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| | ====== humano = corpo; coração = bomba (E1:116-119) ====== |
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| | //Data: 2020-06-16 10:15// |
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| | ==== ESFERAS I. BOLHAS. (E1) ==== |
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| | === Operação cardíaca ou Do excesso eucarístico === |
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| | //Excerto de SLOTERDIJK, Peter. Esferas I. Bolhas. Tr. José Oscar de Almeida Marques. Rio de Janeiro: Estação Liberdade, 2016, p. 116-119.// |
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| | Enquanto o misticismo da Contrarreforma, em sua defesa da interioridade mágica e religiosa, envolvia-se em jogos de linguagem cardioteológicos cada vez mais frenéticos, um irresistível desencantamento anatômico do coração havia sido posto em marcha pela pesquisa médica nas universidades europeias. A inicialmente proscrita ciência da dissecção de cadáveres desenvolveu, entre os séculos XVI e XVII, uma nova imagem do ser humano como uma miraculosa manufatura de órgãos. Ao lado dos teólogos, os médicos ergueram doravante sua voz e exigiram uma cátedra pública para tratar das questões sobre a natureza humana. As mesas de dissecção dos anatomistas transformaram-se nos altares das novas ciências do homem, os cadáveres foram promovidos a mestres-assistentes da antropologia. Eles ensinaram com grande autoridade que os homens, antes de qualquer relação com seus semelhantes, são, em primeiro e último lugar, corpos individuais desconectados — corpos que existem em sua unidade funcional original e individualidade orgânica, para só posteriormente, e de forma secundária, se integrarem a grupos sociais. É por isso que, entre as origens do moderno individualismo, deve-se tomar em consideração também um influente fator anatômico. A posição absoluta do indivíduo não se nutre apenas das modernas concepções filosóficas do sujeito e dos interesses dos burgueses proprietários, mas igualmente desse individualismo anatômico no qual o cadáver humano é compreendido como um corpo sem relações. Sob o olhar analítico do anatomista, o corpo humano individual se apresentava como uma oficina autônoma da vida, algo como a coisa em si fisiológica. De fato, nas entranhas abertas do cadáver, não há qualquer indicação de uma existência em íntima relação com outras existências. |
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| | Enquanto nos países da reação católica as igrejas barrocas se enchiam de imagens votivas de corações ardentes, os anatomistas, em outro cenário, processavam o coração feudal. Eles lançaram um discurso cardiológico que era pura subversão, ao rebaixar o coração de um Sol para uma máquina, de um rei dos órgãos para um funcionário encarregado da circulação sanguínea. Padres, como João Eudes, podiam levar o culto dos sagrados corações de Cristo e de Maria às massas do início da modernidade; mas seu contemporâneo William Harvey não deixou, por isso, de ir ao encalço dos mistérios do funcionamento do coração dessacralizado. Cento e cinquenta anos após a ruptura de Harvey, o processo do desencantamento cardíaco havia progredido tanto que já se podiam anunciar reabilitações românticas do perdido mundo mágico do coração; no início do século XIX, o esfriamento geral havia atingido um grau tão crítico que era preciso recorrer a essa restauração cordial, cujo exemplo, na Alemanha, foi dado sobretudo por Wilhelm Hauff, com seu satírico conto do coração frio. Desde então, a luta pelo ajuste da temperatura do mundo faz parte das constantes dramatúrgicas da modernidade literária e midiática. Após a virada da era absolutista para a burguesa, manifestou-se, em uma ampla seção da intelligentsia das novas classes médias, particularmente entre médicos, engenheiros, empreiteiros de ocasião e homens de letras, uma propensão a explicar o mundo e a vida em seu todo segundo os conceitos diretores da fisiologia e da mecânica; e, no decurso de uma inevitável contraposição, os espíritos de orientação sintética e holística exigiram os direitos térmicos de mundos interiores refrigerados e excessivamente públicos. |
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