estudos:romano:em:adveniente
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:romano:em:adveniente [01/08/2026 05:19] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:romano:em:adveniente [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== Adveniente ===== | ||
| + | (ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32) | ||
| + | |||
| + | **O ADVENIENTE E O SUJEITO** | ||
| + | |||
| + | 1. Com as análises do luto e do encontro, a elucidação do conceito propriamente evental de ipseidade chega a seu termo, revelando-se esta enraizada em determinados eventociais (événementiaux) dos quais é indissociável: | ||
| + | * A passibilidade conferida por esse protoevento não designa condição prévia num sujeito, mas aquilo a partir de que o sujeito pode advir-se como Adveniente, incondição irredutível a toda condição de possibilidade formal-ontológica e impensável em termos de facticidade. | ||
| + | * A ipseidade é a capacidade de manter aberto o aberto da passibilidade mantendo-se nela mesmo, significando disponibilidade ao Evento e possibilidade de responder por ele, sendo suas contrapossibilidades o terror e o desespero, nos quais o Adveniente naufraga num anonimato sem fundo. | ||
| + | |||
| + | 2. Em segundo lugar, a ipseidade é indissociável do mundo, o qual se origina, por sua vez, em Eventos e, em última instância, no Evento originário do nascimento, sendo ser si mesmo poder apropriar-se dos possíveis que articulam o mundo redesdobrando-os conforme projetos, redesdobramento que inclui uma compreensão pela qual se desvela o sentido do Evento para a aventura. | ||
| + | |||
| + | 3. Em terceiro lugar, essa relação constitutiva com a totalidade de sentido do mundo é aquilo a partir de que o Adveniente pode também compreender-se a si mesmo e advir-se como tal em sua singularidade, | ||
| + | |||
| + | 4. Através do conceito de ipseidade descobrem-se assim sinopticamente as determinações mais fundamentais do Adveniente, colocando-se a questão do que ocorre quando este é despojado da possibilidade de fazer face ao que lhe advém, como no terror ou no desespero. | ||
| + | |||
| + | 5. Ao naufragar na lucidez impessoal do desespero em que o mundo não mais se mundaniza para ele, o Adveniente, ausente de si mesmo, assiste a seu próprio sofrimento como se fosse de outrem, relacionando-se com os Eventos que o afetam como meros fatos que não o atingem mais que o espetáculo neutro da chuva. | ||
| + | |||
| + | 6. Reservou-se o título de sujeito para designar o Adveniente reduzido a essa postura, entendido literalmente no sentido de assujeitamento ao que nos acontece, na medida em que não podemos fazê-lo próprio, designando o sujeito o Adveniente enquanto lhe falta justamente a ipseidade. | ||
| + | * Para ser sujeito de atribuição de um dado Evento, o Adveniente deve ainda possuir uma egoidade, sendo dado a si a título de um ego de fato localizado espacialmente num corpo, muito embora, não sendo mais si mesmo, não possa mais fazer sua essa atribuição. | ||
| + | * O nascimento constitui, a esse respeito, uma espécie de paradigma, atestando que essa possibilidade de falência da ipseidade não é adquirida ao longo do percurso, mas habita a aventura nativa desde sua origem, sendo o Adveniente sujeito ao nascer justamente porque ainda não é capaz de suportar a prova em primeira pessoa. | ||
| + | |||
| + | 7. Impõe-se então a questão de saber se há mera homonímia entre essa acepção propriamente evental do termo sujeito e sua acepção metafísica, | ||
| + | |||
| + | 8. O sujeito moderno, pensado originariamente como substância, | ||
| + | * Do Evento: o sujeito é o que se mantém sob (subjectum, ύποκείμενον) tudo o que lhe acontece, substrato imutável de toda predicação, | ||
| + | * Do mundo: o sujeito-substância da metafísica é acósmico já em sua interpretação como sujeito, substrato imutável de vivências, o que implica recobrimento correspondente do mundo em sentido evental, reduzido a puro contexto de objetos cognoscíveis e, depois, a puro correlato objetivo do conhecimento. | ||
| + | * Da compreensão: | ||
| + | |||
| + | 9. Interroga-se então se o [[lx> | ||
| + | |||
| + | 10. A tal questão dever-se-ia responder afirmativamente se o acesso ao Dasein em Sein und Zeit não supusesse antes uma redução do Acontecimento ([[lx> | ||
| + | * Tal como naquele curso a temporalidade da experiência fatídica da vida cristã supunha a redução do Evento escatológico, | ||
| + | * A mise en lumière do sentido insigne da possibilidade que o Dasein é ele mesmo funda-se na redução da morte como Evento efetivo ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 11. Essa análise da mortalidade do Dasein constitui o ponto focal de convergência de seus principais existenciais — a angústia, pois o ser-para-a-morte é essencialmente angústia; o cuidado ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 12. Chega-se assim a um paradoxo: por um lado, Heidegger, ao conferir ao ser um sentido evental, dá um passo decisivo fora dos limites da metafísica, | ||
| + | * Esse paradoxo não é insustentável, | ||
| + | |||
| + | 13. Essa redução do Evento na ontologia fundamental não tem apenas por consequência o desconhecimento da dimensão evental da aventura humana e a impossibilidade de pensar o nascimento (ou a natalidade) como um existencial, | ||
| + | * Apesar de certas analogias — a abertura ao mundo, o primado da compreensão, | ||
| + | * A questão que surge é se o Dasein, instaurando-se como esse ente ontológico através de uma redução do Evento, se emancipa inteiramente do sujeito da metafísica contra o qual, contudo, se conquista, não reproduzindo, | ||
| + | |||
| + | 14. O fundamento dessa diferença reside em que os existenciais se compreendem fundamentalmente a partir da mortalidade, | ||
| + | |||
| + | 15. Que o Dasein seja determinado em Sein und Zeit como ser-no-mundo significa que, existindo, transcende sempre já o ente em direção a seu ser, compreendendo, | ||
| + | * A clausura do mundo é indissociável do horizonte da morte enquanto morte própria, do morrer enquanto modalidade da existência voltada-para-si, | ||
| + | |||
| + | 16. A essa determinação existencial do mundo pode-se opor, traço por traço, sua determinação evental: também o Adveniente está no mundo, mas o mundo não designa aqui um a priori ontológico, | ||
| + | * Se o mundo é, para o Adveniente, a priori de sua aventura enquanto horizonte transcendental de sentido, esse a priori não deixa de ser dado a posteriori, de modo que essa aposteridade pertence à própria textura de sentido de sua apriorização, | ||
| + | * O mundo é, assim, essa corola de possibilidades que articulam a cada vez a aventura, apropriável apenas segundo o desnível originário entre o original e o originário constitutivo do fenômeno do nascimento, dando-se sempre segundo uma neutralidade transcendental. | ||
| + | |||
| + | 17. O mesmo vale para a compreensão: | ||
| + | * O sentido posto a nu pelo compreender tem sempre o modo de ser do Dasein, existindo ele mesmo, podendo somente o Dasein ter sentido ou estar destituído dele; não há outro sentido senão aquele que articula o próprio ser do Dasein enquanto essencialmente finito, sendo o sentido do ser a finitude, isto é, a temporalidade. | ||
| + | |||
| + | 18. Para o Adveniente, ao contrário, a compreensão é sempre marcada por uma certa excentricidade: | ||
| + | * Com o nascimento, a aventura humana enlaça-se a um sentido que a precede desde sempre, a uma história pré-pessoal que a sobrepaira e que confere ao Adveniente, retardando originariamente sobre seus possíveis, um destino, o que dá à própria compreensão seu caráter retardatário. | ||
| + | * Esse excesso de sentido inesgotável, | ||
| + | |||
| + | 19. Somente uma análise do nascimento e das perspectivas que abre sobre a aventura mortal permite escapar ao que se poderia designar, em Sein und Zeit, como certo idealismo do compreender, | ||
| + | |||
| + | 20. É no devançamento da morte que a ipseidade encontra seu fundamento existencial: | ||
| + | * Impõe-se, contudo, a questão de saber como esse possível insubstituível pode conferir individualidade à existência a menos de já a ter recebido dela, constituindo isso um verdadeiro círculo, tal como o assinala Sartre em L' | ||
| + | * Esse círculo confirma antes a tese de que nenhum Evento pode sobrevir à existência senão essa mesma existência, | ||
| + | |||
| + | 21. Segue-se daí que, se a morte — ou antes o morrer, a resolução antecipadora — é o que possibilita todos os demais Eventos, então para o Dasein não há mais Eventos, jamais implicada sua ipseidade no que lhe acontece, determinando-se antes formalmente a partir do único Evento de ser, reproduzindo assim, apesar da ruptura de Sein und Zeit, certas aporias da metafísica tradicional do sujeito. | ||
| + | * A clausura sobre si da existência e a autarquia radical do Dasein impedem todo pensamento evental da própria história enquanto singularizante, | ||
| + | * A ipseidade compreendida existencialmente como autoconstância ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 22. A ipseidade compreendida em seu sentido evental, ao contrário, não é condição de possibilidade formal para o acolhimento dos Eventos, mas incondição segundo a qual o Adveniente se arrisca a si mesmo no que lhe acontece, advindo-se ao risco de si mesmo, indissociável essa incondição da transformação de si à prova do que sobrevém pela qual a singularidade, | ||
| + | * Apropriar-se de um Evento, compreendendo-se a partir dele, é ao mesmo tempo transformar-se através de sua prova, esquecer em sentido positivo, morrer a si mesmo e aos outros, cindir-se de um passado revolto abrindo-se a um porvir que transcende todo projeto, renunciando a todo domínio sobre a aventura e a temporalidade que o Evento temporaliza. | ||
| + | |||
| + | 23. Tal ipseidade, possibilidade em jogo em todo Evento de advir-se como outro através de sua prova, não é objeto de conhecimento nem estrutura formal ou condição de possibilidade, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
