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estudos:wahl:wahl-evolucao-geral-das-filosofias-da-existencia-5339

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estudos:wahl:wahl-evolucao-geral-das-filosofias-da-existencia-5339 [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1estudos:wahl:wahl-evolucao-geral-das-filosofias-da-existencia-5339 [17/01/2026 13:31] (current) mccastro
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 Eis aí o aspecto subjetivista extremo do pensamento de Kierkegaard, mas não passa talvez de um aspecto. Efetivamente, Kierkegaard pensa que não pode comunicar-se diretamente a outrem e que seria uma má forma de trazer os homens para a religião cristã dizer-lhes diretamente: a religião cristã é que é a verdadeira. Então — e certos comentadores de Kierkegaard insistiram neste ponto — talvez que por trás deste aspecto subjetivista do pensamento de Kierkegaard seja preciso procurar um outro aspecto. Além disso, o que é importante, diz-nos ele, é referir-se sempre à palavra de Deus e tornar-se contemporâneo de Jesus. Por consequência, qualquer coisa há que deve completar o aspecto puramente subjetivista que anteriormente notamos. Há a afirmação de uma realidade que é independente de mim. O que não impede que, na maior parte dos seus escritos, Kierkegaard insista, em primeiro lugar, no aspecto subjetivista, na ideia: a subjetividade é a verdade. Eis aí o aspecto subjetivista extremo do pensamento de Kierkegaard, mas não passa talvez de um aspecto. Efetivamente, Kierkegaard pensa que não pode comunicar-se diretamente a outrem e que seria uma má forma de trazer os homens para a religião cristã dizer-lhes diretamente: a religião cristã é que é a verdadeira. Então — e certos comentadores de Kierkegaard insistiram neste ponto — talvez que por trás deste aspecto subjetivista do pensamento de Kierkegaard seja preciso procurar um outro aspecto. Além disso, o que é importante, diz-nos ele, é referir-se sempre à palavra de Deus e tornar-se contemporâneo de Jesus. Por consequência, qualquer coisa há que deve completar o aspecto puramente subjetivista que anteriormente notamos. Há a afirmação de uma realidade que é independente de mim. O que não impede que, na maior parte dos seus escritos, Kierkegaard insista, em primeiro lugar, no aspecto subjetivista, na ideia: a subjetividade é a verdade.
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 Queríamos agora dizer uma palavra acerca da maneira como foi generalizado e completado o pensamento de Kierkegaard pelos seus sucessores, particularmente por Jaspers e Heidegger. Com este pensamento existencial e não sistemático pode dizer-se que se esforçaram por elaborar sistemas, e algumas perguntas aqui se poderiam fazer do gênero desta: não há nisso qualquer coisa que vai contra a essência, se aqui se pode falar de essência, das filosofias da existência? Kierkegaard dizia de Hegel que ele era um grande professor. Isto na sua boca era mais uma blasfêmia que um elogio. Não se pode dizer que Jaspers e Heidegger são grandes professores e traíram um pouco o pensamento de Kierkegaard, precisamente porque o expuseram sob forma de uma espécie de sistema, quer o tenham ou não querido ? Mas vamos deixar de lado, por agora, esta pergunta. O que nos importa principalmente é ver o que eles acrescentaram ao pensamento de Kierkegaard. Queríamos agora dizer uma palavra acerca da maneira como foi generalizado e completado o pensamento de Kierkegaard pelos seus sucessores, particularmente por Jaspers e Heidegger. Com este pensamento existencial e não sistemático pode dizer-se que se esforçaram por elaborar sistemas, e algumas perguntas aqui se poderiam fazer do gênero desta: não há nisso qualquer coisa que vai contra a essência, se aqui se pode falar de essência, das filosofias da existência? Kierkegaard dizia de Hegel que ele era um grande professor. Isto na sua boca era mais uma blasfêmia que um elogio. Não se pode dizer que Jaspers e Heidegger são grandes professores e traíram um pouco o pensamento de Kierkegaard, precisamente porque o expuseram sob forma de uma espécie de sistema, quer o tenham ou não querido ? Mas vamos deixar de lado, por agora, esta pergunta. O que nos importa principalmente é ver o que eles acrescentaram ao pensamento de Kierkegaard.
  
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 Ora, para Jaspers, a comunicação é possível, e nisso reside um dos caracteres da existência. A existência é essencialmente historicidade profunda, acabamos de o dizer, e é essencialmente comunicação. O que não significa que esta comunicação, em Jaspers, se faça facilmente. A comunicação é sempre uma luta de amor ou um amor em luta, como ele diz, kampfende Liebe; cada um dos indivíduos deve conservar-se, cada um deve crescer com o outro. Não é menos verdadeiro que se nos depara uma categoria que se ajusta com as categorias kierkegaardianas. Ele admite uma comunicação direta, que, entretanto, de resto, só pode ser uma comunicação em luta. Ora, para Jaspers, a comunicação é possível, e nisso reside um dos caracteres da existência. A existência é essencialmente historicidade profunda, acabamos de o dizer, e é essencialmente comunicação. O que não significa que esta comunicação, em Jaspers, se faça facilmente. A comunicação é sempre uma luta de amor ou um amor em luta, como ele diz, kampfende Liebe; cada um dos indivíduos deve conservar-se, cada um deve crescer com o outro. Não é menos verdadeiro que se nos depara uma categoria que se ajusta com as categorias kierkegaardianas. Ele admite uma comunicação direta, que, entretanto, de resto, só pode ser uma comunicação em luta.
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 Se agora considerarmos Heidegger, é indubitável que a ideia de comunhão não ocupa o mesmo lugar nele que em Jaspers. Contudo, nós não estamos isolados dos outros. Fizeram a Heidegger o reparo de ele considerar o indivíduo como isolado, o que não é exato. Há o ser com os outros, Miteinander sein, que é o essencial na definição do Dasein. Além disso, longe de nos encerrar em nós próprios, uma tal filosofia diz-nos que não há sujeito em face de um objeto, que se deve destruir o conceito clássico do sujeito, fazê-lo estalar para nos mostrar como está constantemente fora de nós, deixando, aliás, esta própria expressão de ter um verdadeiro sentido, visto que não existe sequer «nós» fora do qual nós fôssemos. Se agora considerarmos Heidegger, é indubitável que a ideia de comunhão não ocupa o mesmo lugar nele que em Jaspers. Contudo, nós não estamos isolados dos outros. Fizeram a Heidegger o reparo de ele considerar o indivíduo como isolado, o que não é exato. Há o ser com os outros, Miteinander sein, que é o essencial na definição do Dasein. Além disso, longe de nos encerrar em nós próprios, uma tal filosofia diz-nos que não há sujeito em face de um objeto, que se deve destruir o conceito clássico do sujeito, fazê-lo estalar para nos mostrar como está constantemente fora de nós, deixando, aliás, esta própria expressão de ter um verdadeiro sentido, visto que não existe sequer «nós» fora do qual nós fôssemos.
  
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 O que Heidegger tenta fazer-nos sentir é que o ser está para nós, simultaneamente, presente e ausente, que se revela, mas simultaneamente se esconde. Uma vez que se está na posse desta ideia, torna-se necessário ver o que é o conjunto dos sendo. Por isso mesmo, poder-se-ia, diz ele, chegar à ideia de sagrado. E uma vez que se chegue à ideia de sagrado, poder-se-á pôr o problema de Deus, que até aqui não fora posto directamente. O que Heidegger tenta fazer-nos sentir é que o ser está para nós, simultaneamente, presente e ausente, que se revela, mas simultaneamente se esconde. Uma vez que se está na posse desta ideia, torna-se necessário ver o que é o conjunto dos sendo. Por isso mesmo, poder-se-ia, diz ele, chegar à ideia de sagrado. E uma vez que se chegue à ideia de sagrado, poder-se-á pôr o problema de Deus, que até aqui não fora posto directamente.
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 O que distingue essencialmente a filosofia de Jaspers e a de Kierkegaard é que Kierkegaard faz uma escolha, escolheu ser cristão, escolha que deve ser completada pelo facto de haver que reconhecer um outro fator, a graça de Deus, enquanto Jaspers antes nos mostra as diversas possibilidades de visões que têm os diferentes homens, que têm os diferentes existentes, e define a existência pela escolha, de preferência a não ter vivido ele próprio uma escolha particular. Assim, enquanto há uma visão determinada em Kierkegaard, o que acontece, aliás, por outro lado, em Nietzsche, Jaspers, ao mesmo tempo que é influenciado por estas visões determinadas de Kierkegaard e de Nietzsche, esforça-se por demonstrar as diversas possibilidades de visão. Por exemplo, existirá o que ele chama «lei do dia», e existirá, por outro lado, a «paixão pela noite». A lei do dia é o que se exprime no classicismo; a paixão pela noite é o que se exprime no romantismo, particularmente no romantismo alemão. Jaspers preocupa-se em mostrar-nos sempre as diversas possibilidades que há no existente: desafio e confiança, esperança e desespero, etc. Mas, por outro lado, ele próprio sabe que todo o pensamento profundo deve ser limitado, só é profundo porque é limitado. Há um paradoxo no empreendimento de Jaspers. Oferece-nos uma espécie de catálogo de todas as visões possíveis do mundo, mas diz-nos também que uma visão do mundo deve ser forçosamente limitada, e resta-nos então perguntar se não haverá uma contradição da qual dificilmente ele poderá sair, a não ser que cheguemos a descobrir, em Jaspers, o homem por trás do filósofo. O que distingue essencialmente a filosofia de Jaspers e a de Kierkegaard é que Kierkegaard faz uma escolha, escolheu ser cristão, escolha que deve ser completada pelo facto de haver que reconhecer um outro fator, a graça de Deus, enquanto Jaspers antes nos mostra as diversas possibilidades de visões que têm os diferentes homens, que têm os diferentes existentes, e define a existência pela escolha, de preferência a não ter vivido ele próprio uma escolha particular. Assim, enquanto há uma visão determinada em Kierkegaard, o que acontece, aliás, por outro lado, em Nietzsche, Jaspers, ao mesmo tempo que é influenciado por estas visões determinadas de Kierkegaard e de Nietzsche, esforça-se por demonstrar as diversas possibilidades de visão. Por exemplo, existirá o que ele chama «lei do dia», e existirá, por outro lado, a «paixão pela noite». A lei do dia é o que se exprime no classicismo; a paixão pela noite é o que se exprime no romantismo, particularmente no romantismo alemão. Jaspers preocupa-se em mostrar-nos sempre as diversas possibilidades que há no existente: desafio e confiança, esperança e desespero, etc. Mas, por outro lado, ele próprio sabe que todo o pensamento profundo deve ser limitado, só é profundo porque é limitado. Há um paradoxo no empreendimento de Jaspers. Oferece-nos uma espécie de catálogo de todas as visões possíveis do mundo, mas diz-nos também que uma visão do mundo deve ser forçosamente limitada, e resta-nos então perguntar se não haverá uma contradição da qual dificilmente ele poderá sair, a não ser que cheguemos a descobrir, em Jaspers, o homem por trás do filósofo.
  
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 Gabriel Marcel não é influenciado profundamente por Kierkegaard, ainda que se encontre em certos pontos em posições kierkegaardianas. O que ele pretende essencialmente é ultrapassar as oposições conceptuais, como sejam as do sujeito e do objeto, de pensamento e de ser, de alma e de corpo, e atingir por aí um domínio a que ele chama o domínio do mistério, por oposição ao domínio dos problemas; chegando a este domínio, tomamos consciência, na medida em que se pode tomar consciência, do inexaurível, do não-objectivável, que nos envolve e nos ultrapassa, que nós não inventamos, que não reconhecemos, e graças ao qual podemos colocar-nos na presença de Deus. Gabriel Marcel não é influenciado profundamente por Kierkegaard, ainda que se encontre em certos pontos em posições kierkegaardianas. O que ele pretende essencialmente é ultrapassar as oposições conceptuais, como sejam as do sujeito e do objeto, de pensamento e de ser, de alma e de corpo, e atingir por aí um domínio a que ele chama o domínio do mistério, por oposição ao domínio dos problemas; chegando a este domínio, tomamos consciência, na medida em que se pode tomar consciência, do inexaurível, do não-objectivável, que nos envolve e nos ultrapassa, que nós não inventamos, que não reconhecemos, e graças ao qual podemos colocar-nos na presença de Deus.
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 É demasiado cedo para seguir o desenvolvimento ulterior das filosofias da existência, mas, se tomarmos em linha de conta o esforço de Maurice Merleau-Ponty, chegaremos a uma posição oposta à do começo desta história das filosofias da existência, porque o que está agora colocado no centro é, como acontece no último Husserl, a percepção. De uma teoria que isola os homens do mundo, com Kierkegaard, nós vamos até uma teoria que concebe o homem como essencialmente no mundo, com Heidegger, primeiro, e de uma maneira talvez mais decidida, mais estreita se se quiser, com Sartre e Merleau-Ponty. É demasiado cedo para seguir o desenvolvimento ulterior das filosofias da existência, mas, se tomarmos em linha de conta o esforço de Maurice Merleau-Ponty, chegaremos a uma posição oposta à do começo desta história das filosofias da existência, porque o que está agora colocado no centro é, como acontece no último Husserl, a percepção. De uma teoria que isola os homens do mundo, com Kierkegaard, nós vamos até uma teoria que concebe o homem como essencialmente no mundo, com Heidegger, primeiro, e de uma maneira talvez mais decidida, mais estreita se se quiser, com Sartre e Merleau-Ponty.
  
 Do sujeito isolado perante Deus, tal qual o concebia Kierkegaard, chegamos, com Jaspers, a uma existência essencialmente ligada à sequência profundamente histórica das gerações e à comunicação com os outros, e, com Heidegger, a uma existência que é essencialmente ser no mundo. Jaspers generalizou e completou a experiência de Kierkegaard, esforçou-se por ver o que nela há de válido num sentido universal (se estes termos podem ser aceites por Jaspers) e Sartre cortou a existência da transcendência, tal como Kierkegaard a concebia, mas, por outro lado, Gabriel Marcel, partindo de um ponto completamente diferente, retoma certas posições kierkegaardianas. Do sujeito isolado perante Deus, tal qual o concebia Kierkegaard, chegamos, com Jaspers, a uma existência essencialmente ligada à sequência profundamente histórica das gerações e à comunicação com os outros, e, com Heidegger, a uma existência que é essencialmente ser no mundo. Jaspers generalizou e completou a experiência de Kierkegaard, esforçou-se por ver o que nela há de válido num sentido universal (se estes termos podem ser aceites por Jaspers) e Sartre cortou a existência da transcendência, tal como Kierkegaard a concebia, mas, por outro lado, Gabriel Marcel, partindo de um ponto completamente diferente, retoma certas posições kierkegaardianas.
  
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