===== Agamben: AMOR EM HEIDEGGER ===== Como explicar, então, a ausência do amor da analítica do [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]]? Tanto mais porque, da parte de Hannah [[termos:a:arendt:start|Arendt]], a relação tinha produzido um livro sobre o amor. Refiro-me à Doktordissertation, publicada em 1929, Der Liebesbegriff [[termos:b:bei:start|bei]] Augustin, em que não é difícil encontrar a influência de Heidegger. Por que [[termos:s:sein:start|Sein]] und [[termos:z:zeit:start|Zeit]] permanece tão silencioso sobre a questão do amor? Examinemos um pouco mais de perto a nota sobre o amor em Sein und Zeit. Encontra-se no parágrafo 29 (art36), que é dedicado à [[termos:b:befindlichkeit:start|Befindlichkeit]] e às Stimmungen. A nota não (256) contém uma única palavra de Heidegger, mas apenas duas citações, a primeira de Pascal: “E daí deriva que em vez de dizer, falando das coisas humanas, que é necessário conhecê-las para amá-las, o que se tornou uma máxima, os santos, ao contrário, dizem, falando das coisas divinas, que é necessário amá-las para conhecê-las, e que só se entra na [[termos:v:verdade:start|verdade]] pela caridade, da qual eles fizeram uma de suas máximas mais úteis”; a segunda é de [[termos:a:agostinho:start|Agostinho]]: “Não se entra na verdade senão através da caridade” (no intratur in veritatem, nisi [[termos:p:per:start|per]] caritatem). Ambas as citações — e a segunda em particular — afirmam uma espécie de primado ontológico do amor como acesso à verdade. Graças à publicação das últimas lições de Marburgo do segundo semestre de 1928, sabemos que a referência a esse papel fundamental do amor provém das conversas com Max Scheler sobre o problema da intencionalidade. Escreve Heidegger: “Scheler foi o primeiro a mostrar, em particular no ensaio [[termos:l:liebe:start|Liebe]] und [[termos:e:erkenntnis:start|Erkenntnis]], que os comportamentos intencionais são de diferente natureza e que, por exemplo, o amor e o ódio fundam o conhecimento. Scheler retoma aqui motivações que estão presentes em Pascal e Santo Agostinho” (GA26, 169). Tanto no ensaio citado por Heidegger como em um texto da mesma época, mas publicado postumamente sob o título de Ordo Amoris, Scheler insiste na condição originária do amor. Podemos aí ler: “Der [[termos:m:mensch:start|Mensch]] [[termos:i:ist:start|ist]], ehe er ein [[termos:e:ens-hlex:start|ens]] cogitans oder ein ens volens ist, ein ens amans” (O homem, antes de ser um ens cogitans ou um ens volens, é um ens amans”). Heidegger está perfeitamente consciente da importância fundadora do amor, fundadora no sentido em que condiciona precisamente a possibilidade do conhecimento e do acesso à verdade. Por outro lado, nas lições do semestre de verão de 1928, a referência ao amor tem lugar no contexto de uma discussão sobre o problema da intencionalidade, na qual Heidegger critica a concepção corrente da intencionalidade como relação cognitiva entre um [[termos:s:sujeito:start|sujeito]] e um objeto. Esse texto é precioso porque, através de tal crítica, que não poupa seu mestre Husserl, Heidegger mostra como, para ele, a noção de intencionalidade foi superada pela estrutura de [[termos:t:transcendencia:start|transcendência]] que Sein und Zeit chama de (/termos/i/in-der-[[termos:w:welt:start|Welt]]-sein). Na concepção da intencionalidade como relação entre um sujeito e um objeto, o que, para Heidegger, permanece inexplicado é justamente o que seria preciso explicar, ou seja, a relação em si mesma: Essa falta de explicação repercute sobre a indeterminação do que está aí em relação (...) Procurou-se recentemente conceber essa relação como uma relação de ser (...) Com essa explicação não se esclarece nada, enquanto não se disser que gênero de ser está aqui em questão e enquanto o gênero de ser dos entes, entre os quais a relação deve se dar, permanecer obscuro (...) O ser é aqui pensado, à maneira de Hartmann e de Scheler, como ser disponível (Vorhandensein). Ora, essa relação não é nada, mas também não é algo da ordem do ente, no sentido de algo simplesmente disponível (...) Um dos objetivos preliminares fundamentais de Sein und Zeit é o de esclarecer essa relação em sua essência original (GA26, 163-164). Mais original ainda que a relação [[termos:s:sujeito-objeto-dh:start|sujeito-objeto]] é, para Heidegger, a autotranscendência do In-der- Welt- Sein, no qual o Dasein se abre ao mundo para além de toda subjetividade. Antes que algo como um sujeito ou um objeto possa se constituir, o Dasein — essa é uma das teses centrais de Sein und Zeit — está já aberto ao mundo: “Das [[termos:e:erkennen:start|Erkennen]] [[termos:s:selbst:start|Selbst]] vorgängig gründet in einem (/termos/s/schon-[[termos:s:sein-bei-2:start|Sein-bei]]-der-welt)” (“O conhecer em si mesmo se funda previamente em um já-ser-junto-ao-mundo”) (SuZ, p. 61). E é só a partir dessa transcendência original que algo como uma intencionalidade pode ser compreendida quanto a seu modo de ser próprio. Portanto, se Heidegger, reconhecendo plenamente o estatuto do amor, não trata tematicamente desse problema, é precisamente porque o modo de ser da abertura mais original de todo conhecimento (aquela que, segundo Agostinho e Scheler, tem lugar no amor) é, em certo sentido, o problema central de Sein und Zeit. Por outro lado, o amor, se quisermos compreendê-lo a partir dessa abertura, não pode mais ser concebido segundo a representação corrente, como uma (258) relação entre um sujeito e um objeto ou como a relação entre dois sujeitos. Ele deve antes encontrar seu lugar e sua articulação própria no [[termos:s:schon-sein-bei:start|Schon-sein-bei]]-der-Welt que caracteriza a transcendência do Dasein. Ora, qual é o modo de ser desse [[termos:s:schon-sein:start|Schon-sein]]-bei-der-Welt? Em que sentido o Dasein está sempre junto ao mundo e às coisas que o circundam antes ainda de conhecê-las? Como é possível para o Dasein se abrir a qualquer coisa sem fazer dela o correlato objetivo de um sujeito cognoscente? E como é possível que a própria relação intencional seja esclarecida quanto a seu modo de ser particular e em seu primado em relação ao sujeito e ao objeto? É nesse contexto que Heidegger introduz a noção de facticidade (Faktizität). (2015, p. 256-259) {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}