estudos:wojtyla:subida-similo
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| + | ===== SUBIDA – PROPORÇÃO DE SEMELHANÇA ===== | ||
| + | Karol Wojtyla — A fé segundo São João da Cruz | ||
| + | ==== 2. PROPORÇÃO DE SEMELHANÇA. ==== | ||
| + | Prossigamos a análise de Subida II 8. Na explicação da idéia básica parece que o Doutor Místico ilumina com maior clareza que nos exemplos citados o sentido de "meio proporcionado" | ||
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| + | Estamos diante do estabelecimento direto da questão da fé dentro da área de sua própria natureza: | ||
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| + | "De onde, para que o entendimento se venha a unir nesta vida com Deus segundo se possa, necessariamente deve tomar aquele meio que une a Ele e tem com Ele semelhança próxima" | ||
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| + | Eis aqui o ponto central no qual as qualidades próprias do meio proporcionado manifestam seu pleno valor. Trata-se aqui, evidentemente, | ||
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| + | "Entre todas as criaturas superiores ou inferiores, nenhuma existe que proximamente se aproxime de Deus nem que tenha semelhança com seu ser". | ||
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| + | Poderíamos expressar a afirmação em forma causal, aplicando o critério antes aludido: nenhuma criatura pode se aproximar de Deus, porque nenhuma possui semelhança com seu ser. | ||
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| + | É, no fim das contas, o que o Doutor Místico diz na continuação: | ||
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| + | " | ||
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| + | O texto é extremamente valioso porque permite interpretar o que para ele significa " | ||
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| + | O texto sanjoanista aponta claramente para o plano das essências. Suas palavras repetem, quase com idênticas palavras, a fórmula do concílio Lateranense IV: | ||
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| + | "Entre o Criador e a criatura não pode haver tanta semelhança, | ||
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| + | A passagem citada de São João da Cruz reduz claramente essa dessemelhança ao plano da essência. Portanto, nenhuma criatura, ainda que a mais perfeita, pode se igualar por natureza à divina essência. O que Deus é, seja o que for, é absolutamente dessemelhante ao que é qualquer criatura, porque não há semelhança essencial possível entre a Divindade e qualquer natureza criada. | ||
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| + | O pensamento do Doutor Místico está livre de qualquer filete de ambigüidade. Porem ainda assim convém insistir que no texto trata-se propriamente da absoluta distinção entre a realidade divina e a realidade criada de ambas as naturezas. E, sob este aspecto, o que o Doutor Místico está nos propondo é a distinção entre o natural e o sobrenatural. A razão da " | ||
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| + | A afirmação da absoluta distinção entre o natural e o sobrenatural desempenha o papel de premissa maior de um silogismo que a rigor se encontra no texto e que verdadeiramente informa toda a doutrina mística de São João da Cruz, constituindo um belo ornamento de sua lógica incomparável, | ||
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| + | Tratemos, pois, de procurar a premissa menor no texto. Para isto será necessário recordar de onde brota toda a questão da " | ||
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| + | Em que se fixa a carência de " | ||
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| + | Devemos acrescentar ainda: não podem constituir meio de união com Deus em relação ao entendimento: | ||
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| + | "Todas as criaturas não podem servir de meio proporcionado ao entendimento para chegar a Deus". | ||
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| + | As últimas palavras são uma reveladora e bela surpresa: " | ||
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| + | A robusta expressão — " | ||
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| + | Este é o sentido do texto de Subida II 8,3. Já indicamos como esta distância entre Deus e a criatura se emprega aqui à área dinâmica, ou seja, em relação à potência cognoscitiva. E então a razão da " | ||
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| + | Por conseguinte, | ||
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| + | A epígrafe do capítulo ilumina com forte luz a oposição ou negação de que as criaturas possam, por si, servir de meio para a união com Deus. Como regra diz em seguida: | ||
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| + | "Não há semelhante a ti entre os deuses, Senhor (Sal 85,8), chamando deuses aos anjos e almas santas. E em outro lugar: Deus, teu caminho está no santo. Que Deus grande existe como nosso Deus? (Sal 76,14). Como se dissesse: O caminho para vir a ti, Deus, é caminho santo; isto é, pureza e fé". | ||
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| + | Assim, a fé fica imediatamente elevada acima das mais altas criaturas. Todas elas, com efeito, se excluem como meio para a união, papel que se reserva para a fé. Ela é o meio proporcionado de união. Portanto, entranha uma semelhança essencial com Deus. | ||
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| + | Quer ele dizer que existe, de alguma maneira, conformidade entre a essência da fé e a Divindade, que há alguma ' | ||
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| + | Em conseqüência, | ||
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| + | Já indiquei anteriormente que o texto acima contem expressamente formulado o silogismo que vem a se constituir a chave de abóbada da " | ||
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| + | (M) — Nenhuma criatura, vista na natureza que a constitui, possui semelhança essencial com Deus. | ||
| + | (m) — Mas tal semelhança é necessária para exercer a função de meio proporcionado de união com Deus. | ||
| + | (Concl.) — Portanto, nenhuma criatura, em seu ser natural, pode servir de meio proporcionado para a união com Deus. | ||
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| + | Este primeiro silogismo se projeta a toda a doutrina mística de São João da Cruz, invadindo-a e informando-a profundamente. | ||
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| + | O segundo silogismo se refere já concretamente à fé, tirando do anterior a afirmação fundamental sobre sua natureza: | ||
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| + | (M) — A fé serve de meio proporcionado para a união do entendimento com Deus. | ||
| + | (m) — Pois bem, o meio proporcionado de união com Deus deve possuir uma semelhança essencial com Ele. | ||
| + | (Concl.) — Portanto, a fé possui tal semelhança som Deus. É, pois, um meio possuidor da " | ||
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| + | Graças a esta argumentação, | ||
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| + | Simultaneamente, | ||
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| + | Dito em termos mais simples: a fé possui uma semelhança essencial com Deus enquanto entende. E isto nos situa em uma ordem ou plano intencional. | ||
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| + | Ambos os aspectos, segundo se depreende da análise, estão latentes e ainda patentes no texto sanjoanista. | ||
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| + | Quanto ao primeiro, fixam-se os limites diferenciais entre o natural e o sobrenatural: | ||
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| + | Quanto ao segundo, já que a " | ||
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| + | Isto abriga o contexto sanjoanista, | ||
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| + | Daqui se deduz que desempenha a função de meio proporcionado em um plano intelectivo por duas razões: | ||
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| + | * primeira — por sua essencial semelhança com Deus. Ou seja, por pertencer à ordem sobrenatural; | ||
| + | * segunda — por incluir essa semelhança essencial uma relação direta com a virtude ou potência intelectiva. | ||
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| + | Ambas as dimensões — a entitativa e a intencional ou dinâmica — determinam que a fé pode servir de meio proporcionado para a união do entendimento com Deus. | ||
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| + | E, por isso, o texto de Subida II 8 é, na realidade, chave e eixo de nossa investigação. | ||
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