===== SCHÜRMANN (ME:28-45) – QUE SIGNIFICA «SER VIRGEM»? (§§1-3) ===== Que significa ‘ser virgem’? (§1) O título e sua tradução: Tradução problemática do latim para o alemão, por ser relaxada (intravit por "subia" adiciona uma nuance, fora do texto); "Jesus" se torna "Nosso Senhor Jesus Cristo"; o ativo da versão latina, excepit, se torna passivo, "foi recebido"; a menção da domus está omissa da tradução, e de modo errôneo: mulier quaedam, Martha nomine não significa "uma virgem que era mulher" (virgem se refere à mulher ou a Marta?); a equivalência entre "Marta" e "mulher" - mais precisamente "mestra da casa" - pode estar se referindo a exegese tradicional; nos sermões de Eckhart a aproximação entre nomes bíblicos e conceitos filosóficos são frequentes (segundo Eckhart: em interpretando a Escritura importa sempre fazer eclodir o sentido oculto sob a letra" (Prólogo do Liber porabolarum Genesis). As articulações dos argumentos do sermão se dão por fórmulas oratórias ou interpelações, que definem os passos seguido por Eckhart em sua exegese. Por exemplo: "Agora então, prestem bastante atenção a esta palavra...", ou algo do gênero. "'Virgem' designa alguém liberado de todas as imagens, tão franco se foi quando ainda não era". Esta interpretação apela a uma [[termos:t:tradicao:start|tradição]] filosófica, a uma teoria da "impressão" que uma representação põe sobre o intelecto (noûs). A recepção de Jesus por uma "virgem" pode se comparar a de uma imagem no intelecto: se quer recebê-la, o intelecto deve necessariamente estar vazio da determinação que ela aporta: entbildet. Quando a imagem entra em ti, Deus deve ceder com toda sua divindade; pertences então às imagens, e não mais a Deus. O homem maduro "sabe muitas coisas, e tudo isto são imagens". Eis porque o intelecto deve estar inteiramente vazio, pura receptividade, para acolher Jesus por inteiro. Eis o que significa "ser virgem". O homem por quem Jesus quer ser recebido deve se tornar livre de toda representação "que seja então como não era". Antes que eu fosse, antes de meu nascimento na [[termos:t:terra-dh:start|terra]], eu existia segundo um modo antes do mundo. Eu ainda não era este ser que conhece as coisas por meio de representações e de fantasmas: eu era inteiramente livre de toda imagem retirada do mundo, pois do mundo, eu dele nada tinha. Nesta existência originária, quando eu era e no entanto ainda não era, nenhuma necessidade me ligava ao conhecimento das coisas sensíveis pelas representações retiradas do sensível: nenhuma imagem em mim estava. A [[termos:t:totalidade-mac:start|totalidade]] das coisas não me era estranha como o são as representações, pois tudo se mantinha em mim enquanto uma "ideia". Nesta preexistência, cada ideia está igualmente próxima de todas as outras; graças a sua possessão simultânea, eu era inteiramente "franco", ledic, "virgem" de todas as imagens. Quem queira receber Jesus deve se liberar de todas as imagens exteriores e se tornar tão livre quanto era antes de vir ao mundo. Eckhart não se atarda aqui sobre esta existência eterna do homem antes de sua vinda ao mundo; traça ao invés o caminho que convida ao engajamento: uma via de liberação e de recuperação da liberdade originária, eis o que importa; toda a continuação do sermão é uma retomada incansável desta solicitação ao caminho aberto para a existência. O parágrafo inicial é também uma alusão à Virgem Maria (Theotokos): o termo empregado por Eckhart, enpfangen significa "receber" e "conceber", mas sendo este último sentido secundário. O tema central desta concepção, de influência augustiniana, é que as criaturas preexistem por todo eternidade em Deus, em seu ser ideal. Concepção cara a Platão (vide o diálogo "Menon"), passada pelos primeiros padres cristãos , em particular Orígenes enquanto doutrina da "preexistência da alma" (psyche). A teoria das imagens no intelecto, em Eckhart, é devida à [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]] em seu tratado da alma, tendo sido desenvolvida por Tomás de Aquino. Assim a conexão necessária, segundo Eckhart, entre a virgindade e a recepção de Jesus no homem é fundada na filosofia aristotélica do "intelecto receptivo". Um novo comércio com as coisas (§§2-3) O desapego ou a "não identificação" (segundo) e (terceiro) parágrafos do SERMÃO II de Eckhart (43). O termo-chave do (segundo parágrafo) é [[termos:e:eigenschaft:start|Eigenschaft]], apego, podendo significar também propriedade. Se apegar às imagens, como a uma propriedade, deixa o espírito estupefato e cria obstáculo à recepção. Logo a oratória de Eckhart faz lembrar o "Hino à caridade" (agape; 1Co 13:1-13) em São Paulo, levando de imediato a seu ponto principal: eis quão grande deve ser o Desapego daquele que quer ser livre e liberado como era em sua preexistência e como é em seu intelecto (nous). Qualquer que seja minha ciência, posso me tornar "virgem", pois todo meu saber não impediria a acolhida de Jesus em mim senão na medida que possua esta ciência com avidez. O apego fere a liberdade. Vê-se: o que cria obstáculo ao espírito e se opõe à virgindade espiritual, não são as representações como tais, mas o apego às representações. Uma única coisa importa: relaxar a empresa exercida sobre as coisas, e se despossuir. Deixar aí todo apego e receber em troca a Serenidade — atingida isto serei livre como era quando não era. A via de Mestre Eckhart é a via do Desapego. Esse mesmo parágrafo estabeleceu um elo entre o que Eckhart chama o apego, e a [[termos:t:temporalidade-dh:start|temporalidade]]. O homem apegado às coisas está disposto entre um antes e um depois, habita a duração, enquanto que o desapego é uma questão de «este atual agora» (que dizem "gegenwertigen nû"). O homem desapegado habita o instante. Depois é uma questão de «o que faço ou não faço», isto é das obras. As obras são colocadas em paralelo com as representações intelectuais: para umas e para outras pode-se considerar como a uma propriedade. Ter uma cultura, empreender obras: uma e outra fazem obstáculo tanto quanto esta cultura e essas obras são adquiridas ou executadas na duração, isto é projetadas, realizadas, possuídas. O «antes» de uma obra é seu projeto (mais adiante se encontrará a expressão «obras premeditadas»), o «depois», sua recompensa. Projeto e recompensa são marcas de propriedade e não podem ser conformes à «vontade muito amada de Deus». A duração é o modo de temporalidade correspondente ao apego. A temporalidade do desapego, o instante, aniquila o projeto tanto quanto a recompensa. Não é senão ele próprio. Qualquer que seja minha ciência e quaisquer que sejam minhas obras, se nesse instante atual onde me entrego eu disponho como se não dispusesse disso, se sou livre e acessível à seu olhar como se estivesse na origem, então sou verdadeiramente desapegado. É em «esse agora» sempre novo que sobrevém e se verifica o desprendimento. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}