====== tecnicização e disposição do mundo (2005:541) ====== PEOS * Co-pertença essencial entre subjetidade e vontade na metafísica moderna * A metafísica moderna determina o ser do ente como vontade, e essa determinação implica que o ente, enquanto subjectum, se compreende a si mesmo como se-querer e, simultaneamente, como se-saber. * O se-querer não é um impulso cego, mas já contém em si um se-saber de si, de modo que a vontade e a representação se pertencem originariamente. * O subjectum desdobra-se, assim, no modo do ego cogito, isto é, como apresentação de si a si mesmo, na qual o ente se assegura de sua própria presença. * A re-presentação constitui o ser do ente enquanto subjectum, pois é nela que o ente se reúne consigo mesmo como fundamento de toda inteligibilidade. * Constituição da subjetividade como consciência reunificadora do saber * O se-saber de si torna-se o sujeito por excelência, uma vez que nele se reúne todo o saber e todo o conhecível. * A consciência é definida como co-agitatio, isto é, como reunião ativa e concentradora, comparável a um maciço que agrega as montanhas. * Essa reunião não é neutra, pois a co-agitatio é já um velle, um querer, revelando que a subjetividade é essencialmente vontade. * A metafísica da subjetidade pensa, portanto, o ser do ente no sentido da vontade que se sabe e se assegura a si mesma. * Dinâmica histórica da res cogitans orientada pela redução da distância sujeito-objeto * A história das metamorfoses da res cogitans é governada pela exigência constante de reduzir a distância entre sujeito e objeto. * O objetivo latente e depois explícito da subjetividade moderna é assimilar todo ente à sua própria estrutura. * Essa assimilação visa eliminar qualquer exterioridade resistente, fazendo com que o ente só possa aparecer se corresponder às condições impostas pelo sujeito. * Centralidade do princípio de razão como exigência de prestação de contas do ente * Com Leibniz, o princípio de razão assume um papel central, segundo o qual nada é sem razão e todo ente deve justificar sua presença. * O ente é convocado a exibir, juntamente com sua presença, a razão de seu ser, isto é, sua clareza e inteligibilidade disponíveis para o sujeito. * A gratuidade da presença torna-se intolerável, pois o ente deve sempre render contas e deixar-se dominar conceitualmente. * O princípio de razão, embora ele próprio sem razão, não é interrogado em sua ausência de fundamento, mas apenas aplicado de modo incessante. * Expansão infinita do porquê e recusa da diferença ontológica * A aplicação ilimitada do princípio de razão conduz a um mau infinito do porquê, no qual cada ente é fundado por outro ente. * Essa dinâmica impede o salto essencial que suspenderia o ente em seu conjunto e abriria o pensamento à diferença entre ser e ente. * A subjetividade prefere ignorar a impossibilidade de um fundamento último e persevera na cadeia explicativa interminável. * O apetite de redução da distância sujeito-objeto orienta essa dinâmica, buscando reconduzir todo ente à esfera subjetiva. * Supressão progressiva da exterioridade do em-si no idealismo alemão * Com Kant, afirma-se a identidade estrutural entre o sujeito transcendental e as condições de possibilidade do objeto. * A coisa em si ainda marca um resíduo de resistência, um espaço não totalmente noetizável. * No idealismo alemão posterior, essa reserva é eliminada, e toda coisa em si é reduzida a momento da atividade do sujeito. * A identidade plena entre sujeito e objeto consuma a noetização total do ente. * Deificação do sujeito e fechamento do universo da inteligibilidade * O mundo torna-se auto-reflexão do Sujeito absoluto, no qual nada permanece estranho ou irredutível. * Tudo se torna conceitualizável, dominável e manipulável, e desaparece qualquer atenção à dimensão enigmática do ente. * O conceito de sujeito cumpre plenamente a função de substituir a fuga de Deus enquanto fundamento supremo. * Transformação da filosofia em práxis produtiva * Com Marx, a dinâmica da subjetividade culmina na afirmação de que não se trata mais de pensar o mundo, mas de transformá-lo. * A vontade de esclarecimento absoluto revela-se como vontade de domínio integral do ente. * A luz buscada não é mais a do desvelamento pensante, mas a da manipulabilidade total. * Passagem da objetividade à disponibilidade absoluta do ente * O ente deixa de aparecer como Gegenstand, algo que ainda oferece resistência. * Ele se converte em fundo disponível, estoque de energias e materiais destinados ao consumo. * O real não é mais objeto, mas reflexo da vontade arrazoadora do sujeito. * Constituição do Gestell como forma extrema da subjeti(vi)dade * O soi constitui-se como Gestell, isto é, como arraisonnement, dispositivo que reúne todos os modos de pôr e dispor do ente. * O Gestell é o conjunto dos horizontes atribuídos ao ente pela subjetividade, mantendo-o na esfera da clareza sem retraimento. * O homem é interpelado a tornar-se ele mesmo vontade de desvelamento e exploração. * A técnica aparece como consumação da metafísica da subjetividade, na qual tudo é convocado a tornar-se fundo disponível. * Ambiguidade essencial da técnica como destino de desvelamento * A técnica não é em si demoníaca, mas perigosa enquanto destino de desvelamento não pensado. * O perigo reside no esquecimento da técnica como doação do ser e não como simples instrumento. * A essência da técnica permanece ambígua, pois nela cresce simultaneamente o perigo e a possibilidade do que salva. * A época técnica é, assim, o momento extremo da perda e da possível recondução do soi à verdade do ser. {{tag>Caron}}