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estudos:vezin:zeug

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   * Poder-se-ia argumentar que Heidegger, em //Ser e Tempo//, toma consideráveis liberdades em relação aos usos correntes de sua própria língua, o que autorizaria procedimentos semelhantes no vocabulário da tradução; de fato, para quem se atém ao uso do alemão cotidiano, o tratamento que Heidegger impõe a essa palavra é mais do que desconcertante (o que é explicado em detalhe na longa nota que a tradução francesa dedica a esse termo); como não admiti-lo? Mas como poderia o tradutor renunciar à preocupação com a clareza e a simplicidade, que por definição orientam sua empreitada? Vale notar que, em uma crônica intitulada "S. D.", publicada na //Nouvelle Revue Française// (nº 363, p. 101), Jean Clair falou certa vez dos "ustensibles du confort au foyer" (ustensíveis do conforto doméstico); a expressão designava, em seu espírito, objetos técnicos como o refrigerador ou o aparelho de televisão, que fazem parte do equipamento de uma residência e situam-se em nosso ambiente imediato; "ustensible" já é interessante pela ideia de possibilidade que pode conter, sugerindo objetos que estão à nossa disposição, mas sobretudo porque, embora se assemelhe a "ustensile", dele se diferencia nitidamente e, por isso, pode conjurar sua estreiteza; poderia, fora do contexto (o "conforto moderno") ao qual Jean Clair o restringe, ser generalizado para abarcar então, em um singular coletivo, todos os entes com os quais lida a preocupação, desde o sílex talhado da época neolítica até o automóvel.   * Poder-se-ia argumentar que Heidegger, em //Ser e Tempo//, toma consideráveis liberdades em relação aos usos correntes de sua própria língua, o que autorizaria procedimentos semelhantes no vocabulário da tradução; de fato, para quem se atém ao uso do alemão cotidiano, o tratamento que Heidegger impõe a essa palavra é mais do que desconcertante (o que é explicado em detalhe na longa nota que a tradução francesa dedica a esse termo); como não admiti-lo? Mas como poderia o tradutor renunciar à preocupação com a clareza e a simplicidade, que por definição orientam sua empreitada? Vale notar que, em uma crônica intitulada "S. D.", publicada na //Nouvelle Revue Française// (nº 363, p. 101), Jean Clair falou certa vez dos "ustensibles du confort au foyer" (ustensíveis do conforto doméstico); a expressão designava, em seu espírito, objetos técnicos como o refrigerador ou o aparelho de televisão, que fazem parte do equipamento de uma residência e situam-se em nosso ambiente imediato; "ustensible" já é interessante pela ideia de possibilidade que pode conter, sugerindo objetos que estão à nossa disposição, mas sobretudo porque, embora se assemelhe a "ustensile", dele se diferencia nitidamente e, por isso, pode conjurar sua estreiteza; poderia, fora do contexto (o "conforto moderno") ao qual Jean Clair o restringe, ser generalizado para abarcar então, em um singular coletivo, todos os entes com os quais lida a preocupação, desde o sílex talhado da época neolítica até o automóvel.
  
-  * Todas as dificuldades que a interpretação de um termo como //Zeug// — do qual Heidegger faz um uso muito particular e que choca rudemente os hábitos da língua alemã corrente — pode ter causado decorrem do fato de que o //Zeug// em questão é e não é aquilo que comumente chamamos de ferramenta; um martelo, exemplo tomado por Heidegger, só é uma ferramenta porque é, antes de tudo, um //util// (útil); recorrer à grafia antiga "util", como se encontra em textos um pouco mais antigos (em São Francisco de Sales, por exemplo), pode surpreender se reutilizada hoje, mas não foi o gosto pela linguagem elegante que inspirou em Heidegger o uso muito particular que faz do termo //Zeug// para designar o ente tal como o encontramos na preocupação (//ÊT//, 68); se seu vocabulário tem frequentemente algo de abrupto, isso não prejudica necessariamente sua eficácia.+  * Todas as dificuldades que a interpretação de um termo como //Zeug// — do qual Heidegger faz um uso muito particular e que choca rudemente os hábitos da língua alemã corrente — decorrem do fato de que o //Zeug// em questão é e não é aquilo que comumente chamamos de ferramenta; um martelo, exemplo tomado por Heidegger, só é uma ferramenta porque é, antes de tudo, um //util// (útil); recorrer à grafia antiga "util", como se encontra em textos um pouco mais antigos (em São Francisco de Sales, por exemplo), pode surpreender se reutilizada hoje, mas não foi o gosto pela linguagem elegante que inspirou em Heidegger o uso muito particular que faz do termo //Zeug// para designar o ente tal como o encontramos na preocupação (//ÊT//, 68); se seu vocabulário tem frequentemente algo de abrupto, isso não prejudica necessariamente sua eficácia.
  
   * Cabe acrescentar que, embora haja um pouco de exageração na ligação que Ponge acredita poder estabelecer entre "ustensile" e "ostensible" (ostensível), não deixa de ser verdade que, por sua própria aparência, a bolsa de mão convida a ser pegue com a mão; por outro lado, onde Ponge toca algo de essencial é quando afirma que há em "ustensile" "uma forma frequentativa em relação ao útil: é algo de que nos servimos frequentemente, cotidiana ou até diariamente" — o singular //singulare tantum// frequentativo, tal como se inscreve assim na cotidianeidade, tem, de fato, a propriedade de aclimatar o útil na temporalidade da preocupação.   * Cabe acrescentar que, embora haja um pouco de exageração na ligação que Ponge acredita poder estabelecer entre "ustensile" e "ostensible" (ostensível), não deixa de ser verdade que, por sua própria aparência, a bolsa de mão convida a ser pegue com a mão; por outro lado, onde Ponge toca algo de essencial é quando afirma que há em "ustensile" "uma forma frequentativa em relação ao útil: é algo de que nos servimos frequentemente, cotidiana ou até diariamente" — o singular //singulare tantum// frequentativo, tal como se inscreve assim na cotidianeidade, tem, de fato, a propriedade de aclimatar o útil na temporalidade da preocupação.
  
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