User Tools

Site Tools


estudos:romano:hermeneutica-do-acontecimento

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
Next revision
Previous revision
estudos:romano:hermeneutica-do-acontecimento [21/01/2026 05:31] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1estudos:romano:hermeneutica-do-acontecimento [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1
Line 1: Line 1:
 +====== A Fenomenalidade do Evento na Hermenêutica do Acontecimento ======
 +
 +//FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.//
 +
 +  * Projeto de Claude Romano parte da constatação de que ontologia e fenomenologia não souberam dar conta da maneira como eventos se mostram a partir de si mesmos, de sua fenomenalidade.
 +  * Crítica dirigida à fenomenologia de Husserl e, particularmente, de Heidegger visa oferecer nova descrição da fenomenalidade, viabilizando nova fenomenologia onde sentido próprio do evento possa ser apreendido.
 +  * "Hermenêutica do acontecimento" (hermeneutique événementiale) procura preencher lacuna deixada por contas filosóficas anteriores do evento, que não permitiram aos eventos se manifestarem a partir de si mesmos através da fenomenalidade que lhes é própria.
 +    * Neste novo domínio de fenomenalidade, não só concepção do evento, mas também a própria subjetividade encontra novo modo de se realizar.
 +  * Posicionamento de Romano diante de fenomenologia e hermenêutica não é de separação, mas de inter-relação fecunda, conforme articulado explicitamente: "Genuína hermenêutica é fenomenologia e fenomenologia só se realiza como hermenêutica".
 +    * Contra distinção rígida entre métodos, Romano reconcilia descrição de fenômenos com compreensão.
 +  * Método fenomenológico em Romano envolve pressuposto fundamental de que "boa descrição não só substitui compreensão, mas é essa própria compreensão".
 +    * Descrever fenômeno a partir de si mesmo equivale a compreendê-lo.
 +  * Engajar-se em hermenêutica do acontecimento como método de fenomenologia significa descrever eventos compreendendo-os.
 +    * Com esta abordagem, torna-se possível tomar aparecer – ou, na terminologia do acontecimento, "montrance" (Erscheinung) – como exibição do evento como "fonte de todo sentido".
 +    * Fenomenalidade possui estrutura hermenêutica na hermenêutica do acontecimento.
 +  * Compreensão é característica fundamental do ser humano, denominado por Romano "adveniente" (advenant).
 +    * Há "sentido apenas para compreensão. Compreender e interpretar são comportamentos de um adveniente".
 +    * Como fenômenos, eventos exigem interpretação para serem compreendidos, bem como o próprio adveniente.
 +  * Capítulo aborda relação de Romano com Heidegger, cujo pensamento informa profundamente sua metodologia hermenêutica do acontecimento.
 +    * Romano distancia sua concepção de evento da noção heideggeriana de Ereignis.
 +      * Recepção de Heidegger por Romano – seu "reescrever de Ser e Tempo" – não implica mera replicação da ontologia fundamental.
 +      * Projeto do acontecimento encontra abordagem crítica e sofisticada para o evento.
 +  * Para Romano, mundo possui estrutura hermenêutica para advento e evento.
 +    * Significado do evento é elucidado no horizonte do mundo, mas para falar sobre significado de evento, primeiramente é preciso compreender "compreensão".
 +    * Significado é definido em termos da relação entre compreensão e mundo, onde estrutura hermenêutica do mundo determina abertura do adveniente a eventos, e possibilidades interpretativas de projeções pertencem ao significado no mundo.
 +  * Romano adota estrutura hermenêutica da ontologia fundamental de Heidegger, mas atribui papel central ao conceito de evento.
 +    * Prioridade de Dasein na analítica existencial é substituída pela prioridade do evento.
 +      * Evento mesmo é "fonte do sentido".
 +      * "Eventos antes de tudo" é o mote da hermenêutica do acontecimento.
 +  * Mesmo se "ser humano" não é central para projeto de Romano, o termo evento só é apropriado se o que acontece acontece ao adveniente.
 +    * Romano declara que "uma hermenêutica fenomenológica do adveniente é o objetivo deste livro".
 +  * Hermenêutica pode ser definida em seu sentido mais básico como trabalho de interpretação (Geschäft der Auslegung).
 +    * Heidegger atribui à hermenêutica papel existencial porque toma compreensão como modo existencial de Dasein.
 +      * Originalidade da revolução heideggeriana na hermenêutica está em sua ontologização da compreensão.
 +  * Para Romano, compreensão também possui papel primordial, fornecendo "a relação mais fundamental entre um adveniente e o mundo".
 +    * No entanto, função da compreensão difere significativamente dependendo de sua fonte de sentido.
 +      * Em projeto de Romano, fonte do sentido não é projeção interpretativa de possibilidades por Dasein, mas o evento.
 +  * Contraste entre Dasein e adveniente é marcante quanto à origem do sentido.
 +    * Compreensão do adveniente é sempre marcada por uma ex-centricidade: é sempre compreensão de outra coisa – eventos – através dos quais podemos compreender quem somos.
 +    * Possibilidades interpretativas não estão em nossa posse; são concedidas a nós, em excesso de qualquer projeção, pelos próprios eventos.
 +  * Dasein e adveniente se autocompreendem em termos de possibilidades dentro de uma estrutura hermenêutica, mas Romano se afasta de Heidegger quanto à origem das possibilidades do si-mesmo.
 +    * Adveniente se compreende não a partir de suas próprias possibilidades, mas das possibilidades abertas por eventos.
 +  * Outro elemento importante de Heidegger que concerne ao projeto de Romano é temporalidade e sua relação com história da metafísica.
 +    * Metafísica do tempo é definida por Romano como tendência da filosofia ocidental, de Aristóteles em diante, de reduzir tempo a fenômeno interior-temporal.
 +  * Metafísica do tempo descrita por Romano também inclui em seu escopo a ontologia fundamental de Heidegger.
 +    * Para Romano, compreensão heideggeriana da história da metafísica como problema de temporalidade é limitada em sua abordagem.
 +    * Temporaralidade de Dasein permanece tentativa de conceber tempo dentro da órbita de uma ontologia radical do sujeito.
 +  * Para compreender tempo de modo diferente da metafísica do tempo, seria necessário conceber tempo além do horizonte do sujeito – pensar tempo "hors-sujet".
 +  * Romano analisa também a noção heideggeriana de Ereignis em relação à fenomenalidade do evento.
 +    * Relação da fenomenologia heideggeriana com noção de evento é descrita como "complexa e ambivalente".
 +  * Primeiro aspecto: aprovação pela renovação da ontologia fundamental, que representa ruptura radical com ontologia ousiológica.
 +    * Heidegger oferece novo projeto de ontologia que visa prestar contas do Ser (Sein), não dos entes (Seiende), com auxílio da diferença ontológica.
 +      * Ser passa a ser pensado de modo verbal e transitivo-evenencial, com Dasein como conceito-guia.
 +  * Segundo aspecto: conta de Heidegger sobre eventos falha em engajar-se adequadamente com fenomenalidade do evento.
 +    * Fenomenalidade do evento é reduzida ao nível de fato intramundano cujo modo de ser é a presença objetiva (Vorhandenheit).
 +    * Dasein é definido ontologicamente sem qualquer relação com eventos.
 +      * Exemplo da morte é visto como evento a partir da compreensão inautêntica de Dasein.
 +  * Terceiro aspecto: engajamento de Heidegger com noção de Ereignis após Ser e Tempo.
 +    * Ereignis não significa acontecimento ou ocorrência cotidiana, mas recebe função mais fundamental como "evento da Apropriação".
 +    * Ereignis torna-se novo fundamento para pensar o Ser sem apelo à metafísica.
 +      * Prioridade relativa é dada a Ereignis em relação a Ser e tempo.
 +  * Em contraste, Romano afirma que, segundo sua concepção, nenhum evento pode estar fora da história; cada evento deve estar na história, onde pertence ao mundo.
 +  * Apropriação de Heidegger por Romano é crítica, mas sua hermenêutica do acontecimento pode ser vista como aproximação do pensamento heideggeriano na questão da estrutura hermenêutica da fenomenalidade.
 +    * Por um lado, segue estrutura hermenêutica de Ser e Tempo.
 +    * Por outro, critica prioridade de Dasein e sua configuração pela morte, propondo nova investigação filosófica sobre eventos.
 +  * Projeto de Romano coloca eventos antes de tudo e começa com evento mais primordial para ser humano: nascimento.
 +  * Novidade da hermenêutica do acontecimento de Romano deriva de sua renovação da fenomenalidade em termos de eventos.
 +    * Distinção entre duas fenomenalidades diferentes: fato e evento.
 +      * Romano propõe quatro características distintas dos eventos em relação aos fatos.
 +  * Características distintivas dos eventos:
 +    * Primeira característica: eventos não são dirigidos a todos em geral, mas possuem atribuição determinada e singular a um adveniente.
 +      * Acontecem de modo "insubstituível" e põem em jogo o si-mesmo do adveniente.
 +      * Limitação: hermenêutica do acontecimento considera apenas eventos pessoais do ser humano, levantando problema com eventos coletivos.
 +    * Segunda característica: evento não acontece no mundo, mas abre um novo mundo para aquele a quem acontece.
 +      * Fatos intramundanos se mostram no horizonte do mundo; eventos abrem seus próprios horizontes de mundo.
 +    * Terceira característica: suspensão da causalidade.
 +      * Evento, como "puro começo a partir do nada", é isento de todas as cadeias causais prévias.
 +      * Sua ocorrência an-árquica reconfigura possibilidades do adveniente.
 +    * Quarta característica: caráter temporal único, evidenciado na "impossibilidade de qualquer datação".
 +      * Eventos não acontecem no tempo, mas abrem ou temporalizam o tempo.
 +      * Temporalidade do evento não é interior-temporalidade, mas temporalização retrospectiva: será tido sido um evento.
 +  * Essas quatro características tornam fenomenalidade do evento única em comparação com outros fenômenos.
 +  * À luz da fenomenalidade do evento, Romano reformula conceitos principais da fenomenologia.
 +    * Possibilidade e problema do mundo:
 +      * "Evento não acontece no mundo, mas abre novo mundo".
 +      * Mundo é estrutura hermenêutica, totalidade de possibilidades a partir das quais interpretação é possível.
 +      * Fatos intramundanos são compreendidos à luz do horizonte de mundo pré-existente.
 +      * Evento, em sentido do acontecimento, "ilumina seu próprio contexto", conferindo seu próprio significado.
 +      * Evento como "configurador de mundo" torna-se fonte de sentido.
 +      * Romano distingue entre conceitos fenomenológicos do mundo "do acontecimento".
 +      * Problema da pluralidade de mundos é limite para hermenêutica do acontecimento.
 +        * Romano lida posteriormente com este problema através de holismo da experiência e paradigma relacional.
 +    * Tempo e temporalidade:
 +      * Reconceitualização da temporalidade é tema central.
 +      * Evento não acontece no tempo, mas "temporaliza o tempo".
 +      * Metafísica do tempo é definida como redução do tempo a fenômeno interior-temporal e subjetivação do tempo.
 +        * Superar essa metafísica é aspecto crítico do esforço de Romano.
 +      * Temporalidade do evento se distingue da temporalidade do fato por três diferenças principais:
 +        * Evento é imprevisível em sentido específico.
 +        * Evento é prospectivo, em precessão sobre si mesmo.
 +        * Experiência do evento nunca é realizada no presente, só possível retrospectivamente.
 +    * Experiência do Evento:
 +      * Noção de experiência desempenha papel chave.
 +      * Experiência do evento é distinta da experiência de fatos: põe em jogo o si-mesmo do adveniente.
 +      * Romano oferece compreensão hermenêutica da noção de experiência, contrastando com conceito empirista.
 +        * Empirista: experiência como repetibilidade e causalidade.
 +        * Hermenêutica do acontecimento: experiência como travessia (peiro), perigo, exposição e transformação.
 +      * Experiência do evento é singular, irrepetível e suspende causalidade.
 +        * Não transmite conhecimento, mas ensina sobre nós mesmos, abrindo autocompreensão.
 +      * Processo de interpretação começa a partir da estranheza a si mesmo introduzida pela ex-peri-ência.
 +      * Pré-compreensão em hermenêutica do acontecimento adquire status diferente.
 +        * Pré-compreensão origina-se em um evento (nascimento), adquirida de modo a posteriori pelo adveniente.
 +        * Caráter constitutivamente retardado da compreensão a torna um "transcendental a posteriori".
 +      * Posição da hermenêutica do acontecimento frente à linguagem:
 +        * Contra "idealismo linguístico" de Gadamer e Ricœur, Romano enfatiza dimensão pré-linguística da experiência.
 +        * Abertura perceptiva ao mundo não é determinada pela linguagem.
 +        * Experiência do evento é anterior a qualquer mediação pela linguagem.
 +  * Síntese conclusiva:
 +    * Evento exibe tipo particular de fenomenalidade, ignorado na história da filosofia, especialmente por Heidegger.
 +    * Hermenêutica do acontecimento engaja-se criticamente com ontologia fundamental heideggeriana quanto à primazia do evento.
 +    * Fenomenalidade do evento reformula noções fenomenológicas-chave de possibilidade, mundo, tempo, temporalidade e experiência.
 +    * Em comum com Jean-Luc Marion: evento é concebido para além de qualquer ontologia, suspende princípio de razão suficiente e é caracterizado por novidade radical e imprevisibilidade.
 +    * Diferença crucial com Marion: para Romano, doação (givenness) constitui condição para aparecimento do evento, enquanto para Marion evento é dado e a eventicidade se baseia na doação.
 +      * Romano critica lógica da doação por estabelecer condições para aparecimento do evento, enquanto busca um fundamento infundado no próprio evento.
 +
 +{{tag>Romano}}