estudos:zahavi:intersubjetividade
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| + | ====== Intersubjetividade, | ||
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| + | DZ2025 | ||
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| + | * Centralidade da intersubjetividade na tradição fenomenológica | ||
| + | * A crítica segundo a qual a fenomenologia, | ||
| + | * A intersubjetividade é atribuída a um papel absolutamente central por fenomenólogos, | ||
| + | * A tradição fenomenológica contém abordagens ricas, diversas e por vezes concorrentes, | ||
| + | * Ainda que a linguagem seja reconhecida como eminentemente intersubjetiva, | ||
| + | * A intersubjetividade não é concebida como estrutura objetiva plenamente analisável de um ponto de vista de terceira pessoa, pois se trata de relação entre sujeitos cujo esclarecimento exige referência à primeira pessoa. | ||
| + | * A análise da intersubjetividade requer uma investigação simultânea da correlação entre eu, outro e mundo, já que essas dimensões se iluminam reciprocamente e não podem ser plenamente compreendidas quando se tenta inserir o “social” como acréscimo tardio a um quadro previamente estabelecido. | ||
| + | * Em Merleau-Ponty, | ||
| + | * O problema das outras mentes e a crítica ao argumento por analogia | ||
| + | * Em certas leituras, o problema da intersubjetividade reduz-se ao problema das outras mentes, formulado como assimetria de acesso: acesso direto apenas à própria mente, acesso ao outro apenas mediado por comportamento corporal. | ||
| + | * O argumento por analogia tenta resolver o problema inferindo, a partir de semelhanças comportamentais, | ||
| + | * Fenomenólogos criticam amplamente esse argumento, e Scheler e Merleau-Ponty articulam objeções decisivas: | ||
| + | * A explicação inferencial é cognitivamente exigente demais e psicologicamente implausível, | ||
| + | * A analogia pressupõe uma similaridade ponto a ponto entre meu corpo sentido interoceptiva e proprioceptivamente e o corpo do outro dado visualmente, | ||
| + | * Linhas analógicas são mobilizadas quando já se reconhece o outro como ser dotado de mente, e a dificuldade é apenas interpretativa, | ||
| + | * Scheler: crítica dos pressupostos do “interiorismo” e da inferência | ||
| + | * Scheler recusa dois pressupostos do argumento por analogia: | ||
| + | * A tese de que o ponto de partida é uma autoconsciência puramente mental e isolada, anterior à experiência corporal e ao encontro com outros. | ||
| + | * A tese de que jamais há acesso direto à vida mental alheia, apenas inferências a partir de comportamento “sem sentido”. | ||
| + | * A fenomenologia deve ater-se ao dado e não deixar que uma teoria determine de antemão o que pode ser dado; por isso, o argumento por analogia superestima as dificuldades da experiência do outro e subestima as da autoexperiência. | ||
| + | * É problemático dividir o encontro em dois estágios, percepção de comportamento “sem significado” e atribuição intelectual de significado psíquico, pois isso distorce tanto o comportamento quanto a própria ideia de mente. | ||
| + | * No encontro face a face, não se está diante de um corpo “nu” nem de uma psique oculta, mas de uma totalidade unificada que Scheler descreve como unidade expressiva, cuja divisão em “dentro” e “fora” é posterior, abstrativa e derivada. | ||
| + | * Merleau-Ponty: | ||
| + | * Merleau-Ponty sustenta que emoções como raiva, vergonha, ódio e amor não são fatos psíquicos escondidos no fundo da consciência, | ||
| + | * A dificuldade da psicologia clássica em explicar o acesso ao outro decorre de preconceitos filosóficos não interrogados, | ||
| + | * Contra isso, Merleau-Ponty afirma que a vida experiencial é primariamente relação ao mundo, e é nessa relação que a consciência do outro se torna acessível, quando eu e outro somos definidos como condutas em operação no mundo. | ||
| + | * A consequência é uma exigência de redefinir o conceito de psique para que se torne inteligível como a compreensão do outro é possível sem recorrer a inferências ou simulações. | ||
| + | * Abordagem perceptivo-corporificada e a diferença entre pessoas e coisas | ||
| + | * Fenomenólogos partem da distinção entre perceber corpos físicos e perceber o outro como corpo vivido, isto é, como corpo engajado ativamente em um contexto significativo. | ||
| + | * Como Sartre observa, é um erro pensar que o encontro ordinário com o corpo do outro é encontro com o corpo da fisiologia; o corpo do outro é sempre dado em situação, co-determinada por sua ação e expressividade. | ||
| + | * Empatia [Einfühlung] como intencionalidade própria da experiência do outro | ||
| + | * Para Husserl e Stein, a compreensão do outro envolve uma forma específica de intencionalidade chamada empatia [Einfühlung]. | ||
| + | * Empatia não se reduz a contágio emocional, tomada imaginativa de perspectiva, | ||
| + | * Por isso, empatia é frequentemente aproximada de “experiência do outro” ou “percepção do outro”, pois no encontro face a face a vida mental alheia é intuída nos gestos, na entonação e nas expressões faciais, que já se apresentam impregnadas de sentido psicológico. | ||
| + | * Contudo, a presença do outro não é idêntica à autodoação da própria experiência: | ||
| + | * O luto e a raiva do outro podem ser percebidos em sua conduta, mas nunca têm para mim o mesmo sentido que têm para ele, pois para mim eles se mostram, e para ele são vividos. | ||
| + | * Stein recusa a ideia de “transmissão” literal da experiência do outro para minha mente; o decisivo é que a experiência empatizada permanece situada no outro, preservando sua alteridade. | ||
| + | * A assimetria entre autoexperiência e experiência do outro é constitutiva da empatia, pois se o outro fosse dado como eu me dou a mim mesmo, ele deixaria de ser outro e se tornaria parte de mim. | ||
| + | * Husserl descreve a empatia como encontro com uma transcendência peculiar, na qual a consciência se ultrapassa e se depara com um tipo novo de alteridade. | ||
| + | * A possibilidade de erro ou engano não anula o caráter experiencial do acesso ao outro, e a diferença de modos de doação é precisamente o que torna possível falar de “outras mentes”. | ||
| + | * Em consonância com Levinas, a presença do outro se manifesta também como excedência e elusividade: | ||
| + | * Fenomenologia contra teoria-da-mente e simulação | ||
| + | * Ao insistir na possibilidade de um encontro experiencial direto com o outro como ser dotado de mente, a fenomenologia se opõe a posições dominantes no debate da teoria da mente, como a theory-theory e a simulation theory, que negam acesso experiencial e recorrem a inferências teóricas ou simulações internas. | ||
| + | * Para a fenomenologia, | ||
| + | * Ser-com [Mitsein] e crítica heideggeriana da empatia | ||
| + | * Heidegger é cético quanto à primazia da empatia [Einfühlung], | ||
| + | * Para Heidegger, essa formulação é absurda, porque Dasein não é primeiro um sujeito sem mundo ao qual mundo e outros se somariam; a constituição do ser-no-mundo já inclui ser-com [Mitsein]. | ||
| + | * O encontro ordinário com outros não é primariamente temático-cognitivo, | ||
| + | * A crítica heideggeriana enfatiza: | ||
| + | * A insuficiência de restringir a intersubjetividade ao face a face. | ||
| + | * A questão da primazia entre encontro direto e vida anônima em mundo público. | ||
| + | * O risco de eliminar ou minimizar a diferença entre eu e outro para explicar a vida compartilhada. | ||
| + | * Concordâncias e mediações: | ||
| + | * Sartre corrobora que utensílios e complexos instrumentais remetem a uma pluralidade de outros que os produzem e utilizam, e que viver no mundo é já estar comprometido com significados que não provêm exclusivamente de meu projeto. | ||
| + | * Contudo, Sartre ressalta que um objeto só aparece como “equipamento” que “se usa assim” porque aprendi isso com outros concretos, de modo que o anônimo supõe o encontro efetivo. | ||
| + | * Husserl, já em Ideias II, aponta para exigências indeterminadas de costume e tradição, expressas em fórmulas como “a gente” julga assim, “a gente” segura o garfo assim, vinculando normalidade a vida generativa e historicidade comunitária. | ||
| + | * Schutz propõe uma posição equilibrada: | ||
| + | * O face a face é básico no sentido de que formas derivadas retiram sua validade dele. | ||
| + | * Mas a compreensão interpessoal é plural e contextual, mobilizando um estoque de conhecimento geral e particular que funciona como esquema interpretativo inclusive no encontro direto. | ||
| + | * Assim, pode-se aceitar a crítica heideggeriana sem descartar a empatia, desde que ela seja entendida como capacidade de perceber a expressividade como sentido mental, e não como projeção sentimental. | ||
| + | * Alteridade e confronto: crítica sartreana e radicalização levinasiana | ||
| + | * Sartre critica Heidegger por enfatizar anonimato e substituibilidade, | ||
| + | * Levinas radicaliza essa ênfase, acusando Heidegger de totalização e defendendo que o outro não pode ser possuído, apreendido ou conhecido como objeto, pois, se o fosse, deixaria de ser outro. | ||
| + | * O encontro autêntico com o outro aparece, em Levinas, como visitação e epifania, e é primariamente ético, não perceptivo nem epistemológico. | ||
| + | * Surge aqui uma tensão estrutural: | ||
| + | * Se se elimina a diferença entre eu e outro, a alteridade se perde. | ||
| + | * Se se absolutiza a diferença, a relação se torna obscura e incompreensível. | ||
| + | * Um desafio decisivo da fenomenologia é sustentar um equilíbrio entre semelhança e diferença na inteligibilidade do vínculo intersubjetivo. | ||
| + | * Comunidade e formas ampliadas de socialidade | ||
| + | * A fenomenologia não se limita à questão de como compreendemos indivíduos, | ||
| + | * É possível distinguir duas orientações concorrentes: | ||
| + | * Uma que enraíza experiências comunitárias e relações de nós [we] em formas específicas de relação interpessoal e requer uma análise dos modos pelos quais indivíduos se entrelaçam experiencialmente. | ||
| + | * Outra que julga que privilegiar a díade face a face impede captar o distintivo do comunitário. | ||
| + | * Scheler: taxonomia da relacionalidade afetiva e tipos de unidade social | ||
| + | * Scheler distingue modalidades de relação afetiva: | ||
| + | * Contágio emocional, em que se é afetado pelo estado emocional do outro. | ||
| + | * Simpatia, como resposta emocional ao estado emocional do outro. | ||
| + | * Compartilhamento emocional, em que a emoção é vivida conjuntamente como nossa. | ||
| + | * Em Formalismo em ética e ética material dos valores, Scheler vincula essas modalidades a formas sociais: | ||
| + | * Multidão, regida por contágio emocional. | ||
| + | * Associação, | ||
| + | * Comunidade, marcada por compartilhamento emocional, confiança e reciprocidade. | ||
| + | * Uma fenomenologia das formações sociais exige, assim, uma análise fina de relações interpessoais. | ||
| + | * Walther: experiências de nós e a ligação interna da comunidade | ||
| + | * Gerda Walther distingue associação, | ||
| + | * A comunidade exige uma ligação interna, um sentimento de estar-junto, | ||
| + | * Walther reconhece que sua análise pressupõe investigações prévias sobre empatia [Einfühlung], | ||
| + | * Husserl: empatia recíproca, diálogo e constituição do nós | ||
| + | * Em manuscritos dos anos 1920 e 1930, Husserl argumenta que experiências empáticas em que o outro está dirigido a mim e em que minha experiência do outro inclui uma coexperiência de mim são condição de possibilidade de atos de nós. | ||
| + | * A reciprocidade explícita do endereçamento e da resposta configura atos comunicativos que instauram uma unidade interpessoal superior, um nós. | ||
| + | * O diálogo é, por isso, central, e a comunicação é compreendida como ato criador de comunidade. | ||
| + | * Heidegger e Gurwitsch: crítica do privilégio da díade e ênfase na tradição | ||
| + | * Heidegger nega primazia ontológica e epistêmica da empatia [Einfühlung] e afirma que o ser-com não pode ser explicado pela relação eu-tu, pois o nós não é simples pluralidade nem multidão de eus separados. | ||
| + | * Em certos textos, Heidegger concebe o povo [Volk] como decidido por história e descendência, | ||
| + | * Gurwitsch critica a identificação de comunidade com sentimento positivo de junto: | ||
| + | * Associações estratégicas podem ser acompanhadas de afetos positivos. | ||
| + | * Comunidades podem persistir mesmo sob conflito e animosidade. | ||
| + | * O decisivo não é o afeto, mas a tradição compartilhada. | ||
| + | * Para Gurwitsch, a pertença comunitária é originária e não voluntária: | ||
| + | * Nasce-se e é-se educado dentro de uma comunidade. | ||
| + | * A filiação não se dissolve por mera decisão pessoal. | ||
| + | * A comunidade molda a autocompreensão e a compreensão de mundo ao enraizar o sujeito em um contexto tácito. | ||
| + | * Persistência do debate e questão de prioridade | ||
| + | * O debate fenomenológico sobre os fundamentos da socialidade permanece aberto e atravessa a tradição: | ||
| + | * Deve-se dar primazia ao encontro díadico face a face, ou às formas mais anônimas e históricas de ser-com em mundo público? | ||
| + | * Como articular a constituição do nós sem reduzir a alteridade do outro nem dissolver a inteligibilidade do vínculo comum? | ||
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