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| + | ====== Ser e Tempo ====== | ||
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| + | **Reiner Schürmann** | ||
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| + | **Introdução: | ||
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| + | **A tese comum: Ser e Tempo e a filosofia da subjetividade** | ||
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| + | 1. Desde sua publicação em 1927, Ser e Tempo permaneceu submetido a interpretações equívocas, sobretudo ao “mal-entendido existencialista”, | ||
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| + | 2. A partir da década de 1950 consolidou-se a interpretação segundo a qual Ser e Tempo pretende superar a determinação tradicional do homem como coisa ou ente entre outros entes dotado da diferença específica da racionalidade, | ||
| + | * A tradição define o homem como [[lx> | ||
| + | * A presença (Dasein) rompe com esse esquema porque o próprio do humano não pode ser determinado como uma propriedade acrescentada a um gênero previamente estabelecido. | ||
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| + | 3. Essa interpretação corrente inscreve Ser e Tempo na tradição da filosofia da subjetividade ao compreender a presença (Dasein) como uma reformulação do sujeito humano mediante sua relação constitutiva com o mundo, de modo que o homem jamais possa ser compreendido sem seu mundo nem o mundo independentemente daquele para quem ele é mundo, superando-se assim a figura do sujeito solipsista. | ||
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| + | 4. Embora insuficiente, | ||
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| + | 5. A insuficiência decisiva dessa interpretação consiste em supor que o ser seja sempre apenas ser da presença (Dasein), quando a ontologia fundamental não procura simplesmente mostrar como a presença se fundamenta transcendentalmente nem se limita a esclarecer o sentido ontológico dos atos intencionais ou da pessoa, mas se orienta por uma problemática do ser que excede a determinação ontológica do humano. | ||
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| + | 6. Segundo a interpretação corrente, Ser e Tempo prolongaria o processo moderno de dessubstancialização do sujeito iniciado por Kant e Hegel e desenvolvido por Schelling e Kierkegaard, | ||
| + | * Em Hegel, o sujeito deixa de ser uma coisa entre coisas ao ser compreendido como momento do processo infinito do espírito que medeia a si mesmo e o conjunto do ente. | ||
| + | * Em Schelling, torna-se manifesta a [[lx> | ||
| + | * Em Kierkegaard, | ||
| + | * Em Heidegger, a facticidade pertence à própria essência da presença (Dasein): ela está lançada no mundo sem que exista um lançador exterior que explique seu estar-lançado ([[lx> | ||
| + | * A totalidade ([[lx> | ||
| + | * O título Ser e Tempo indica, nessa perspectiva, | ||
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| + | 7. A conclusão dessa leitura é que Ser e Tempo representaria a culminação da filosofia da subjetividade, | ||
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| + | 8. Embora essa interpretação seja parcialmente correta, ela não corresponde à compreensão heideggeriana do ser, que não significa primariamente o ser do homem, pois Ser e Tempo começa efetivamente pela questão do ser enquanto tal e somente em consequência por aquela da presença (Dasein), fato decisivo para reconhecer a unidade do percurso heideggeriano contra a separação entre um primeiro Heidegger dedicado à existência e um segundo Heidegger dedicado ao ser. | ||
| + | * A distinção entre “Heidegger I” e “Heidegger II”, difundida por William Richardson, separa uma fase centrada na existência e no sujeito de outra orientada para o ser enquanto ser. | ||
| + | * A virada ([[lx> | ||
| + | * Os primeiros parágrafos de Ser e Tempo mostram que a questão do ser já se encontra no início do caminho e justificam a consideração dos escritos posteriores na interpretação da obra de 1927. | ||
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| + | **Ser e Tempo como retomada** | ||
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| + | 9. Ser e Tempo inicia-se não com uma questão herdada de Hegel, Schelling, Kierkegaard ou Husserl, mas com uma passagem do Sofista de Platão e com a exigência de uma retomada ([[lx> | ||
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| + | 10. A retomada da questão do sentido do ser encontra no Sofista a passagem de um modo narrativo de compreender os entes, segundo sua geração e corrupção, | ||
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| + | 11. O primeiro movimento filosófico da questão do ser consiste, portanto, em abandonar a narrativa que reconduz um ente a outro ente como explicação de sua proveniência, | ||
| + | * “Não contar histórias” significa não explicar o ente enquanto ente recorrendo simplesmente a outro ente como sua origem. | ||
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| + | 12. No Sofista, a perplexidade do Estrangeiro diante da questão do ser conduz ao confronto com Parmênides, | ||
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| + | 13. A retomada exige ainda recuperar em nós mesmos a capacidade originária de espanto diante do ser, pois a questão não começa simplesmente numa tradição histórica, mas numa disposição pela qual a familiaridade cotidiana com a palavra “ser” torna-se novamente problemática, | ||
| + | * A pergunta leibniziana “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” manifesta essa reativação do espanto filosófico. | ||
| + | * A expressão “sentido do ser” implica também a necessidade de desenvolver uma sensibilidade para a própria questão do ser. | ||
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| + | 14. A retomada torna-se ainda mais complexa quando Heidegger enumera três preconceitos tradicionais que encobrem a necessidade de recolocar a questão do sentido do ser. | ||
| + | * O ser seria o mais geral de todos os conceitos. | ||
| + | * O ser seria indefinível. | ||
| + | * O ser seria evidente por si mesmo. | ||
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| + | 15. A necessidade da retomada nasce do fato de que todo comportamento em relação ao ente já pressupõe uma compreensão de ser, embora o sentido do ser permaneça simultaneamente obscuro, de modo que a presença humana se move constantemente numa compreensão prévia cujo fundamento não consegue explicitar. | ||
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| + | 16. Surge então a dificuldade de compreender como a questão do ser pode ter sido historicamente esquecida e, ao mesmo tempo, estar sempre implicada a priori em toda relação com o ente, pois o esquecimento pertence ao plano ôntico da história, enquanto o enigma inscrito na compreensão prévia de ser pertence à condição ontológica da própria presença, tornando necessário compreender [[lx> | ||
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| + | 17. No segundo parágrafo de Ser e Tempo, a estrutura da questão distingue aquilo que é questionado (das [[lx> | ||
| + | * O ser é aquilo que determina o ente enquanto ente. | ||
| + | * A presença (Dasein) é interrogada porque nela a questão do ser pode tornar-se explícita. | ||
| + | * O que se busca é o sentido (Sinn) do ser. | ||
| + | * A tentativa tardia de Heidegger de “pensar o ser sem levar em consideração a questão de uma fundamentação do ser a partir do ente” não abandona o início de Ser e Tempo, mas retoma sua exigência fundamental. | ||
| + | * A própria história do esquecimento da questão do ser pode indicar que esse esquecimento não decorre simplesmente de uma falha humana, mas pertence de algum modo ao próprio movimento pelo qual o ser se manifesta e se encobre. | ||
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| + | {{https:// | ||
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| + | 18. As primeiras dimensões da retomada convergem na passagem para um questionamento efetivamente filosófico, | ||
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| + | 19. O conceito de retomada (Wiederholung) possui ainda em Ser e Tempo um significado estrutural ligado à composição da obra e outro ligado ao próprio conteúdo da compreensão de ser da presença (Dasein), particularmente à cura ([[lx> | ||
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| + | 20. A arquitetura projetada de Ser e Tempo compreendia duas partes com três seções cada, das quais somente duas seções da primeira parte foram publicadas sob esse título, enquanto a segunda seção retoma a analítica da primeira a partir da temporalidade, | ||
| + | * A terceira seção da primeira parte foi posteriormente desenvolvida em curso e publicada como Os problemas fundamentais da fenomenologia. | ||
| + | * A segunda parte deveria realizar uma destruição fenomenológica da história da ontologia segundo o fio condutor da problemática da temporalidade. | ||
| + | * A relação entre a primeira e a segunda seções publicadas é uma relação de retomada, pois a analítica da presença é repetida a partir de sua temporalidade. | ||
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| + | 21. O sentido mais profundo da retomada relaciona-se à decisão autêntica e mostra que Ser e Tempo não pode ser reduzido à filosofia da subjetividade, | ||
| + | * Retomar significa tornar explícito aquilo que já sempre esteve operando sem ter sido adequadamente tematizado. | ||
| + | * O lugar de Ser e Tempo na história da filosofia depende dessa tentativa de articular aquilo que permaneceu desarticulado no pensamento ocidental. | ||
| + | * “Pensar o ser como tempo” constitui, nesse horizonte, o núcleo mais difícil da tarefa filosófica. | ||
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| + | **A aporia em Ser e Tempo** | ||
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| + | 22. A aparente interrupção de Ser e Tempo revela uma aporia constitutiva, | ||
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| + | 23. A aporia já se encontra formulada na exigência de tornar transparente em seu ser o ente que questiona, pois, para elaborar o tempo como sentido ou direcionalidade do ser, Heidegger desenvolve a temporalidade como sentido ou direcionalidade da presença (Dasein), fazendo com que o projeto permaneça incompleto e que a passagem de Ser e Tempo para Tempo e Ser assuma a forma de um itinerário filosófico de décadas, e não a continuidade sistemática de um tratado. | ||
| + | * O curso Tempo e Ser, de 1962, não constitui simplesmente a seção ausente de Ser e Tempo. | ||
| + | * A mesma questão orientadora persiste, mas se transforma ao longo de mais de três décadas de caminho de pensamento. | ||
| + | * A unidade da obra heideggeriana é, portanto, a unidade de um itinerário e não a de um sistema concluso. | ||
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| + | 24. A interrupção de Ser e Tempo ocorreu precisamente no ponto em que deveria ser desenvolvida a seção intitulada “Tempo e Ser”, porque naquele momento ainda não havia condições para desenvolver suficientemente a problemática indicada por esse título. | ||
| + | * “Naquele tempo o autor não estava apto para desenvolver suficientemente o tema designado pelo título ‘Tempo e Ser’.” | ||
| + | * “A publicação de Ser e Tempo foi interrompida nesse momento.” | ||
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| + | 25. O texto de Tempo e Ser escrito três décadas e meia mais tarde não pode constituir continuação direta do tratado de 1927, embora preserve sua questão orientadora, | ||
| + | * “A questão orientadora permanece a mesma.” | ||
| + | * Essa permanência não significa repetição doutrinária, | ||
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| + | 26. A aporia não resulta simplesmente de uma insuficiência filosófica pessoal, mas deve ser preservada porque corresponde à situação histórica de um pensamento situado num limiar em que a filosofia sistemática já não é, ou ainda não é, possível, fazendo com que o caráter fragmentário da obra expresse uma determinação histórica pelo próprio ser. | ||
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| + | 27. Ser e Tempo não constitui, portanto, uma obra sistemática, | ||
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| + | 28. Os caminhos de floresta (Holzwege) são trajetórias que atravessam a mesma floresta separadamente, | ||
| + | * “Na floresta há caminhos que, o mais das vezes sinuosos, terminam-se perdendo, subitamente, | ||
| + | * “Cada um segue separado, mas na mesma floresta.” | ||
| + | * Lenhadores e guardas-florestais sabem o que significa encontrar-se efetivamente num caminho de floresta. | ||
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| + | 29. A interpretação de Hannah Arendt acentua que a metáfora dos caminhos de floresta não significa apenas seguir uma via que aparentemente não conduz a parte alguma, mas também abrir o próprio caminho no interior daquilo que constitui o campo do pensamento, assim como o lenhador abre sua passagem na floresta e faz desse desbravamento parte essencial de seu ofício. | ||
| + | * O caminho filosófico não é simplesmente encontrado pronto, mas é aberto pelo próprio movimento de pensar. | ||
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| + | 30. O início de Ser e Tempo deve ser novamente compreendido a partir do esquecimento ou, mais precisamente, | ||
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| + | 31. A metáfora dos caminhos de floresta revela ainda que o próprio itinerário do ser não se orienta para um fim ou [[lx> | ||
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| + | 32. Toda a história da filosofia desde os gregos pode então ser compreendida como uma errância, não no sentido de simples erro, mas como caráter errante inevitável do próprio caminho do pensamento, pois pensar o ser de maneira pura e direta é impossível e a aporia de Ser e Tempo expressa precisamente essa impossibilidade constitutiva. | ||
| + | * “Quem pensa grande também erra com grandeza.” | ||
| + | * O esquecimento da questão do ser constitui uma manifestação histórica do velamento essencial pertencente ao próprio ser. | ||
| + | * O caminho de pensamento de Heidegger também participa dessa errância e desse velamento, não podendo situar-se fora daquilo que procura pensar. | ||
| + | * A resposta à aporia encontra-se, | ||
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| + | 33. A tentativa de situar Ser e Tempo na história da filosofia conduz à conclusão de que seu lugar é a própria história da filosofia em sua totalidade, pois a obra procura reabrir a problemática fundamental que atravessa e constitui essa história, apresentando-se desde seu início como contraparte contemporânea da abertura filosófica realizada por Platão e Aristóteles. | ||
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| + | **Dasein como ente exemplar para a retomada** | ||
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| + | 34. A retomada da problemática do ser desenvolve-se desde o início de Ser e Tempo por um movimento simultaneamente negativo e positivo: negativamente, | ||
| + | * A tarefa negativa consiste em desmantelar as determinações ontológicas herdadas que já pressupõem respostas para a questão do ser. | ||
| + | * A tarefa positiva consiste em identificar a presença (Dasein) como ente exemplar no qual a questão pode tornar-se explícita. | ||
| + | * A compreensão de por que a presença ocupa essa posição exige esclarecer previamente por que as ontologias tradicionais, | ||
| + | * A questão que daí emerge é compreender em que sentido a retomada heideggeriana da questão do ser deve ser denominada “fundamental”. | ||
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