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estudos:romano:romano-2018-uma-arqueologia-da-autenticidade

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 === Uma outra história da filosofia === === Uma outra história da filosofia ===
  
-    A constatação de uma revolução nas mentalidades e modos de vida desde o final da Segunda Guerra Mundial, levando ao aparecimento de um novo tipo de relação consigo caracterizado pela aspiração a dar à sua vida uma forma que reflita as suas próprias particularidades individuais. +    * A constatação de uma revolução nas mentalidades e modos de vida desde o final da Segunda Guerra Mundial, levando ao aparecimento de um novo tipo de relação consigo caracterizado pela aspiração a dar à sua vida uma forma que reflita as suas próprias particularidades individuais. 
-      A democratização desta aspiração, outrora apanágio de uma elite, que se tornou um fenômeno de massa a partir do final dos anos 1960. +      * A democratização desta aspiração, outrora apanágio de uma elite, que se tornou um fenômeno de massa a partir do final dos anos 1960. 
-      A designação desta aspiração como "autenticidade pessoal", conjugando a ideia de verdade para consigo mesmo com as de realização pessoal e expressão de si na sua vida.+      * A designação desta aspiração como "autenticidade pessoal", conjugando a ideia de verdade para consigo mesmo com as de realização pessoal e expressão de si na sua vida.
  
-    A delimitação do objeto de estudo: uma investigação sobre as raízes filosóficas, religiosas e estéticas da autenticidade pessoal, para além das abordagens sociológicas. +    * A delimitação do objeto de estudo: uma investigação sobre as raízes filosóficas, religiosas e estéticas da autenticidade pessoal, para além das abordagens sociológicas. 
-      *terminus ad quemconhecido: Rousseau como o primeiro a formular explicitamente o ideal de autenticidade pessoal. +      * O //terminus ad quem// conhecido: Rousseau como o primeiro a formular explicitamente o ideal de autenticidade pessoal. 
-      O aprofundamento desta ideia do Romantismo ao Existencialismo, associado a nomes como Kierkegaard, Jaspers, Heidegger ou Sartre. +      * O aprofundamento desta ideia do Romantismo ao Existencialismo, associado a nomes como Kierkegaard, Jaspers, Heidegger ou Sartre. 
-      A dificuldade em identificar as fontes históricas destas concepções e a carência de estudos abrangentes sobre a questão.+      * A dificuldade em identificar as fontes históricas destas concepções e a carência de estudos abrangentes sobre a questão.
  
-    A análise do relativo descrédito dos "existencialismos" e das críticas ao ideal de autenticidade, nomeadamente a de Michel Foucault. +    * A análise do relativo descrédito dos "existencialismos" e das críticas ao ideal de autenticidade, nomeadamente a de Michel Foucault. 
-      A crítica de Foucault que interpreta a busca de autenticidade como um prolongamento das técnicas de confissão e de averiguação cristãs, vistas como sujeitadoras e alienantes. +      * A crítica de Foucault que interpreta a busca de autenticidade como um prolongamento das técnicas de confissão e de averiguação cristãs, vistas como sujeitadoras e alienantes. 
-      A refutação desta desqualificação: a ideia de que a aspiração a exprimir os seus verdadeiros desejos é sintoma de uma técnica de controlo é considerada absurda, pois pressupõe o que pretende controlar. +      * A refutação desta desqualificação: a ideia de que a aspiração a exprimir os seus verdadeiros desejos é sintoma de uma técnica de controlo é considerada absurda, pois pressupõe o que pretende controlar. 
-      A ambiguidade da posição de Foucault, cuja "estética da existência" parece derivar do ideal que fulmina.+      * A ambiguidade da posição de Foucault, cuja "estética da existência" parece derivar do ideal que fulmina.
  
-    O reconhecimento de um renovado interesse pelo tema, graças a trabalhos como os de Lionel Trilling, Charles Taylor, Stanley Cavell, Charles Larmore e Bernard Williams. +    * O reconhecimento de um renovado interesse pelo tema, graças a trabalhos como os de Lionel Trilling, Charles Taylor, Stanley Cavell, Charles Larmore e Bernard Williams. 
-      A contribuição de Taylor para reabilitar a autenticidade pessoal como um ideal legítimo e incontornável das sociedades democráticas contemporâneas. +      * A contribuição de Taylor para reabilitar a autenticidade pessoal como um ideal legítimo e incontornável das sociedades democráticas contemporâneas. 
-      A afirmação de Bernard Williams: "Se há um tema que percorre todo o meu trabalho, é o da autenticidade e da expressão de si".+      * A afirmação de Bernard Williams: "Se há um tema que percorre todo o meu trabalho, é o da autenticidade e da expressão de si".
  
-    A constatação das limitações destes trabalhos, que tendem a considerar o ideal de autenticidade como algo relativamente simples e homogêneo, sem explorar a sua complexidade interna e ramificações históricas. +    * A constatação das limitações destes trabalhos, que tendem a considerar o ideal de autenticidade como algo relativamente simples e homogêneo, sem explorar a sua complexidade interna e ramificações históricas. 
-      A ausência de um estudo de conjunto que situe esta ideia numa longa duração, no cruzamento da história da filosofia, da espiritualidade cristã, da retórica ou da filosofia da arte. +      * A ausência de um estudo de conjunto que situe esta ideia numa longa duração, no cruzamento da história da filosofia, da espiritualidade cristã, da retórica ou da filosofia da arte. 
-      A antiguidade da ideia de levar uma vida de verdade, que remonta à própria filosofia, ilustrada pelo mito de Hércules na *Repúblicade Platão e pela exortação socrática ao cuidado da alma e da verdade.+      * A antiguidade da ideia de levar uma vida de verdade, que remonta à própria filosofia, ilustrada pelo mito de Hércules na //República// de Platão e pela exortação socrática ao cuidado da alma e da verdade.
  
-    A análise da evolução semântica das principais línguas europeias, demonstrando que a ideia de verdade "pessoal" precede a noção lógica e semântica de verdade. +    * A análise da evolução semântica das principais línguas europeias, demonstrando que a ideia de verdade "pessoal" precede a noção lógica e semântica de verdade. 
-      Em grego, *aletheiaremete tanto à verdade como ao hábito de dizer a verdade, à franqueza. +      * Em grego, //aletheia// remete tanto à verdade como ao hábito de dizer a verdade, à franqueza. 
-      Em latim, *verus("verdadeiro" e "verídico") provém da raiz indo-europeia que significa "amigo, digno de fé, verdadeiro"+      * Em latim, //verus// ("verdadeiro" e "verídico") provém da raiz indo-europeia que significa "amigo, digno de fé, verdadeiro"
-      Em inglês, *truederiva de palavras que significam "fidedigno, leal, honesto, firme nas suas promessas"+      * Em inglês, //true// deriva de palavras que significam "fidedigno, leal, honesto, firme nas suas promessas"
-      A conclusão: "A verdade é o lugar onde um ser coincide consigo mesmo, onde se declara no exterior tal como é no interior, antes mesmo de remeter para a adequação do pensamento com a realidade".+      * A conclusão: "A verdade é o lugar onde um ser coincide consigo mesmo, onde se declara no exterior tal como é no interior, antes mesmo de remeter para a adequação do pensamento com a realidade".
  
-    A distinção conceptual fundamental entre autenticidade e sinceridade. +    * A distinção conceptual fundamental entre autenticidade e sinceridade. 
-      A autenticidade como uma sinceridade ou veracidade para consigo mesmo, e não para com os outros. +      * A autenticidade como uma sinceridade ou veracidade para consigo mesmo, e não para com os outros. 
-      A sinceridade como dizer o que se pensa; a autenticidade como *sero que se é. +      * A sinceridade como dizer o que se pensa; a autenticidade como //ser// o que se é. 
-      A ligação indissociável da autenticidade com a ideia de realização de si, de florescimento das suas próprias virtualidades. +      * A ligação indissociável da autenticidade com a ideia de realização de si, de florescimento das suas próprias virtualidades. 
-      A citação de Goethe: "*Mache dir selber Bahn*" ("Abre tu próprio o teu caminho") e de D.H. Lawrence: "Find your deepest impulsion, and follow that".+      * A citação de Goethe: "//Mache dir selber Bahn//" ("Abre tu próprio o teu caminho") e de D.H. Lawrence: "Find your deepest impulsion, and follow that".
  
-    A explicitação dos pressupostos do ideal de autenticidade: o individualismo e a dignidade do indivíduo singular. +    * A explicitação dos pressupostos do ideal de autenticidade: o individualismo e a dignidade do indivíduo singular. 
-      A citação de Charles Taylor: "Existe uma certa maneira de ser humano que é a *minha*. Devo viver a minha vida dessa maneira e não imitar a dos outros." +      * A citação de Charles Taylor: "Existe uma certa maneira de ser humano que é a //minha//. Devo viver a minha vida dessa maneira e não imitar a dos outros." 
-      A citação de Emerson: "Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, exceto a da minha natureza."+      * A citação de Emerson: "Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, exceto a da minha natureza."
  
-    A natureza mais exigente da autenticidade face à sinceridade clássica, e o problema do discernimento do que nos é próprio. +    * A natureza mais exigente da autenticidade face à sinceridade clássica, e o problema do discernimento do que nos é próprio. 
-      A possibilidade de a sinceridade coexistir com ilusões sobre si mesmo, o que não é o caso da autenticidade. +      * A possibilidade de a sinceridade coexistir com ilusões sobre si mesmo, o que não é o caso da autenticidade. 
-      A questão de saber como é possível tal discernimento, ou se se trata antes de uma decisão pela qual o indivíduo se forma a si mesmo, "se escolhe a si mesmo".+      * A questão de saber como é possível tal discernimento, ou se se trata antes de uma decisão pela qual o indivíduo se forma a si mesmo, "se escolhe a si mesmo".
  
-    O potencial conflito entre a autenticidade e outras exigências éticas, como a integridade e a justiça. +    * O potencial conflito entre a autenticidade e outras exigências éticas, como a integridade e a justiça. 
-      A possibilidade de uma autenticidade no mal, ilustrada pela figura de Vautrin, que assume lucidamente as suas torpezas. +      * A possibilidade de uma autenticidade no mal, ilustrada pela figura de Vautrin, que assume lucidamente as suas torpezas. 
-      A consequência: o "dever" de autenticidade não pode ser erigido numa exigência incondicional, num absoluto ético.+      * A consequência: o "dever" de autenticidade não pode ser erigido numa exigência incondicional, num absoluto ético.
  
-    A análise etimológica e conceptual do termo "autenticidade" e a sua ligação necessária com a verdade e a existência pessoal. +    * A análise etimológica e conceptual do termo "autenticidade" e a sua ligação necessária com a verdade e a existência pessoal. 
-      A etimologia grega de *authentês*: "aquele que age por si mesmo", "que tem plena autoridade sobre"+      * A etimologia grega de //authentês//: "aquele que age por si mesmo", "que tem plena autoridade sobre"
-      O vínculo necessário entre verdade pessoal e existência em pessoa: "Só aquele que existe perante os outros numa forma de verdade sobre si é também ele mesmo, ou está chamado a sê-lo"+      * O vínculo necessário entre verdade pessoal e existência em pessoa: "Só aquele que existe perante os outros numa forma de verdade sobre si é também ele mesmo, ou está chamado a sê-lo"
-      A análise de Bernard Williams: a sinceridade desempenha um papel essencial não apenas na comunicação, mas na própria formação e estabilização das nossas crenças e desejos, conferindo-nos uma identidade estável.+      * A análise de Bernard Williams: a sinceridade desempenha um papel essencial não apenas na comunicação, mas na própria formação e estabilização das nossas crenças e desejos, conferindo-nos uma identidade estável.
  
-    A refutação das críticas pós-estruturalistas e desconstrutivistas que proclamam a "morte da verdade" e a indiscernibilidade do próprio e do impróprio. +    * A refutação das críticas pós-estruturalistas e desconstrutivistas que proclamam a "morte da verdade" e a indiscernibilidade do próprio e do impróprio. 
-      A identificação destas posições como uma retórica de desvalorização sistemática, herdeira da estratégia sofística. +      * A identificação destas posições como uma retórica de desvalorização sistemática, herdeira da estratégia sofística. 
-      A incoerência fundamental destas posições, que desacreditam o verdadeiro enquanto perseguem por toda a parte a impostura.+      * A incoerência fundamental destas posições, que desacreditam o verdadeiro enquanto perseguem por toda a parte a impostura.
  
-    A consideração das críticas substantivas ao ideal de autenticidade, que apontam para as suas consequências sociais negativas. +    * A consideração das críticas substantivas ao ideal de autenticidade, que apontam para as suas consequências sociais negativas. 
-      A associação do imperativo de autenticidade a uma "cultura do narcisismo", à erosão dos laços sociais, ao individualismo, ao hedonismo e a um "estilo de desespero" ligado à "fadiga de ser si mesmo" (Alain Ehrenberg). +      * A associação do imperativo de autenticidade a uma "cultura do narcisismo", à erosão dos laços sociais, ao individualismo, ao hedonismo e a um "estilo de desespero" ligado à "fadiga de ser si mesmo" (Alain Ehrenberg). 
-      O aviso de Axel Honneth: o ideal de autorrealização foi instrumentalizado e padronizado a ponto de se inverter num sistema de exigências desumanizado. +      * O aviso de Axel Honneth: o ideal de autorrealização foi instrumentalizado e padronizado a ponto de se inverter num sistema de exigências desumanizado. 
-      O risco de a autenticidade pessoal se ter tornado um logro, uma técnica de controlo ao serviço do "novo espírito do capitalismo".+      * O risco de a autenticidade pessoal se ter tornado um logro, uma técnica de controlo ao serviço do "novo espírito do capitalismo".
  
-    A defesa da validade e do sentido do ideal de autenticidade, para lá das suas formas degradadas e mutiladas. +    * A defesa da validade e do sentido do ideal de autenticidade, para lá das suas formas degradadas e mutiladas. 
-      A rejeição da redução da autenticidade ao narcisismo ou ao hedonismo. +      * A rejeição da redução da autenticidade ao narcisismo ou ao hedonismo. 
-      A afirmação de que fazer a verdade sobre si é uma empresa difícil, que exige coragem e perseverança, e pode conduzir ao sacrifício. +      * A afirmação de que fazer a verdade sobre si é uma empresa difícil, que exige coragem e perseverança, e pode conduzir ao sacrifício. 
-      A distinção entre o ideal de autenticidade e as manifestações mais superficiais do individualismo contemporâneo.+      * A distinção entre o ideal de autenticidade e as manifestações mais superficiais do individualismo contemporâneo.
  
-    A definição da metodologia do presente trabalho como uma "arqueologia" da autenticidade, num sentido inspirado por Foucault mas distinto. +    * A definição da metodologia do presente trabalho como uma "arqueologia" da autenticidade, num sentido inspirado por Foucault mas distinto. 
-      A arqueologia como tentativa de desenterrar possibilidades de pensamento soterradas, que continuam a subdeterminar as concepções que as suplantaram. +      * A arqueologia como tentativa de desenterrar possibilidades de pensamento soterradas, que continuam a subdeterminar as concepções que as suplantaram. 
-      O objetivo de exumar estruturas de longa duração, subjacentes ao desdobramento de um problema filosófico, cruzando diferentes tipos de discurso. +      * O objetivo de exumar estruturas de longa duração, subjacentes ao desdobramento de um problema filosófico, cruzando diferentes tipos de discurso. 
-      A distinção entre uma "arqueologia centrada no arquivo" e uma "arqueologia praticando o 'questionamento em regressão' no sentido de Husserl"+      * A distinção entre uma "arqueologia centrada no arquivo" e uma "arqueologia praticando o 'questionamento em regressão' no sentido de Husserl"
-      A convicção final: "a única razão válida para praticar esta disciplina é libertar possibilidades de pensamento recobertas e suscetíveis de contribuir para a reformulação de problemas filosoficamente mal encaminhados ou conduzindo a impasses".+      * A convicção final: "a única razão válida para praticar esta disciplina é libertar possibilidades de pensamento recobertas e suscetíveis de contribuir para a reformulação de problemas filosoficamente mal encaminhados ou conduzindo a impasses".
  
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