====== metafísica da subjetividade (2005:506) ====== PEOS * Abertura do problema da metafísica da subjetividade como aplicação da subjetidade ao homem * A metafísica da subjetividade é determinada como o momento histórico em que a estrutura da subjetidade, inicialmente independente do homem, é aplicada ao próprio homem, fazendo com que toda relação com o ente passe a ser mediada pelo moi. * O homem, ao procurar seu lugar exclusivamente em si mesmo, perde sua inserção originária no mundo e passa a dispor o mundo ao redor de si segundo a representação que dele toma. * O mundo deixa de ser o âmbito no qual o homem encontra sua medida e torna-se o correlato de uma disposição subjetiva que o ordena e o assegura. * Essa inversão marca a ruptura decisiva com a experiência grega do homem como pertencente ao aberto do ente. * Emergência do ego cogito como subjectum eminente * Com Descartes, o homem enquanto ego cogito torna-se o hypokeimenon eminente, isto é, o subjectum no sentido metafísico medieval de fundamentum inconcussum. * O sujeito é instituído como o ente mais certo, aquele a partir do qual toda verdade deve doravante ser medida. * A natureza aparece apenas como objeto para o sujeito, perdendo qualquer autonomia ontológica. * O ente só vale enquanto aquilo que pode ser assegurado na representação subjetiva. * Instauração do mundo como imagem e do ente como objeto representado * O mundo passa a ser compreendido como Bild, imagem fixada pela representação. * O ente não se dá mais na simplicidade de sua presença, mas apenas enquanto re-presentado diante do sujeito. * A verdade do ente desloca-se para o interior da subjetividade, que se torna o lugar exclusivo da validação do real. * O ente converte-se em ferramenta para a consciência, em algo manipulável e utilizável. * Centralidade da certitudo como critério supremo da verdade * A época moderna se caracteriza pela instalação do dúvida e pela necessidade de um fundamento absolutamente seguro. * A certitudo deixa de se apoiar no ente exterior e fixa-se na consciência de si do eu particular. * O ego cogito ergo sum fornece o primeiro ente absolutamente assegurado em seu ser. * A partir desse ente certo, tudo o mais será medido quanto ao seu grau de verdade e realidade. * Redução do si ao eu segundo a estrutura do subjectum * O soi passa a compreender-se exclusivamente como moi, isto é, como uma esfera de representação fechada sobre si. * Esse eu se concebe como uma coisa entre coisas, afetada pelo exterior apenas segundo relações mecânicas. * A abertura originária do soi ao mundo é encoberta por uma auto-relação representacional. * A estrutura do subjectum comanda integralmente a autocompreensão do homem. * Seção a) O domínio da certeza e a res cogitans como fundamento do saber * Constituição do domínio da certeza como espaço próprio do eu * O eu evolui num domínio no qual só encontra evidências, desde que aceite mover-se exclusivamente em si mesmo. * Esse domínio é exemplificado pelas essências matemáticas claras e distintas, que oferecem total visibilidade e disponibilidade. * A matemática fornece o modelo de um ente plenamente apreensível, passível de tomada e de domínio. * O saber se orienta prioritariamente para aquilo que pode ser assegurado sem resto. * Não pensamento do princípio no cogito cartesiano * Embora o cogito seja instituído como primeiro princípio da filosofia, ele não é interrogado em sua essência. * A relação possível do sujeito com o ser permanece inteiramente não tematizada. * O sentido do sum no cogito sum não é questionado quanto à sua proveniência ontológica. * O princípio funciona como fundamento operativo, mas permanece conceitualmente impensado. * Determinação da res cogitans como coisa pensante * O sujeito é definido como res cogitans, isto é, como uma coisa cujo atributo essencial é o pensar. * Essa determinação submete a consciência à maneira de ser da coisa, ainda que dotada de atividade representacional. * O pensar não abre o sujeito ao que o abriu desde sempre, mas serve à expansão de sua dominação. * A estrutura de coisa torna-se o modelo oculto da subjetividade. * Exclusão da dimensão onto-ekstática do sujeito * A estrutura negativa-intencional do soi não é percebida. * As múltiplas faculdades do sujeito são tomadas como dados positivos, sem interrogação ontológica. * A possibilidade de uma analítica do espírito orientada pela questão do ser é negligenciada. * A subjetividade se consolida como evidência não questionada. * Consolidação da representação como modo exclusivo de acesso ao ente * Todo objeto é objeto apenas para um sujeito e em referência a ele. * O sujeito, por sua vez, não é jamais interrogado como objeto de si mesmo. * A intencionalidade própria do sujeito é ignorada em favor de uma relação de domínio. * O ente só é verdadeiro enquanto conforme às exigências de certeza do sujeito. * Fixação do eu como fundamentum inconcussum * O eu é instituído como o ente mais verdadeiro, aquele cuja indubitabilidade resiste a toda hipótese cética. * A verdade se mede pela evidência com que o ente se apresenta ao sujeito. * O lugar da clareza é o ego, de onde emana o campo da verdade possível. * O ente deixa de encontrar sua verdade em si mesmo e passa a encontrá-la no sujeito. * Preparação do deslocamento para a subjetividade plena * A subjetidade, inicialmente estrutura do ente em geral, passa a identificar-se com o eu consciente de si. * Subjectum e ego tornam-se semanticamente equivalentes. * A subjetividade aparece como modo consumado da subjetidade. * O solo está preparado para a expansão técnica da representação e do domínio do ente.