estudos:robson-ramos:possibilidade-existencial-e-categorial
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| estudos:robson-ramos:possibilidade-existencial-e-categorial [21/01/2026 04:21] – created mccastro | estudos:robson-ramos:possibilidade-existencial-e-categorial [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Possibilidade existencial e categorial ====== | ||
| + | |||
| + | RRAM | ||
| + | |||
| + | * A dificuldade interpretativa da passagem de GA21, p. 228 concentra-se no juntor “deste modo”, porque ele parece fazer depender, de maneira não trivial, a elucidação enunciativa das modalidades de um compromisso ontológico específico, | ||
| + | * O problema inicial consiste em que uma leitura psicológico-epistemológica das modalidades, | ||
| + | * A solução proposta exige reconhecer que Heidegger não está descrevendo uma doutrina histórica que tenha explicitado esse nexo, mas introduzindo uma interpretação acerca dos pressupostos que, de fato, condicionariam o sentido enunciativo das modalidades e o sentido ontológico que nele se abriga implicitamente. | ||
| + | |||
| + | * O “deste modo” deve ser compreendido como operador interpretativo: | ||
| + | * O ponto de Heidegger é que o tratamento das modalidades “no contexto do enunciado e de sua certeza” não paira no vazio, porque o enunciado só funciona como enunciado verdadeiro ou falso se já estiver em vigor uma compreensão de ser que deixe aparecer entes como determináveis de um certo modo. | ||
| + | * Assim, a elucidação enunciativa das modalidades, | ||
| + | |||
| + | * A chave para o nexo entre modalidades enunciativas e modalidades ontológicas é a tese hermenêutica segundo a qual ser é sempre relativo a uma compreensão de ser, e essa compreensão projeta sentidos normativos que tornam possíveis comportamentos intencionais com algo enquanto algo. | ||
| + | * Os sentidos de ser projetados na compreensão funcionam como estruturas normativas que especificam condições de identidade, de fenomenalização e de individuação, | ||
| + | * A unidade desses sentidos de ser é a condição de possibilidade dos comportamentos humanos para consigo e para com os demais entes, incluindo a tematização científica e mesmo formas extremas de relação, como o “morrer por outrem”. | ||
| + | * Por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | * A interpretação fenomenológica do enunciado veritativo, desenvolvida no contexto de uma análise do logos apofântico, | ||
| + | * O enunciado capaz de verdade ou falsidade tem, em seu uso originário, | ||
| + | * Para que esse mostrar determinante seja possível, duas condições ontológicas devem estar em vigor: (i) o descobrimento prévio de uma totalidade de entes que, em geral, não está tematizada enunciativamente, | ||
| + | * O resultado é que o enunciado, enquanto comportamento veritativo, requer uma compreensão que permita o aparecer de algo como algo determinado, | ||
| + | |||
| + | * É nesse nível que se torna inteligível a passagem do plano enunciativo ao plano ontológico das modalidades: | ||
| + | * Para que o enunciado determine, ele precisa poder recortar um “algo” como subsistente e atribuir-lhe predicados; essa forma de aparecimento supõe um sentido de ser no qual o ente é concebido como suporte de propriedades, | ||
| + | * Uma vez que esse esquema estrutura o modo de aparecer do ente na enunciação, | ||
| + | * Assim, efetividade, | ||
| + | |||
| + | * A expressão “ser da natureza no sentido mais amplo” nomeia precisamente esse horizonte ontológico subjacente ao logos apofântico: | ||
| + | * Esse sentido amplo de natureza é caracterizado por três traços: (i) o esquema substrato–propriedade; | ||
| + | * A amplitude dessa noção permite acomodar distinções internas — por exemplo, entre a natureza projetada pela Física e a natureza viva —, embora a crítica heideggeriana vise sobretudo ao predomínio do sentido de subsistência, | ||
| + | |||
| + | * Daí o alcance do “deste modo”: ao limitar a elucidação das modalidades ao âmbito do enunciado e de sua certeza, a tradição mantém-se implicitamente presa ao horizonte ontológico que torna possível o próprio enunciar, isto é, ao ser compreendido como natureza em sentido amplo, e às modalidades como determinações do ser nesse domínio. | ||
| + | * Não se trata de afirmar que toda teoria epistemológica das modalidades professa conscientemente uma ontologia da natureza, mas de sustentar que ela só pode operar porque pressupõe um modo de aparecimento do ente compatível com o logos apofântico, | ||
| + | * Por isso, não haveria um tratamento puramente de dicto das modalidades que fosse plenamente neutro: mesmo quando se fala da modalidade como modo da verdade ou como grau de certeza, isso repousa sobre um campo ontológico em que a determinação enunciativa se ancora em entes concebidos como portadores de propriedades modalizáveis. | ||
| + | * A crítica de Heidegger, entretanto, não é dirigida ao fato de haver tal compromisso ontológico, | ||
| + | |||
| + | * Esse fechamento desemboca na transgressão categorial quando se tenta interpretar o ser-aí com os conceitos modais herdados do domínio da subsistência: | ||
| + | * Em Ser e Tempo, Heidegger demarca a diferença ao distinguir a possibilidade existencial tanto da possibilidade lógica “vazia” quanto da contingência do subsistente, | ||
| + | * A possibilidade categorial da subsistência é estruturada por um primado formal do necessário sobre o efetivo e do efetivo sobre o possível, de modo que o possível aparece como ontologicamente inferior, como simples “somente possível”, | ||
| + | * Essa ordenação formal explicita por que a possibilidade, | ||
| + | |||
| + | * Em consequência, | ||
| + | * O ponto decisivo é que o sentido existencial de possibilidade não é capturado nem pelo critério lógico de não contradição, | ||
| + | * A consequência crítica é que, se o domínio do existir humano não pode ser compreendido por uma ontologia da natureza, então a importação do aparato modal tradicional para a analítica existencial repete a transgressão categorial que a fenomenologia hermenêutica pretende suspenderú. | ||
| + | * A tarefa que se anuncia é, portanto, explicitar os traços formais da possibilidade existencial sob o primado do possível no existir, em contraste com o primado do necessário e do efetivo no horizonte da subsistência. | ||
| + | |||
| + | {{tag>" | ||
