estudos:stiegler:bernard-stiegler-tecnica-e-tempo-introducao-1
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| estudos:stiegler:bernard-stiegler-tecnica-e-tempo-introducao-1 [16/01/2026 14:40] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:stiegler:bernard-stiegler-tecnica-e-tempo-introducao-1 [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== técnica E tempo (INTRODUÇÃO 1) ===== | ||
| + | No início de sua história, a filosofia isolou a techne e a episteme, que os tempos homéricos ainda não haviam distinguido. Essa mudança foi determinada por um contexto político no qual o filósofo acusava o sofista de usar o logos como retórica e logografia, um meio de poder e um não-lugar de conhecimento. É sobre o legado desse conflito, no qual a episteme filosófica luta contra a techne sofística, desvalorizando assim todo o conhecimento técnico, que a essência dos entes técnicos em geral é estabelecida: | ||
| + | |||
| + | Todo ser natural (...) tem em si um princípio de movimento e fixidez, alguns quanto ao lugar, outros quanto ao aumento e diminuição, | ||
| + | |||
| + | Os entes técnicos não são inerentemente causais, e é a partir dessa ontologia que a técnica é analisada em termos de fins e meios, o que também significa que os entes técnicos não têm dinâmica própria. | ||
| + | |||
| + | Muito mais tarde, Lamarck dividiu os corpos em dois campos principais: de um lado, a físico-química dos entes inertes; de outro, a ciência dos entes orgânicos. Existem | ||
| + | |||
| + | duas classes de corpos. O inorgânico é o não vivo, o inanimado, o inerte. O orgânico é aquele que respira, se alimenta e se reproduz; é aquele que vive e está “necessariamente sujeito à morte” (Lamarck, Philosophie zoologique, t. 1, p. 106). O organizado é identificado com o vivo. Os entes são definitivamente separados das coisas. | ||
| + | |||
| + | As duas regiões de entes correspondem a duas dinâmicas: a primeira é a mecânica; a segunda é a biologia — entre as quais o ente técnico não é mais do que um híbrido que não tem mais status ontológico do que na filosofia antiga. É porque a matéria recebe acidentalmente a marca de uma atividade vital que uma série de objetos feitos ao longo do tempo testemunha uma evolução, e o ente técnico pertence essencialmente à mecânica, testemunhando o comportamento vital do qual ele não é mais do que um traço desprovido de espessura. | ||
| + | |||
| + | Ao vislumbrar a possibilidade de uma tecnologia que seria a teoria da evolução das técnicas, Marx esboçou um novo ponto de vista. E Engels evocaria uma dialética entre a ferramenta e a mão que rompia a divisão entre o inerte e o orgânico. A arqueologia estava descobrindo objetos manufaturados muito antigos, e as origens do homem haviam se tornado uma questão real desde Darwin. Kapp desenvolveu sua teoria de projeção orgânica, que inspiraria Espinas no final do século XIX. Ao mesmo tempo em que os historiadores da Revolução Industrial começavam a levar em conta o papel desempenhado pelas novas técnicas, a etnologia logo acumularia uma riqueza tão grande de documentação sobre as indústrias primitivas que a questão de um futuro técnico, irredutível à sociologia, à antropologia, | ||
| + | |||
| + | Entre a mecânica e a biologia, o ente técnico se torna um complexo de forças heterogêneas, | ||
| + | |||
| + | de certa forma, leva a uma extenuação de seu sentido. As idealidades espaço-temporais reais, como aparecem originalmente no pensamento geométrico sob o título usual de “intuições puras”, são transformadas, | ||
| + | |||
| + | A digitalização é uma perda do sentido e da visão originais, da visada eidética que sustenta a cientificidade como tal: | ||
| + | |||
| + | No cálculo algébrico, nem é preciso dizer que o significado geométrico é colocado em segundo plano, e até mesmo abandonado por completo; calculamos, e somente no final nos lembramos de que os números foram feitos para significar magnitudes. Além disso, não calculamos “mecanicamente”, | ||
| + | |||
| + | A tecnicização da ciência é sua cegueira eidética. Como um projeto de mathésis universalis, | ||
| + | |||
| + | é ela própria acorrentada (...) em uma mutação pela qual se torna pura e simplesmente (...) uma simples arte de obter resultados por meio de uma técnica de cálculo que segue regras técnicas. verdade a esses resultados corretos (...), é aqui colocado fora de ação. | ||
| + | |||
| + | A tecnicização é o que faz com que a memória se perca, como foi o caso no Fedro: no conflito entre sofistas e filósofos, a logografia hipomnésica ameaça a memória anamnésica do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | grandes humanistas (...), como Cassirer e Husserl, estavam tentando, na década de 1930, combater a ascensão da “barbárie” fascista com várias formas de “rejuvenescimento” da filosofia racional moderna. | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
