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| estudos:romano:romano-2018-uma-arqueologia-da-autenticidade [16/01/2026 06:10] – mccastro | estudos:romano:romano-2018-uma-arqueologia-da-autenticidade [16/01/2026 14:40] (current) – external edit 127.0.0.1 |
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| === Uma outra história da filosofia === | === Uma outra história da filosofia === |
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| * A constatação de uma revolução nas mentalidades e modos de vida desde o final da Segunda Guerra Mundial, levando ao aparecimento de um novo tipo de relação consigo caracterizado pela aspiração a dar à sua vida uma forma que reflita as suas próprias particularidades individuais. | * A constatação de uma revolução nas mentalidades e modos de vida desde o final da Segunda Guerra Mundial, levando ao aparecimento de um novo tipo de relação consigo caracterizado pela aspiração a dar à sua vida uma forma que reflita as suas próprias particularidades individuais. |
| * A democratização desta aspiração, outrora apanágio de uma elite, que se tornou um fenômeno de massa a partir do final dos anos 1960. | * A democratização desta aspiração, outrora apanágio de uma elite, que se tornou um fenômeno de massa a partir do final dos anos 1960. |
| * A designação desta aspiração como "autenticidade pessoal", conjugando a ideia de verdade para consigo mesmo com as de realização pessoal e expressão de si na sua vida. | * A designação desta aspiração como "autenticidade pessoal", conjugando a ideia de verdade para consigo mesmo com as de realização pessoal e expressão de si na sua vida. |
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| * A delimitação do objeto de estudo: uma investigação sobre as raízes filosóficas, religiosas e estéticas da autenticidade pessoal, para além das abordagens sociológicas. | * A delimitação do objeto de estudo: uma investigação sobre as raízes filosóficas, religiosas e estéticas da autenticidade pessoal, para além das abordagens sociológicas. |
| * O *terminus ad quem* conhecido: Rousseau como o primeiro a formular explicitamente o ideal de autenticidade pessoal. | * O //terminus ad quem// conhecido: Rousseau como o primeiro a formular explicitamente o ideal de autenticidade pessoal. |
| * O aprofundamento desta ideia do Romantismo ao Existencialismo, associado a nomes como Kierkegaard, Jaspers, Heidegger ou Sartre. | * O aprofundamento desta ideia do Romantismo ao Existencialismo, associado a nomes como Kierkegaard, Jaspers, Heidegger ou Sartre. |
| * A dificuldade em identificar as fontes históricas destas concepções e a carência de estudos abrangentes sobre a questão. | * A dificuldade em identificar as fontes históricas destas concepções e a carência de estudos abrangentes sobre a questão. |
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| * A análise do relativo descrédito dos "existencialismos" e das críticas ao ideal de autenticidade, nomeadamente a de Michel Foucault. | * A análise do relativo descrédito dos "existencialismos" e das críticas ao ideal de autenticidade, nomeadamente a de Michel Foucault. |
| * A crítica de Foucault que interpreta a busca de autenticidade como um prolongamento das técnicas de confissão e de averiguação cristãs, vistas como sujeitadoras e alienantes. | * A crítica de Foucault que interpreta a busca de autenticidade como um prolongamento das técnicas de confissão e de averiguação cristãs, vistas como sujeitadoras e alienantes. |
| * A refutação desta desqualificação: a ideia de que a aspiração a exprimir os seus verdadeiros desejos é sintoma de uma técnica de controlo é considerada absurda, pois pressupõe o que pretende controlar. | * A refutação desta desqualificação: a ideia de que a aspiração a exprimir os seus verdadeiros desejos é sintoma de uma técnica de controlo é considerada absurda, pois pressupõe o que pretende controlar. |
| * A ambiguidade da posição de Foucault, cuja "estética da existência" parece derivar do ideal que fulmina. | * A ambiguidade da posição de Foucault, cuja "estética da existência" parece derivar do ideal que fulmina. |
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| * O reconhecimento de um renovado interesse pelo tema, graças a trabalhos como os de Lionel Trilling, Charles Taylor, Stanley Cavell, Charles Larmore e Bernard Williams. | * O reconhecimento de um renovado interesse pelo tema, graças a trabalhos como os de Lionel Trilling, Charles Taylor, Stanley Cavell, Charles Larmore e Bernard Williams. |
| * A contribuição de Taylor para reabilitar a autenticidade pessoal como um ideal legítimo e incontornável das sociedades democráticas contemporâneas. | * A contribuição de Taylor para reabilitar a autenticidade pessoal como um ideal legítimo e incontornável das sociedades democráticas contemporâneas. |
| * A afirmação de Bernard Williams: "Se há um tema que percorre todo o meu trabalho, é o da autenticidade e da expressão de si". | * A afirmação de Bernard Williams: "Se há um tema que percorre todo o meu trabalho, é o da autenticidade e da expressão de si". |
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| * A constatação das limitações destes trabalhos, que tendem a considerar o ideal de autenticidade como algo relativamente simples e homogêneo, sem explorar a sua complexidade interna e ramificações históricas. | * A constatação das limitações destes trabalhos, que tendem a considerar o ideal de autenticidade como algo relativamente simples e homogêneo, sem explorar a sua complexidade interna e ramificações históricas. |
| * A ausência de um estudo de conjunto que situe esta ideia numa longa duração, no cruzamento da história da filosofia, da espiritualidade cristã, da retórica ou da filosofia da arte. | * A ausência de um estudo de conjunto que situe esta ideia numa longa duração, no cruzamento da história da filosofia, da espiritualidade cristã, da retórica ou da filosofia da arte. |
| * A antiguidade da ideia de levar uma vida de verdade, que remonta à própria filosofia, ilustrada pelo mito de Hércules na *República* de Platão e pela exortação socrática ao cuidado da alma e da verdade. | * A antiguidade da ideia de levar uma vida de verdade, que remonta à própria filosofia, ilustrada pelo mito de Hércules na //República// de Platão e pela exortação socrática ao cuidado da alma e da verdade. |
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| * A análise da evolução semântica das principais línguas europeias, demonstrando que a ideia de verdade "pessoal" precede a noção lógica e semântica de verdade. | * A análise da evolução semântica das principais línguas europeias, demonstrando que a ideia de verdade "pessoal" precede a noção lógica e semântica de verdade. |
| * Em grego, *aletheia* remete tanto à verdade como ao hábito de dizer a verdade, à franqueza. | * Em grego, //aletheia// remete tanto à verdade como ao hábito de dizer a verdade, à franqueza. |
| * Em latim, *verus* ("verdadeiro" e "verídico") provém da raiz indo-europeia que significa "amigo, digno de fé, verdadeiro". | * Em latim, //verus// ("verdadeiro" e "verídico") provém da raiz indo-europeia que significa "amigo, digno de fé, verdadeiro". |
| * Em inglês, *true* deriva de palavras que significam "fidedigno, leal, honesto, firme nas suas promessas". | * Em inglês, //true// deriva de palavras que significam "fidedigno, leal, honesto, firme nas suas promessas". |
| * A conclusão: "A verdade é o lugar onde um ser coincide consigo mesmo, onde se declara no exterior tal como é no interior, antes mesmo de remeter para a adequação do pensamento com a realidade". | * A conclusão: "A verdade é o lugar onde um ser coincide consigo mesmo, onde se declara no exterior tal como é no interior, antes mesmo de remeter para a adequação do pensamento com a realidade". |
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| * A distinção conceptual fundamental entre autenticidade e sinceridade. | * A distinção conceptual fundamental entre autenticidade e sinceridade. |
| * A autenticidade como uma sinceridade ou veracidade para consigo mesmo, e não para com os outros. | * A autenticidade como uma sinceridade ou veracidade para consigo mesmo, e não para com os outros. |
| * A sinceridade como dizer o que se pensa; a autenticidade como *ser* o que se é. | * A sinceridade como dizer o que se pensa; a autenticidade como //ser// o que se é. |
| * A ligação indissociável da autenticidade com a ideia de realização de si, de florescimento das suas próprias virtualidades. | * A ligação indissociável da autenticidade com a ideia de realização de si, de florescimento das suas próprias virtualidades. |
| * A citação de Goethe: "*Mache dir selber Bahn*" ("Abre tu próprio o teu caminho") e de D.H. Lawrence: "Find your deepest impulsion, and follow that". | * A citação de Goethe: "//Mache dir selber Bahn//" ("Abre tu próprio o teu caminho") e de D.H. Lawrence: "Find your deepest impulsion, and follow that". |
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| * A explicitação dos pressupostos do ideal de autenticidade: o individualismo e a dignidade do indivíduo singular. | * A explicitação dos pressupostos do ideal de autenticidade: o individualismo e a dignidade do indivíduo singular. |
| * A citação de Charles Taylor: "Existe uma certa maneira de ser humano que é a *minha*. Devo viver a minha vida dessa maneira e não imitar a dos outros." | * A citação de Charles Taylor: "Existe uma certa maneira de ser humano que é a //minha//. Devo viver a minha vida dessa maneira e não imitar a dos outros." |
| * A citação de Emerson: "Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, exceto a da minha natureza." | * A citação de Emerson: "Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, exceto a da minha natureza." |
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| * A natureza mais exigente da autenticidade face à sinceridade clássica, e o problema do discernimento do que nos é próprio. | * A natureza mais exigente da autenticidade face à sinceridade clássica, e o problema do discernimento do que nos é próprio. |
| * A possibilidade de a sinceridade coexistir com ilusões sobre si mesmo, o que não é o caso da autenticidade. | * A possibilidade de a sinceridade coexistir com ilusões sobre si mesmo, o que não é o caso da autenticidade. |
| * A questão de saber como é possível tal discernimento, ou se se trata antes de uma decisão pela qual o indivíduo se forma a si mesmo, "se escolhe a si mesmo". | * A questão de saber como é possível tal discernimento, ou se se trata antes de uma decisão pela qual o indivíduo se forma a si mesmo, "se escolhe a si mesmo". |
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| * O potencial conflito entre a autenticidade e outras exigências éticas, como a integridade e a justiça. | * O potencial conflito entre a autenticidade e outras exigências éticas, como a integridade e a justiça. |
| * A possibilidade de uma autenticidade no mal, ilustrada pela figura de Vautrin, que assume lucidamente as suas torpezas. | * A possibilidade de uma autenticidade no mal, ilustrada pela figura de Vautrin, que assume lucidamente as suas torpezas. |
| * A consequência: o "dever" de autenticidade não pode ser erigido numa exigência incondicional, num absoluto ético. | * A consequência: o "dever" de autenticidade não pode ser erigido numa exigência incondicional, num absoluto ético. |
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| * A análise etimológica e conceptual do termo "autenticidade" e a sua ligação necessária com a verdade e a existência pessoal. | * A análise etimológica e conceptual do termo "autenticidade" e a sua ligação necessária com a verdade e a existência pessoal. |
| * A etimologia grega de *authentês*: "aquele que age por si mesmo", "que tem plena autoridade sobre". | * A etimologia grega de //authentês//: "aquele que age por si mesmo", "que tem plena autoridade sobre". |
| * O vínculo necessário entre verdade pessoal e existência em pessoa: "Só aquele que existe perante os outros numa forma de verdade sobre si é também ele mesmo, ou está chamado a sê-lo". | * O vínculo necessário entre verdade pessoal e existência em pessoa: "Só aquele que existe perante os outros numa forma de verdade sobre si é também ele mesmo, ou está chamado a sê-lo". |
| * A análise de Bernard Williams: a sinceridade desempenha um papel essencial não apenas na comunicação, mas na própria formação e estabilização das nossas crenças e desejos, conferindo-nos uma identidade estável. | * A análise de Bernard Williams: a sinceridade desempenha um papel essencial não apenas na comunicação, mas na própria formação e estabilização das nossas crenças e desejos, conferindo-nos uma identidade estável. |
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| * A refutação das críticas pós-estruturalistas e desconstrutivistas que proclamam a "morte da verdade" e a indiscernibilidade do próprio e do impróprio. | * A refutação das críticas pós-estruturalistas e desconstrutivistas que proclamam a "morte da verdade" e a indiscernibilidade do próprio e do impróprio. |
| * A identificação destas posições como uma retórica de desvalorização sistemática, herdeira da estratégia sofística. | * A identificação destas posições como uma retórica de desvalorização sistemática, herdeira da estratégia sofística. |
| * A incoerência fundamental destas posições, que desacreditam o verdadeiro enquanto perseguem por toda a parte a impostura. | * A incoerência fundamental destas posições, que desacreditam o verdadeiro enquanto perseguem por toda a parte a impostura. |
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| * A consideração das críticas substantivas ao ideal de autenticidade, que apontam para as suas consequências sociais negativas. | * A consideração das críticas substantivas ao ideal de autenticidade, que apontam para as suas consequências sociais negativas. |
| * A associação do imperativo de autenticidade a uma "cultura do narcisismo", à erosão dos laços sociais, ao individualismo, ao hedonismo e a um "estilo de desespero" ligado à "fadiga de ser si mesmo" (Alain Ehrenberg). | * A associação do imperativo de autenticidade a uma "cultura do narcisismo", à erosão dos laços sociais, ao individualismo, ao hedonismo e a um "estilo de desespero" ligado à "fadiga de ser si mesmo" (Alain Ehrenberg). |
| * O aviso de Axel Honneth: o ideal de autorrealização foi instrumentalizado e padronizado a ponto de se inverter num sistema de exigências desumanizado. | * O aviso de Axel Honneth: o ideal de autorrealização foi instrumentalizado e padronizado a ponto de se inverter num sistema de exigências desumanizado. |
| * O risco de a autenticidade pessoal se ter tornado um logro, uma técnica de controlo ao serviço do "novo espírito do capitalismo". | * O risco de a autenticidade pessoal se ter tornado um logro, uma técnica de controlo ao serviço do "novo espírito do capitalismo". |
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| * A defesa da validade e do sentido do ideal de autenticidade, para lá das suas formas degradadas e mutiladas. | * A defesa da validade e do sentido do ideal de autenticidade, para lá das suas formas degradadas e mutiladas. |
| * A rejeição da redução da autenticidade ao narcisismo ou ao hedonismo. | * A rejeição da redução da autenticidade ao narcisismo ou ao hedonismo. |
| * A afirmação de que fazer a verdade sobre si é uma empresa difícil, que exige coragem e perseverança, e pode conduzir ao sacrifício. | * A afirmação de que fazer a verdade sobre si é uma empresa difícil, que exige coragem e perseverança, e pode conduzir ao sacrifício. |
| * A distinção entre o ideal de autenticidade e as manifestações mais superficiais do individualismo contemporâneo. | * A distinção entre o ideal de autenticidade e as manifestações mais superficiais do individualismo contemporâneo. |
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| * A definição da metodologia do presente trabalho como uma "arqueologia" da autenticidade, num sentido inspirado por Foucault mas distinto. | * A definição da metodologia do presente trabalho como uma "arqueologia" da autenticidade, num sentido inspirado por Foucault mas distinto. |
| * A arqueologia como tentativa de desenterrar possibilidades de pensamento soterradas, que continuam a subdeterminar as concepções que as suplantaram. | * A arqueologia como tentativa de desenterrar possibilidades de pensamento soterradas, que continuam a subdeterminar as concepções que as suplantaram. |
| * O objetivo de exumar estruturas de longa duração, subjacentes ao desdobramento de um problema filosófico, cruzando diferentes tipos de discurso. | * O objetivo de exumar estruturas de longa duração, subjacentes ao desdobramento de um problema filosófico, cruzando diferentes tipos de discurso. |
| * A distinção entre uma "arqueologia centrada no arquivo" e uma "arqueologia praticando o 'questionamento em regressão' no sentido de Husserl". | * A distinção entre uma "arqueologia centrada no arquivo" e uma "arqueologia praticando o 'questionamento em regressão' no sentido de Husserl". |
| * A convicção final: "a única razão válida para praticar esta disciplina é libertar possibilidades de pensamento recobertas e suscetíveis de contribuir para a reformulação de problemas filosoficamente mal encaminhados ou conduzindo a impasses". | * A convicção final: "a única razão válida para praticar esta disciplina é libertar possibilidades de pensamento recobertas e suscetíveis de contribuir para a reformulação de problemas filosoficamente mal encaminhados ou conduzindo a impasses". |
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