| (...) De fato, parece que este sentido normativo e axiológico do "si mesmo", que subjaz à ideia de existência "à altura de si mesmo", ou de existência de acordo com o seu verdadeiro ser, não é de todo estranho aos textos mais antigos da nossa cultura filosófica e que foi mesmo elaborado por Heidegger, pelo menos em parte, para permitir que o motivo socrático da preocupação consigo mesmo fosse reformulado no quadro da sua ontologia fundamental. Quando Sócrates, por exemplo, afirma no Alcibíades que procura "o que é o próprio 'eu' (auto to auto)", e quando responde que, para cada um de nós, esse "eu" é a parte mestra dentro de nós, de modo que "o homem é a alma (ton anthropon he psychen) ", de modo algum pretende, com esta expressão "o eu", referir-se a um núcleo identitário infrangível que asseguraria a nossa permanência no tempo, algo como um "self", mas sim identificar o "lugar" onde cada um de nós (cada ser humano) existe na plenitude da sua essência. Como refere Jean-Pierre Vernant, no pensamento grego, "a psyche é uma entidade impessoal ou suprapessoal em cada um de nós. É a alma em mim e não a minha alma". Do mesmo modo, quando Aristóteles, na Ética a Nicômaco, formula a pergunta retórica: "Não é isto uma admissão de que o intelecto (noûs) somos nós mesmos?", o seu objetivo não é localizar um "eu", mas sublinhar que só somos plenamente nós mesmos e existimos de acordo com a nossa própria natureza (como seres humanos) quando existimos sob a orientação do nosso noûs. | (...) De fato, parece que este sentido normativo e axiológico do "si mesmo", que subjaz à ideia de existência "à altura de si mesmo", ou de existência de acordo com o seu verdadeiro ser, não é de todo estranho aos textos mais antigos da nossa cultura filosófica e que foi mesmo elaborado por Heidegger, pelo menos em parte, para permitir que o motivo socrático da preocupação consigo mesmo fosse reformulado no quadro da sua ontologia fundamental. Quando Sócrates, por exemplo, afirma no Alcibíades que procura "o que é o próprio 'eu' (auto to auto)", e quando responde que, para cada um de nós, esse "eu" é a parte mestra dentro de nós, de modo que "o homem é a alma (ton anthropon he psychen) ", de modo algum pretende, com esta expressão "o eu", referir-se a um núcleo identitário infrangível que asseguraria a nossa permanência no tempo, algo como um "self", mas sim identificar o "lugar" onde cada um de nós (cada ser humano) existe na plenitude da sua essência. Como refere Jean-Pierre Vernant, no pensamento grego, "a psyche é uma entidade impessoal ou suprapessoal em cada um de nós. É a alma em mim e não a minha alma". Do mesmo modo, quando Aristóteles, na Ética a Nicômaco, formula a pergunta retórica: "Não é isto uma admissão de que o intelecto (noûs) somos nós mesmos?", o seu objetivo não é localizar um "eu", mas sublinhar que só somos plenamente nós mesmos e existimos de acordo com a nossa própria natureza (como seres humanos) quando existimos sob a orientação do nosso noûs. |