeit). (G, 59/81) A liberação é uma nobreza de espírito (Edelmut) que espera humildemente a revelação do Ser dos entes. Aguardar a manifestação do Ser pode envolver atividades práticas. Como liberados, estamos abertos para as possibilidades dos entes. Em vez de submeter as coisas à nossa vontade, procuramos deixá-las ser o que já são. Há duas maneiras de cultivar o solo, por exemplo. O homem subjetivista trata a [[termos:t:terra-dh:start|terra]] meramente como matéria-prima a ser explorada para obter lucro; portanto, ele usa produtos químicos que melhoram drasticamente a “produção” das colheitas por um tempo, mas que, no final, degradam a terra. O homem liberado considera a terra como a fonte da [[termos:v:vida-dh:start|vida]]; portanto, ao cultivá-la, ele cuida para que o solo permaneça fértil e saudável. “Esperar” no Ser pode significar nutrir e cuidar. A verdadeira nobreza reside em tal espera. Se o nobre é aquilo que tem origem (Herkunft), e se nossa origem como seres humanos é a região das regiões (Ereignis), somos nobres quando nos deixamos apropriar por essa região. (G, 61/83) Quando apropriado, o ego dá lugar ao que é mais fundamental — a abertura. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}