===== Agamben (2015:277-279) – Ereignis ===== Aqui o tema do amor como paixão mostra sua proximidade com aquele do Ereignis, que constitui o motivo central da reflexão de Heidegger a partir do final dos anos 1930. E talvez precisamente o amor, como paixão da facticidade, permita lançar alguma luz sobre esse conceito. Heidegger interpreta o termo Ereignis a partir de [[termos:e:eigen:start|eigen]] e o entende como “apropriação”, situando-o assim implicitamente sobre o fundo da dialética do [[termos:e:eigentlichkeit:start|Eigentlichkeit]] e do [[termos:u:uneigentlichkeit:start|Uneigentlichkeit]] em [[termos:s:sein:start|Sein]] und [[termos:z:zeit:start|Zeit]]. Mas se trata aqui de uma apropriação em que o que é apropriado não é algo que deve passar de estranho a próprio, ou que deve vir da sombra para a luz. O que é aqui apropriado é posto não tanto à luz, mas mais à [[termos:l:lichtung:start|Lichtung]], é apenas uma expropriação, apenas um ocultamento como tal. “Das Ereignis”, escreve Heidegger, “[[termos:i:ist:start|ist]] ihm [[termos:s:selbst:start|Selbst]] [[termos:e:enteignis:start|Enteignis]], in welches [[termos:w:wort:start|Wort]] die [[termos:f:fruh:start|früh]]-griechische lethe im Sinne des Verbergens ereignishaft aufgenommen ist”, “A Ereignis é em si mesma expropriação, palavra na qual é retomado de modo apropriante o grego primitivo lethe, no sentido de ocultamento” (GA14:[[termos:s:sache:start|Sache]], 44). Assim, o pensamento da Ereignis “não é um desaparecimento do esquecimento do ser, mas um ‘instalar-se’ nele e um ‘manter-se’ nele. Despertar (erwachen) do esquecimento do ser nesse mesmo esquecimento é um des-despertar (entwachen) no Ereignis” (GA14:Sache, 32). O que acontece agora é que “die [[termos:v:verbergung:start|Verbergung]] sich [[termos:n:nicht:start|Nicht]] verbirgt, ihr gilt vielmehr das Aufmerken des Denkens”, “o ocultamento já não se esconde, para ele vai antes toda a atenção do pensamento” (GA14:Sache, 44). O que significam essas frases aparentemente tão enigmáticas? Uma vez que aquilo de que o homem deve aqui se apropriar não é uma coisa escondida, mas o próprio fato de ser oculto, a impropriedade e a facticidade do [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]], então se apropriar destas só pode significar: ser propriamente impróprio, abandonar-se ao inapropriável. O ocultamento, a lethe, deve aqui chegar ao pensamento como tal, a facticidade deve mostrar-se em seu fechamento e em sua opacidade. O pensamento da Ereignis, como fim da história do ser, é então de algum modo também uma recuperação e uma realização do pensamento da facticidade que, no primeiro Heidegger, tinha marcado a reformulação da [[termos:s:seinsfrage:start|Seinsfrage]]. Não se trata aqui apenas das múltiplas maneiras da existência fáctica do Dasein, mas da facticidade original (ou dispersão transcendental) que constitui sua possibilidade interna (innere Möglichkeit). O [[termos:m:mogen:start|Mögen]] dessa [[termos:m:moglichkeit:start|Möglichkeit]] não é nem potência nem ato, nem essência nem existência, mas uma impotência cuja paixão abre em liberdade o fundamento do Dasein. No Ereignis, a facticidade original já não se retira no desvio evasivo nem em um destino histórico, mas é apropriada em sua própria condição evasiva, suportada em sua lethe. A dialética do próprio e do impróprio alcança assim seu fim. O Dasein não tem mais de ser seu Da, nem tem mais de ser suas maneiras de ser: habita-as agora definitivamente no modo do [[termos:w:wohnen:start|wohnen]] e da Gewohnenheit que, no parágrafo 12 (ET12) de Sein und Zeit, caracterizam o [[termos:i:in-sein:start|In-Sein]] do Dasein. Na palavra Ereignis é preciso perceber então o assuescere latino, acostumar-se — na condição de pensar nesse termo o suus, o se que constitui seu núcleo semântico. E se nos lembrarmos que a origem do caráter destinal do Dasein era (segundo a nota da página 42 da edição de 1977 de Sein und Zeit) seu ter de ser, compreende-se também por que o Ereignis é sem destino, geschicklos. O ser (o possível) esgotou aqui verdadeiramente suas possibilidades históricas, e o Dasein, que pode sua impotência, alcança sua maneira extrema: a força imóvel do possível. Isso não significa que toda a facticidade seja abolida, todas as e-moções sejam anuladas. “A ausência de destino do Ereignis, a Zuwendung in [[termos:e:entzug:start|Entzug]], isto é, o voltar-se para, mas se retirando ao mesmo [[termos:t:tempo:start|tempo]], mostra-se pela primeira vez ao pensamento como o que deve ser pensado” (GA14:Sache, 44). E o sentido dessa [[termos:g:gelassenheit:start|Gelassenheit]], desse “abandono”, que um texto tardio define como “die [[termos:o:offenheit:start|Offenheit]] fur das [[termos:g:geheimnis:start|Geheimnis]]” (Gelassenheit, 26) a abertura para o segredo: a Gelassenheit é a e-moção do Ereignis, a abertura, para sempre não epocal, ao “Uralte que se esconde no nome [[termos:a:a-letheia-hlex:start|a-letheia]]” (GA14:Sache, 25). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}