===== FÉDIER (1995:113-114) – FUGE ===== {Fugue} (fr.) é a palavra deliberadamente escolhida para traduzir o alemão {Fuge} — embora a palavra alemã não seja usada no sentido de composição musical. A razão para isso não é primordialmente a assonância (embora ela desempenhe um papel importante), mas sim o fato de que o significado que fala por meio de nossa palavra 'fugue' nos aponta inequivocamente na direção de ouvir o que Fuge significa nos Complementos (GA65). Nossa 'fuga' vem do italiano fuga, voo, porque as frases musicais desse tipo de composição, aparecendo sucessivamente em todas as partes, parecem fugir e continuar por sua vez. Assim diz Littré, no artigo 'fugue'. Ele continua: "Os alemães não aceitam a etimologia italiana de fugue, um termo musical. De acordo com eles, fuga, em alemão Fuge, vem do verbo [[termos:f:fugen:start|fügen]], ajustar, adaptar; e, de fato, a fuga é uma adaptação das partes de acordo com o contraponto mais complicado". Na [[termos:v:verdade:start|verdade]], nós também esquecemos completamente a etimologia da palavra "fuga" — a ponto de considerarmos espontaneamente a fuga (de uma criança fugitiva) como um simples homônimo da composição musical. Para nós, o significado da palavra "fuga" vem da impressão que temos ao ouvir as grandes fugas do repertório. Significa, portanto, a rigorosa arquitetura que ouvimos em ação na estruturação da peça. Mas a interpretação de Littré da etimologia italiana — "frases semelhantes, aparecendo sucessivamente em todas as partes, parecem fugir e perseguir umas às outras por sua vez" — dá uma [[termos:v:visao:start|visão]] tão pertinente do estilo geral dos Compléments (GA65) que acho sensato seguir, à custa dessa tripla partida, a piscadela da homonímia. Pois o que deve ser visto com as seis fugas de Heidegger é que elas não são seis peças, mas sim o imponente sextino em que uma única virada é exposta por sua vez — aquela anunciada pela locução cardinal, talvez, de todos os Complementos: die [[termos:k:kehre:start|Kehre]] im [[termos:e:ereignis:start|Ereignis]]: a virada dentro do próprio Ereignis. Esse movimento incessante e vertiginoso — se, pelo menos, conseguirmos manter o termo livre de qualquer ênfase excessivamente subjetiva (para um [[termos:s:sujeito:start|sujeito]], nada é menos vertiginoso do que a virada em questão) — anima a escrita dos Complementos sem o menor alarde. Não se trata, de modo algum, de um princípio de composição, mas de uma disposição singular que preexiste ao texto, atribuindo-lhe sua dispersão tropológica. Em tournement, de fato, temos de entender: a virada, o giro, o fato de girar, o movimento daquilo que gira, o giro, o rolar, o próprio giro e a reversão. Todos esses significados, por sua vez, sustentam as relações configurativas de todo o texto. Eles o sustentam pelo que sua fidelidade encontra para se relacionar no centro da virada, onde é o Ereignis que está em giro. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}