| O que é, então, o horizonte, e porque é impossível passar sem ele? Husserl propõe uma resposta dupla que, em Ideias, pode parecer uma e a mesma, mas que se tornará dupla no resto da obra. No primeiro sentido, o horizonte é pensado como o fundo de toda a experiência: o objeto da consciência implícita ou potencial, pertence de fato à vida intencional, mas de um modo inatual. Quer se trate da experiência da coisa ou da experiência do eu, "toda a atualidade implica as suas próprias potencialidades" [Husserl, Meditações Cartesianas, § 19, Hua I, p. 81-82 (tr. M. de Launay, Paris, PUF, 1994, p. 89)], isto é, o seu fundo, quer se trate de Horizontes espaciais ou de horizontes temporais. Deste modo, o horizonte designa a aura de indeterminação que rodeia o objeto em questão e que é inseparável dele. Quer isto dizer que é simplesmente aquilo que está sempre co-presente ao mesmo tempo que qualquer objeto presente? Outras formulações sublinham o fato de que ele precede necessariamente o objeto, na medida em que este último só pode aparecer sendo extraído dele, isto é, destacando-se desse fundo, que é então concebido como um fundo no sentido gestáltico do termo [Cf. especialmente Idées directrices…, I, § 35, Hua III, p. 77 (tr. P. Ricoeur, Paris, Gallimard, 1950, p. 112): "Das Erfassen ist ein Herausfassen"]. Se esta diferença de ênfase é geralmente ignorada, é porque em ambos os casos, quer seja apresentado como uma aura projetada pelo objeto ou como o fundo contra o qual o objeto pode emergir, o horizonte é descrito nos mesmos termos: por um lado, é essencialmente indeterminado ("obscuramente consciente", "nebuloso", "geral e presuntivo" (Respectivamente ibid, § 27, p. 58-59, e Méditations cartésiennes, § 9, Hua I, p. 62), por outro lado, cada horizonte indeterminado é de direito determinável segundo círculos cada vez mais largos — embora a série permaneça aberta, e portanto inacabada. Em outras palavras, o horizonte mais estreito é traçado pelos "entorno" imediato da coisa, objetos de experiências inatuais (os livros e os lápis à volta do papel onde escrevo), mas, de entornos em entornos, diz finalmente o mundo, entendido como Umwelt [Cf. Idées…, I, § 27, Hua III, p. 58-59 (49) (trad. fr. p. 89) : Meditações Cartesianas, § 33, Hua I, p. 102 (trad. fr. p. 115)]. | O que é, então, o horizonte, e porque é impossível passar sem ele? Husserl propõe uma resposta dupla que, em Ideias, pode parecer uma e a mesma, mas que se tornará dupla no resto da obra. No primeiro sentido, o horizonte é pensado como o fundo de toda a experiência: o objeto da consciência implícita ou potencial, pertence de fato à vida intencional, mas de um modo inatual. Quer se trate da experiência da coisa ou da experiência do eu, "toda a atualidade implica as suas próprias potencialidades" [Husserl, Meditações Cartesianas, § 19, Hua I, p. 81-82 (tr. M. de Launay, Paris, PUF, 1994, p. 89)], isto é, o seu fundo, quer se trate de Horizontes espaciais ou de horizontes temporais. Deste modo, o horizonte designa a aura de indeterminação que rodeia o objeto em questão e que é inseparável dele. Quer isto dizer que é simplesmente aquilo que está sempre co-presente ao mesmo tempo que qualquer objeto presente? Outras formulações sublinham o fato de que ele precede necessariamente o objeto, na medida em que este último só pode aparecer sendo extraído dele, isto é, destacando-se desse fundo, que é então concebido como um fundo no sentido gestáltico do termo [Cf. especialmente Idées directrices…, I, § 35, Hua III, p. 77 (tr. P. Ricoeur, Paris, Gallimard, 1950, p. 112): "Das Erfassen ist ein Herausfassen"]. Se esta diferença de ênfase é geralmente ignorada, é porque em ambos os casos, quer seja apresentado como uma aura projetada pelo objeto ou como o fundo contra o qual o objeto pode emergir, o horizonte é descrito nos mesmos termos: por um lado, é essencialmente indeterminado ("obscuramente consciente", "nebuloso", "geral e presuntivo" (Respectivamente ibid, § 27, p. 58-59, e Méditations cartésiennes, § 9, Hua I, p. 62), por outro lado, cada horizonte indeterminado é de direito determinável segundo círculos cada vez mais largos — embora a série permaneça aberta, e portanto inacabada. Em outras palavras, o horizonte mais estreito é traçado pelos "entorno" imediato da coisa, objetos de experiências inatuais (os livros e os lápis à volta do papel onde escrevo), mas, de entornos em entornos, diz finalmente o mundo, entendido como Umwelt [Cf. Idées…, I, § 27, Hua III, p. 58-59 (49) (trad. fr. p. 89) : Meditações Cartesianas, § 33, Hua I, p. 102 (trad. fr. p. 115)]. |