====== Zenão de Eleia (1973) ====== JBDH1 * Zenão como figura filosófica inferior e origem da dialética problemática * Posicionamento de Zenão abaixo do nível alcançado por Heráclito e Parmênides, representando um declínio no pensamento. * Caracterização como "inventor da dialética" por Aristóteles, entendida num sentido pejorativo, como mera aparência de filosofia. * Distinção entre o filósofo genuíno, que contempla e mostra o ser em sua verdade, e o dialético, que apenas deduz consequências de pressupostos. * Zenão figura como o primeiro "raciocinador", cujas provas cansam uma verdade já descoberta, operando no claro desvelado por outro. * A dialética zenoniana se move no âmbito da refutação cega e da polêmica, substituindo o espanto filosófico pela argumentação constritiva. * A relação ambígua de Zenão com Parmênides * No Parmênides de Platão, Sócrates acusa Zenão de ser mero epígono de Parmênides, apresentando a mesma doutrina sob outra forma. * Zenão se defende alegando que seu livro foi um pecado de juventude, escrito num ímpeto agressivo, não por ambição madura. * O cerne da questão reside em compreender tanto a filiação a Parmênides quanto a originalidade de Zenão. * O escrito de Zenão surge como réplica aos que ridicularizavam a tese do Uno de Parmênides, mostrando consequências absurdas. * Sua estratégia dialética consiste em aceitar a tese adversária (a pluralidade) e levá-la às últimas consequências lógicas para revelar sua absurdidade. * O argumento contra a pluralidade (o vários) * Tentativa de compor o ser a partir de unidades elementares, contra a tese parmenidiana do Uno. * Para ser verdadeiramente unitária e constituinte, cada parte deve ser indivisível e sem grandeza, mas também deve ter grandeza para que sua soma não seja nula. * Zenão demonstra que, na hipótese do vários, cada coisa terá grandeza e espessura, e qualquer parte dela, por menor que seja, terá um lado dianteiro e outro traseiro. * Conclusão: é impossível chegar a elementos últimos indivisíveis, pois sempre serão divisíveis e terão extensão. * O verdadeiramente indivisível seria sem espessura, isto é, nada, cuja soma permaneceria nada. * Portanto, na hipótese do vários, as coisas seriam ao mesmo tempo pequenas (até à espessura nula) e grandes (de grandeza indeterminável). * Com esse raciocínio, Zenão vira o ridículo contra os pluralistas e assegura o triunfo da tese de Parmênide. * Os argumentos contra o movimento * Referência aos quarenta argumentos de Zenão, capazes de fazer o mesmo parecer semelhante e dessemelhante, uno e múltiplo, imóvel e em movimento. * Os quatro argumentos mais famosos, transmitidos por Aristóteles, atacam a possibilidade do movimento. * Dois primeiros argumentos (Aquiles e a tartaruga; a dicotomia) baseiam-se na divisibilidade infinita do espaço. * Para percorrer qualquer distância, deve-se primeiro percorrer sua metade, e a metade da metade, ad infinitum, tornando o trajeto infinito. * Dois últimos argumentos (a flecha imóvel; os corredores no estádio) baseiam-se na decomposição do tempo em instantes indivisíveis. * No instante indivisível, nada pode acontecer, logo a flecha está instantaneamente imóvel em cada ponto de seu voo. * Os corredores em sentidos opostos não podem se cruzar sem dividir o instante indivisível. * O movimento é dessubstancializado, reduzido a uma sucessão de imobilidades instantâneas, sem a "vida" do movimento descrita por Aristóteles. * Para Aristóteles, era necessário romper esse encantamento dialético para salvar a física. * A recepção e a superação filosófica dos argumentos de Zenão * Kant reconhece a sutileza de Zenão, relacionando-a às antinomias da razão pura. * Hegel honra Zenão, considerando seus argumentos mais profundos que os de Kant, pois vão diretamente ao essencial: a contradição interna entre continuidade e o discreto na grandeza. * A dialética de Zenão explora a dissociação irrefletida desses dois momentos, opondo ao movimento uma distância infinitamente divisível ou um instante atomizado. * A superação vem com Aristóteles, que estabelece a unidade do conceito de grandeza na dualidade de seus momentos. * O discreto só aparece sobre o fundo da continuidade. * A continuidade preserva intimamente a possibilidade permanente de uma corte. * A grandeza é um fluxo que nunca resulta em algo qualitativamente outro. * Assim, a continuidade divisível da distância não impede a cadência dos passos, e a unidade indivisível do instante não fecha a passagem. * A flecha voa com um voo indiviso, e Aquile avança com passos indivisos, superando a tartaruga. * Crítica à interpretação de Bergson, que opõe a Zenão a indivisibilidade, e não a indivisão, dos passos, caindo numa caricatura. * A possibilidade de um Zenão independente e o prenúncio da sofística * Questionamento da imagem de Zenão como mero escudeiro fiel de Parmênides, consolidada pela tradição platônica. * Indícios de que o interesse no diálogo platônico era mais pelo virtuosismo dialético de Zenão do que pela defesa do Uno. * Sugestão de um distanciamento entre o Zenão discípulo do Parmênides e a figura independente do "Palamedes de Eleia". * A técnica dialética de Zenão, bem própria, poderia ser usada ocasionalmente a serviço de seu mestre, mas também contra qualquer tese. * Zenão não prova que Parmênides está certo, apenas que seus adversários são ainda mais incapazes de dar conta do movimento. * O logos de Parmênides aparece apenas como mais forte, ou menos fraco, que o dos adversários. * Sobre a empresa zenoniana paira a sombra do ceticismo. * Prenuncia-se um mundo onde a meditação sobre a reciprocidade originária entre logos e aletheia é substituída pelo confronto público de duas lógicas adversas, como numa rinha de galos. * Este será o mundo ainda pouco conhecido da sofística. * Zenão não está entre os pioneiros como Heráclito e Parmênides, mas seu chicote ainda é apenas ironia. O tempo dos "horríveis cabos de esquadra" talvez esteja reservado a nós.