estudos:severino:fundacao-ontologica-ontica
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| + | ====== 70. Fundação ontológica e fundação ôntica ====== | ||
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| + | * Esclarecimento preliminar do sentido de motivar como possibilização ontológica da verdade ôntica | ||
| + | * Torna-se necessário explicitar com maior rigor o sentido do motivar, Begründen, entendido como possibilização ontológica da verdade ôntica, para que a estrutura do fundamento não permaneça apenas enunciada sob a forma de um trinomio, mas seja reconduzida ao seu significado operativo. | ||
| + | * O significado essencial do motivar é determinado como a possibilização da pergunta do porquê em geral, de modo que o motivar não é aqui um simples fornecer razões dentro de um domínio já constituído, | ||
| + | * Se a transcendência, | ||
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| + | * Emergência do porquê a partir da limitação do poder-ser e da estrutura lançada do projeto | ||
| + | * Existir significa transcender o imediato projetando um mundo, e projetar um mundo significa, para a existência, | ||
| + | * Entretanto, o projeto é sempre lançado, de tal modo que o poder-ser encontra-se limitado transcendentalmente e também de fato pela não potência, o que impede que o poder-ser se constitua como potência absoluta. | ||
| + | * Essa não potência do poder-ser permite que o ente venha ao encontro como excedência, | ||
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| + | * O porquê como correlato da finitude e como impossibilidade própria de uma potência absoluta | ||
| + | * A limitação não é tomada como simples carência psicológica, | ||
| + | * Uma potência pura do poder-ser, entendida como circularidade absoluta de potência e consciência, | ||
| + | * O porquê nasce precisamente com a anulação do poder-ser, isto é, com seu constituir-se como não potente poder-ser; com a não potência nasce o limite, e o limite é aquilo sobre o qual o poder-ser não tem potência, abrindo a questão do porquê dessa ausência de mediação. | ||
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| + | * A transcendência como possibilidade transcendental do porquê e a necessidade transcendental do seu surgir | ||
| + | * A não potência implica o limite e, enquanto não potência de um poder-ser, implica o porquê do limite, pois a experiência do limite exige que se coloque a questão de sua razão. | ||
| + | * Como o não potente poder-ser é a possibilidade de toda referência ao ente, ele constitui a estrutura da transcendência, | ||
| + | * Segue-se que o surgir do porquê não é contingente, | ||
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| + | * A compreensão do ser como condição do porquê e como resposta originária enquanto motivação | ||
| + | * O não potente poder-ser não é apenas condição transcendental do porquê, mas é também o constituir-se do horizonte do ser como capacidade transcendental de manifestar o ente como o ente que ele é, isto é, no seu pôr-se como limite que solicita o porquê do próprio limite. | ||
| + | * Se a resposta possível ao porquê pertence ao domínio dessa capacidade transcendental, | ||
| + | * A compreensão do ser contém, assim, uma resposta originária primeira e última para todo perguntar, no sentido de que abre o horizonte no qual qualquer motivação ôntica pode ocorrer, constituindo-se como motivação originária. | ||
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| + | * O ponto delicado: da motivação ontológica à exigência de motivação ôntica e de legitimação | ||
| + | * A motivação, | ||
| + | * Contudo, toda posição do ente, enquanto motivada pelo motivar ontologicamente fundado, deve ela mesma ser motivante e legitimante, | ||
| + | * A posição do ente, assim, não é simples apresentação arbitrária, | ||
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| + | * Esclarecimento da noção de posição do ente como anführung e da legitimação como ausweisung | ||
| + | * A pergunta pelo sentido de posição do ente é esclarecida pela distinção entre posição, Anführung, e legitimação, | ||
| + | * Legitimação significa demonstrar algo como necessariamente implicado por uma zona já revelada do ente, de modo que o ato de provar não se move no vazio, mas parte de um contexto previamente aberto e irrecusável. | ||
| + | * A zona já revelada do ente pode ser assumida concretamente como a unidade originária, | ||
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| + | * Exemplo estruturante: | ||
| + | * A partir de uma estrutura especulativa particular, estabelece-se a alteridade entre a unidade originária e o absoluto, entendido como fundamento das fundações provisórias da unidade, que se revelaram como condições ontológicas subjetiva e objetiva. | ||
| + | * O absoluto é então inferido como causa de uma zona já revelada do ente, isto é, como aquilo sem o qual a unidade originária não seria o que é. | ||
| + | * A posição do ente absoluto, como anführung, significa seu ser necessariamente inferido e demonstrado, | ||
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| + | * Legitimação como exclusão do contraditório e vínculo com a lei soberana da unidade originária | ||
| + | * Dizer que toda posição do ente deve legitimar-se significa demonstrar o ente na necessidade do seu pôr-se, de modo que negar esse pôr-se implica cair em contradição. | ||
| + | * Essa contradição é formulada como violação da lei soberana da unidade originária, | ||
| + | * Assim, legitimar-se significa excluir o contraditório, | ||
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| + | * Problema central: em que sentido a motivação ôntica depende da motivação ontológica | ||
| + | * A questão decisiva é determinar em que sentido a motivação ôntica, isto é, a exigência de que toda posição do ente seja motivante e se legitime, é possível apenas sobre o fundamento de uma motivação ontológica, | ||
| + | * A interpretação heideggeriana tende, por um equívoco previamente denunciado, a sustentar que um processo de fundação como o esboçado só é válido após a enucleação do ato fundante da transcendência. | ||
| + | * Se essa enucleação significa o reconhecimento da não potência do poder-ser e do ato de ser do ente independente do manifestar, então a solidariedade com tal exigência é plena, pois o processo autêntico da direção ôntica da ontologia nada mais é do que o resolvimento da provisoriedade dessas fundações reconhecidas. | ||
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| + | * Recusa do condicionamento pela elaboração integral da direção ontológica e afirmação da complementaridade | ||
| + | * Se, porém, a posição heideggeriana for entendida como exigência de que o processo de fundação só funcione após a elaboração integral do problema do ser enquanto ser, isto é, após a plena constituição da direção ontológica da ontologia, então dois pontos se impõem. | ||
| + | * Em primeiro lugar, a filosofia de Heidegger, em sua estrutura autêntica, não contém a necessidade de um impedimento à construção ôntica, pois tal impedimento é apenas enunciado e não operante na efetividade da filosofia tal como ela se apresenta. | ||
| + | * Em segundo lugar, as duas direções da ontologia não se excluem, mas são complementares, | ||
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| + | * Demonstração da inexistência de impedimento: | ||
| + | * A tese a ser demonstrada afirma que a filosofia de Heidegger não contém, em sua estrutura essencial, algo como um impedimento ao processo de fundação delineado. | ||
| + | * O procedimento que infere o absoluto como fundamento da unidade originária tem a mesma forma do procedimento inferencial que conduz à posição da transcendência como condição ontológica subjetiva dessa unidade. | ||
| + | * A transcendência, | ||
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| + | * A ontologicidade como algo e a inevitável onticidade do que é inferido | ||
| + | * Ainda que o motivar, enquanto horizonte ontológico, | ||
| + | * Esse ser um algo exprime a onticidade que compete necessariamente ao ontológico enquanto é inferido e posicionado como o que fundamenta uma zona já manifesta do ente. | ||
| + | * O ontológico assim inferido funda segundo o seu modo próprio: não funda o ente no seu ato de ser, mas funda o manifestar do ente em si mesmo, isto é, realiza a fundação ontológica. | ||
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| + | * Conclusão demonstrativa: | ||
| + | * Se a estrutura essencial da filosofia heideggeriana se sustenta em uma motivação ôntica, então ela não pode conter um impedimento essencial a essa motivação, | ||
| + | * Afirmar o impedimento equivaleria a destruir a estrutura essencial da filosofia em exame e, ao destruir essa estrutura, remover-se-ia simultaneamente o próprio impedimento que se pretendia impor como traço essencial. | ||
| + | * A tese demonstrada impõe-se, portanto, como necessária para que a filosofia possa pôr-se como de fato se põe. | ||
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| + | * Sentido adequado da fundação ontológica como horizonte de jogo da investigação ôntica | ||
| + | * A motivação ontológica funda a motivação ôntica no sentido de que toda investigação ôntica se move dentro de um horizonte, Spielraum, que, enquanto capacidade transcendental de manifestar, torna possível a exigência de inferir causas, fundamentos e motivos. | ||
| + | * O fundamento ontológico da unidade originária, | ||
| + | * Isso se confirma pelo fato de que o motivar ontológico é a unidade do estabelecer e do tomar-base, os quais, ao implicarem o limite, fazem surgir o porquê do limite e, com ele, a necessidade de motivar onticamente aquilo a que o porquê se refere. | ||
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| + | * Circularidade esclarecida: | ||
| + | * Se a inferência enuclea algo como fundamento ontológico, | ||
| + | * O fundamento ontológico funciona como causa que torna possível o constituir-se da necessidade de inferir uma causa do que, na dimensão ôntica como fundamento metodológico, | ||
| + | * O fundamento ontológico é inferido por um procedimento de fundação ôntica que o põe como algo que, ontologicamente, | ||
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| + | * Reconfirmação do ensinamento capital: distinção entre onticidade e ontologicidade como interna ao pôr-se de algo em geral | ||
| + | * Reconfirma-se que a distinção entre onticidade e ontologicidade é interna à onticidade essencial que consiste no pôr-se de algo em geral, no seu ato de ser, independentemente do modo desse pôr-se. | ||
| + | * Esse ponto é corroborado pelo reconhecimento de um algo próprio da ontologicidade, | ||
| + | * A onticidade no sentido específico do ato de ser como já-ser do ente, independente do seu manifestar, é ela mesma inferida por motivação ôntica, seja mediante a implicação exigida pela não potência do ontológico, | ||
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| + | * Síntese final: transcendência como origem do ato fundante e liberdade como temporalização do fundar | ||
| + | * A transcendência revela-se como origem do ato fundante, e o constituir-se desse ato na sua triplicidade coincide com o pôr-se temporal e histórico da transcendência. | ||
| + | * A essência do fundamento é apresentada como a tripla dispersão transcendental do fundar em projeto de mundo, implicação no ente e motivação ontológica do ente, e esses três atos são o próprio modo do vínculo da liberdade ao fundamento. | ||
| + | * Fundamento significa possibilidade, | ||
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| + | * Fundar ontologicamente o princípio de razão suficiente como possibilizar sua necessidade | ||
| + | * A investigação não pretende condicionar o princípio de razão suficiente, mas fundá-lo ontologicamente, | ||
| + | * Fundar ontologicamente significa possibilizar a necessidade do princípio, de modo que a necessidade não é tornada provisória, | ||
| + | * Sendo a ontologicidade o próprio manifestar do ser, segue-se que é essencial ao ser ser ato fundante, e que o fundamento é a característica do ser enquanto tal, ser que só se põe e se manifesta na transcendência. | ||
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| + | * Distinção entre necessidade ôntica e possibilidade ontológica e a tese sobre a origem do princípio | ||
| + | * O princípio de razão suficiente é articulado como corolário imediato da não contraditoriedade do ente, e esse nexo não é negado pela investigação. | ||
| + | * A não contraditoriedade do ente é o fundamento da necessidade do princípio, enquanto a liberdade, como transcendência, | ||
| + | * Assim, ao afirmar que a liberdade é a origem do princípio de razão suficiente e ao contestar a derivação do princípio de razão suficiente a partir do princípio de não contradição, | ||
| + | * A possibilização da necessidade não enfraquece a necessidade, | ||
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