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| estudos:wahl:wahl-as-filosofias-da-existencia-panoramica-3367 [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:wahl:wahl-as-filosofias-da-existencia-panoramica-3367 [17/01/2026 13:31] (current) – mccastro |
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| Pudemos sempre chegar à influência de Kierkegaard. A ideia de solidão, de angústia, a ideia de subjetividade, de abandono, mesmo a de preocupação, a importância dada ao tempo, ao possível, ao projeto, a ideia de nada, a ideia de relação paradoxal, tudo isso a meditação de Kierkegaard engloba. | Pudemos sempre chegar à influência de Kierkegaard. A ideia de solidão, de angústia, a ideia de subjetividade, de abandono, mesmo a de preocupação, a importância dada ao tempo, ao possível, ao projeto, a ideia de nada, a ideia de relação paradoxal, tudo isso a meditação de Kierkegaard engloba. |
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| Todas as filosofias têm um certo número de vocábulos que lhes são apropriados, possuem um vocabulário; o cartesiano fala de ideias claras e distintas, de evidência; o kantiano de sínteses a priori, de atividades puras do espírito. Tentemos estabelecer um pequeno vocabulário existencialista: | Todas as filosofias têm um certo número de vocábulos que lhes são apropriados, possuem um vocabulário; o cartesiano fala de ideias claras e distintas, de evidência; o kantiano de sínteses a priori, de atividades puras do espírito. Tentemos estabelecer um pequeno vocabulário existencialista: |
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| Alteridade Existência Possibilidade Ambiguidade Facticidade Preocupação Angústia Finidade Projeto Antinomia Futuro Repetição Autenticidade Historicidade Risco Comunicação Incerteza Salto Contingência Instante Segredo Contradição Malogro Situação Culpa Morte Solidão Desespero Mundo Subjetividade Dialéctica Nada Transcendência Escândalo Origem Tremor Escolha Paradoxo Tu Excepção Pecado Único | Alteridade Existência Possibilidade Ambiguidade Facticidade Preocupação Angústia Finidade Projeto Antinomia Futuro Repetição Autenticidade Historicidade Risco Comunicação Incerteza Salto Contingência Instante Segredo Contradição Malogro Situação Culpa Morte Solidão Desespero Mundo Subjetividade Dialéctica Nada Transcendência Escândalo Origem Tremor Escolha Paradoxo Tu Excepção Pecado Único |
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| Não oferece dúvida de que é em Gabriel Marcel que algumas destas categorias são menos frequentes. O que pode explicar-se historicamente, numa certa medida, pelo fato de o pensamento de Gabriel Marcel se ter constituído independentemente do pensamento de Kierkegaard. E explica-se também pelo fato de a solução religiosa intervir de uma maneira menos angustiada, menos trabalhada pela angústia em Gabriel Marcel que em Kierkegaard. As ideias de angústia ou de nada não terão, em Gabriel Marcel, o mesmo lugar que nos outros filósofos que simultaneamente classificamos como filósofos da existência. | Não oferece dúvida de que é em Gabriel Marcel que algumas destas categorias são menos frequentes. O que pode explicar-se historicamente, numa certa medida, pelo fato de o pensamento de Gabriel Marcel se ter constituído independentemente do pensamento de Kierkegaard. E explica-se também pelo fato de a solução religiosa intervir de uma maneira menos angustiada, menos trabalhada pela angústia em Gabriel Marcel que em Kierkegaard. As ideias de angústia ou de nada não terão, em Gabriel Marcel, o mesmo lugar que nos outros filósofos que simultaneamente classificamos como filósofos da existência. |
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| Mas, se o homem é dotado das qualidades que a filosofia tradicional reservava a Deus, não resta a menor dúvida de que ele é um Deus frustrado; e, realmente, para ser plenamente um Deus, seria necessário que ele realizasse uma união do «em si» e do «para si», união que Sartre declara impossível. | Mas, se o homem é dotado das qualidades que a filosofia tradicional reservava a Deus, não resta a menor dúvida de que ele é um Deus frustrado; e, realmente, para ser plenamente um Deus, seria necessário que ele realizasse uma união do «em si» e do «para si», união que Sartre declara impossível. |
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| Poderíamos interrogar-nos sobre as causas do sucesso das filosofias da existência Este sucesso vem, indubitavelmente, em primeiro lugar da contestação das outras filosofias e da consciência do seu malogro. Além disso, é preciso ter em conta o fato de que, após os abalos da guerra e da ocupação, o espírito experimentava a necessidade de se concentrar em volta de uma doutrina, e tanto quanto possível de uma doutrina nova; neste sentido, poderíamos dizer que o «existencialismo» assumiu a função que o surrealismo desempenhara no final da guerra precedente. Em terceiro lugar, nenhuma teoria, salvo a de Nietzsche, tinha posto em tão plena luz a ideia da criação dos valores para o homem. Acresce que é certo que o lugar concedido à ideia de liberdade e à afirmação de que a liberdade persiste sempre teve o seu papel na repercussão destas filosofias. Neste ponto, poderíamos, numa certa medida, comparar o que fez primitivamente a força da filosofia de Sartre ao que fez a força do pensamento dos estoicos. | Poderíamos interrogar-nos sobre as causas do sucesso das filosofias da existência Este sucesso vem, indubitavelmente, em primeiro lugar da contestação das outras filosofias e da consciência do seu malogro. Além disso, é preciso ter em conta o fato de que, após os abalos da guerra e da ocupação, o espírito experimentava a necessidade de se concentrar em volta de uma doutrina, e tanto quanto possível de uma doutrina nova; neste sentido, poderíamos dizer que o «existencialismo» assumiu a função que o surrealismo desempenhara no final da guerra precedente. Em terceiro lugar, nenhuma teoria, salvo a de Nietzsche, tinha posto em tão plena luz a ideia da criação dos valores para o homem. Acresce que é certo que o lugar concedido à ideia de liberdade e à afirmação de que a liberdade persiste sempre teve o seu papel na repercussão destas filosofias. Neste ponto, poderíamos, numa certa medida, comparar o que fez primitivamente a força da filosofia de Sartre ao que fez a força do pensamento dos estoicos. |
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| Problematizando o homem, problematiza-se todo o universo que lhe está ligado. Sem qualquer problema filosófico, a totalidade do mundo está implicada, ao mesmo tempo que a existência do indivíduo é arriscada por ele próprio, como uma aposta suprema. Deste modo vemos unirem-se constantemente as ideias de individualidade e de totalidade. | Problematizando o homem, problematiza-se todo o universo que lhe está ligado. Sem qualquer problema filosófico, a totalidade do mundo está implicada, ao mesmo tempo que a existência do indivíduo é arriscada por ele próprio, como uma aposta suprema. Deste modo vemos unirem-se constantemente as ideias de individualidade e de totalidade. |
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| Igualmente podemos dizer que vemos juntarem-se as da individualidade e da generalidade. Heidegger, efetivamente, não fala só para um indivíduo particular, mas para qualquer indivíduo. Descreve a existência humana em geral. A angústia é, sem dúvida, uma experiência particular, mas pela angústia nós chegamos às condições gerais da existência, ao que Heidegger chama os existenciais. A filosofia de Heidegger pretende distinguir-se da de Kierkegaard em que Kierkegaard permanece sempre no existencial, enquanto Heidegger atinge o existencial, ou seja os caracteres gerais da existência humana. Faltará perguntar-se se, por esta via, a ideia de essência não é retomada na filosofia de Heidegger, se Kierkegaard não é mais fiel ao pensamento da existência banindo a ideia de essência. Por outras palavras, faltará perguntar-se se a procura dos existenciais é compatível com a afirmação da existência. | Igualmente podemos dizer que vemos juntarem-se as da individualidade e da generalidade. Heidegger, efetivamente, não fala só para um indivíduo particular, mas para qualquer indivíduo. Descreve a existência humana em geral. A angústia é, sem dúvida, uma experiência particular, mas pela angústia nós chegamos às condições gerais da existência, ao que Heidegger chama os existenciais. A filosofia de Heidegger pretende distinguir-se da de Kierkegaard em que Kierkegaard permanece sempre no existencial, enquanto Heidegger atinge o existencial, ou seja os caracteres gerais da existência humana. Faltará perguntar-se se, por esta via, a ideia de essência não é retomada na filosofia de Heidegger, se Kierkegaard não é mais fiel ao pensamento da existência banindo a ideia de essência. Por outras palavras, faltará perguntar-se se a procura dos existenciais é compatível com a afirmação da existência. |
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| Naturalmente, uma concepção como a de Kierkegaard põe muitos problemas. Por um lado, não há nele, apesar de tudo, uma tentativa para racionalizar e explicar o paradoxo fazendo-o ver como união do finito e do infinito, e, enquanto ele quer apresentar um escândalo para a razão, não encontramos nós nele uma espécie de justificação do escândalo, que, finalmente, não o deixaria mais ser enquanto era escândalo! Por outro lado, o próprio Kierkegaard disse que a vinda de Cristo ao mundo, sob a forma por que ela se efetuou, não constitui o paradoxo supremo; dado que este paradoxo só seria atingido no caso em que ninguém se apercebesse da vinda de Deus. «Eu medito nesta questão», escreve ele; «e nela se perde o meu espírito.» Acrescentemos que o paradoxo só existe para aquele que vive na Terra; para os Bem-Aventurados, isto é, para aqueles que veem a verdade, o paradoxo desvanecer-se-á. O que significa que toda esta construção só existe em relação ao homem na medida que ele vive no mundo. | Naturalmente, uma concepção como a de Kierkegaard põe muitos problemas. Por um lado, não há nele, apesar de tudo, uma tentativa para racionalizar e explicar o paradoxo fazendo-o ver como união do finito e do infinito, e, enquanto ele quer apresentar um escândalo para a razão, não encontramos nós nele uma espécie de justificação do escândalo, que, finalmente, não o deixaria mais ser enquanto era escândalo! Por outro lado, o próprio Kierkegaard disse que a vinda de Cristo ao mundo, sob a forma por que ela se efetuou, não constitui o paradoxo supremo; dado que este paradoxo só seria atingido no caso em que ninguém se apercebesse da vinda de Deus. «Eu medito nesta questão», escreve ele; «e nela se perde o meu espírito.» Acrescentemos que o paradoxo só existe para aquele que vive na Terra; para os Bem-Aventurados, isto é, para aqueles que veem a verdade, o paradoxo desvanecer-se-á. O que significa que toda esta construção só existe em relação ao homem na medida que ele vive no mundo. |
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