====== sensibilidade em Merleau-Ponty (1996:21-24) ====== //Data: 2024-12-02 00:09// Encontramos no autor da Fenomenologia da Percepção (à qual nos limitaremos aqui) ((Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945)), as três teses, ligeiramente modificadas, embora consideravelmente mais complexas, que expusemos no início deste capítulo, e que conduzem de novo à desvalorização da [[lx>sensibilidade]] e, em última análise, à negação da sua essência. A estrutura relacional da sensibilidade, que é identicamente a sua redução à sensação — a que M. Henry, nos textos em que denuncia o conceito tradicional do sensível dado, chama estrutura ekstática, isto é, a projeção do sujeito na exterioridade do mundo — esta estrutura toma uma forma extrema em Merleau-Ponty e na sua teoria da vida sensível concebida como a fusão do sujeito que sente e do objeto sentido. Aqui, a consciência sensível exalta-se numa espécie de sensualidade mística, cujo fervor a descrição fenomenológica procura transmitir quando evoca, por exemplo, esta “consciência engolfada pelo seu objeto”, esta “comunhão” ((MPPP:249)), este “enraizamento”, este “investimento” do eu pelo mundo que “assalta incessantemente... a subjetividade como as ondas cercam um naufrágio na praia” ((MPPP:240)). Este desregramento de metáforas exprime simplesmente a gênese da vida sensível nesta relação com o mundo a que está sujeita desde os primórdios da filosofia. Retomando uma tese tradicional, Merleau-Ponty diz-nos que a sensação nasce do corpo, que não é outra coisa senão ser/estar “urdido a um mundo” ((MPPP:173)). A gênese da vida sensível na sensação, a partir da estrutura relacional que lhe é própria, fica explícita na seguinte definição: o sujeito [22] da sensação é “uma potência que co-nasce num certo meio de existência” ((MPPP:245)). Imersa e como que engolfada no mundo, cujas múltiplas impressões capta, ou melhor, captada e como que possuída por elas (“o sensível apodera-se do meu ouvido e do meu olhar”) ((MPPP:245)), a consciência sensível está entregue ao seu fluxo incessante, condenada a viver esse tempo da impressão que “escapa ao mesmo tempo que se reconquista” ((MPPP:277-278)) — esse tempo em que “nada se estabiliza”, como dizia Platão. Na história da filosofia, a fenomenologia de Merleau-Ponty representa, sem dúvida, o grau extremo de dissolução do sujeito na vida dos sentidos. Aprisionado pela dispersão essencial desta vida no tempo, o sujeito aparece como um ‘eu desfeito’ ((MPPP:254)). Mas, uma vez mais, esta decomposição remete-nos para a estrutura relacional fundamental da subjetividade, para este “[[lx>ser-no-mundo]]” que a constitui e faz dela um ser constituído — sempre já constituído a partir de um princípio que a precede desde toda a eternidade, e cujo ato constitutivo representa essa camada “pré-consciente”, “pré-pessoal”, que lhe escapa e lhe é para sempre estranha. A consciência sensorial e o seu ser no mundo têm as suas raízes no inconsciente, nas profundezas originárias do ser pré-objetivo, “não-tético”, que carimbará toda a sua vida sensorial com o selo da impessoalidade e do anonimato. A sensação é “anônima”, diz-nos o filósofo, “a visão é pré-pessoal” ((MPPP:250)). “A perceção está sempre no modo “nós”. Não é um ato pessoal pelo qual eu dou sentido à minha vida” ((MPPP:277)). Merleau-Ponty merece crédito por ter tentado, como um bom fenomenólogo, reinserir a vida sensorial na subjetividade, para recuperar, como ele próprio afirma, “a sensorialidade que eu experimento, a partir de dentro” ((MPPP:254)). Esta vida interior, e anterior ontologicamente, da sensorialidade, ele lhe conferiu seu nome, mas que permanece nele um termo vazio, privado de conceito: “A sensação aparece necessariamente a si mesma num meio de generalidade, vem de além de mim, vem de uma sensibilidade que a precedeu e que lhe sobreviverá” ((MPPP:250)). Merleau-Ponty formulou mesmo uma intuição notável, que o deveria ter colocado no caminho de uma verdadeira essência [23] da sensibilidade, quando escreveu: Se “quero realmente compreender como há visão”... como “o objeto (pode) existir no olhar do sujeito”, o “ato (do sujeito) deve ser inteiramente dado a si mesmo” ((MPPP:274)). É esta exigência de um ato de entrega, fundamento da receptividade humana e, como tal, princípio de todo o conhecimento, que está no cerne da filosofia da sensibilidade de Michel Henry e que motiva as objeções que ele dirige ao pensamento tradicional, clássico e contemporâneo. Com Merleau-Ponty, a faísca só brilhou por um momento, e no resto do texto que acabamos de citar, o filósofo emaranha-se em contradições e obscuridades que traem a obsessão da fenomenologia da consciência sensível com o conceito de ser-no-mundo. Com efeito, as linhas que se seguem mostram claramente como a dação originária, por definição puramente subjetiva, é negada à consciência sensível, porque foi confundida com o conhecimento de si e a sua estrutura objetiva. “Para que haja visão do objeto ou percepção tátil do objeto, faltará sempre aos sentidos essa dimensão de ausência, essa irrealidade através da qual o sujeito pode ser conhecimento de si e o objeto existir para ele. A consciência do ligado pressupõe a consciência do ligante e do seu ato de ligação, e a consciência do objeto pressupõe a consciência de si, ou melhor, são sinônimos. Se há, portanto, consciência de alguma coisa, é porque o sujeito é absolutamente nada, e as 'sensações', a 'matéria' do conhecimento, não são momentos e habitantes da consciência, estão do lado do constituído” ((MPPP:274)). Constantemente expulso da sua interioridade e projetado na exterioridade, o //Eu// que vive e se experimenta na sua vida sensorial aparece despojado da sua essência e, como tal, privado de conceito. O seu dom original, sempre pressuposto no sensível dado, permanece um mistério de que nos livramos entregando-o à noite do inconsciente. Na fenomenologia de Merleau-Ponty, a sensibilidade não é mais uma conquista espiritual do que no idealismo platônico ou no formalismo transcendental de Kant. Aparece certamente na Fenomenologia da Percepção como uma modalidade da vida espiritual sob a forma de um “modo de ser no mundo”, mas é um modo de ser em que a subjetividade se perde, cativa do objeto que a absorve e acaba por abolir. Será o próprio Husserl responsável por esta dissolução da consciência sensível? É ao mestre e fundador que devemos regressar, tomando como guia Michel Henry e a sua crítica [24] àquilo a que Husserl chamou “fenomenologia material”. A fundação de uma fenomenologia material autêntica sobre as ruínas da fenomenologia infundada de Husserl representa um momento crucial na construção do sistema filosófico de Michel Henry. Sobrepõe-se à fundação de um conceito de sensibilidade, que ao mesmo tempo se encontra colocado numa esfera essencial de interrogação. Desenvolveremos este ponto na terceira parte. Digamos, desde já, que o pensamento de Husserl reproduz a tríplice tese que destacámos acima. Recordemos os termos essenciais: 1. a vida sensível é reduzida à sensação; 2. é concebida como matéria sujeita a uma forma e privada em si mesma de qualquer valor transcendental; 3. subordinada à forma, apresenta a estrutura relacional própria de toda a consciência de objeto. Finalmente, é entregue ao tempo, ao tempo fenomenológico, que aparece, como vimos em Merleau-Ponty, como uma determinação inultrapassável da consciência na sua própria essência originária. ---- //DUFOUR-KOWALSKA, G. L’art et la sensibilité: de Kant à Michel Henry. Paris: J. Vrin, 1996// {{tag>Dufour-Kowalska}}