estudos:robson-ramos:campo-fechado-possivel
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| + | ====== O campo fechado do possível ====== | ||
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| + | * A fenomenologia hermenêutica de Ser e Tempo parte do reconhecimento de uma transgressão categorial estrutural, segundo a qual o ser humano interpreta o seu próprio modo de ser a partir de conceitos adequados a entes que ele mesmo não é, especialmente aqueles derivados do esquema ontológico substância–acidente, | ||
| + | * Essa transgressão manifesta-se de modo paradigmático nas ontologias que aplicam ao ser humano o modelo propriedade–substrato, | ||
| + | * Uma dificuldade metodológica central da analítica existencial consiste, portanto, em elaborar uma interpretação ontológica que suspenda criticamente esses conceitos herdados da tradição ontológica e antropológica, | ||
| + | * A suspensão hermenêutica desses conceitos tradicionais implica, positivamente, | ||
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| + | * Essa delimitação categorial é introduzida desde o início de Ser e Tempo pela noção de existência, | ||
| + | * Um ente cuja determinação ontológica é a existência é sempre a sua possibilidade, | ||
| + | * A possibilidade existencial distingue-se radicalmente da possibilidade lógica e da contingência modal dos entes subsistentes, | ||
| + | * Enquanto categoria modal da subsistência, | ||
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| + | * Apesar da centralidade da noção de possibilidade para toda a analítica existencial, | ||
| + | * Embora os elementos fundamentais para a reconstrução dessa noção estejam presentes, uma elaboração mais completa exigiria a tematização articulada das demais noções modais correlatas, como necessidade e efetividade. | ||
| + | * Esse déficit não se deve a um descuido teórico, mas a limitações metodológicas inerentes ao projeto fenomenológico-hermenêutico. | ||
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| + | * No âmbito mais geral da tradição fenomenológica, | ||
| + | * No caso de Husserl, contudo, é possível reconstruir uma abordagem ordenada da noção de possibilidade a partir da diversidade de seus usos. | ||
| + | * A reconstrução proposta por Mohanty identifica uma teoria ramificada da possibilidade, | ||
| + | * Essa abordagem distingue possibilidades puras e possibilidades reais, e fundamenta fenomenologicamente as modalidades a partir da consciência, | ||
| + | * Um elemento fundamental dessa reconstrução é a distinção entre possibilidade lógica e possibilidade prática, expressa na consciência disposicional do “eu posso”. | ||
| + | * A fenomenologia husserliana revela, assim, uma noção essencial de possibilidade, | ||
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| + | * A partir dessa perspectiva, | ||
| + | * O ponto de vista genético da fenomenologia permite conceber uma teoria ampliada das modalidades, | ||
| + | * Essa ampliação, | ||
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| + | * Em Heidegger, a centralidade da possibilidade torna ainda mais relevante a ausência de uma teoria fenomenológica sistemática das modalidades. | ||
| + | * Essa ausência remete a um problema metateórico: | ||
| + | * Uma teoria genético-constitutiva de cunho transcendental não é compatível com uma interpretação que permanece no âmbito da existência fática e reconhece a opacidade constitutiva da situação hermenêutica. | ||
| + | * A fenomenologia hermenêutica, | ||
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| + | * Apesar disso, é admissível um esforço de reconstrução dos usos da noção de possibilidade nos escritos de Heidegger. | ||
| + | * Deve-se distinguir entre a elaboração de uma teoria sistemática das modalidades e a reconstrução conceitual dos usos efetivos do conceito de possibilidade na analítica existencial. | ||
| + | * Essa distinção pressupõe que a interpretação fenomenológica é um empreendimento conceitual, e que os conceitos indicativo-formais possuem um estatuto conceitual próprio. | ||
| + | * Recusar a natureza conceitual da interpretação fenomenológica implicaria uma concepção estreita de conceito, indevidamente comprometida com o esquema substrato–propriedade. | ||
| + | * É compatível, | ||
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| + | * Um objetivo central do estudo é examinar o estatuto justificacional da admissão heideggeriana de um campo existencial da possibilidade. | ||
| + | * Mesmo sem uma teoria completa, permanece a questão de por que a temática modal não foi mais amplamente desenvolvida na analítica existencial. | ||
| + | * Heidegger identifica uma razão metodológica decisiva para esse déficit em cursos anteriores a Ser e Tempo. | ||
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| + | * No curso Lógica. A Pergunta pela Verdade, Heidegger afirma que o conceito de possibilidade permanece fundamentalmente não esclarecido na filosofia científica. | ||
| + | * Quando clarificado, | ||
| + | * O sentido de possibilidade e as estruturas de possibilidade próprias do ser-aí permanecem, segundo Heidegger, totalmente fechados. | ||
| + | * A aplicação arbitrária de conceitos tradicionais bloqueia o acesso a uma investigação objetiva da existência. | ||
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| + | * Essa crítica não exclui a ideia de uma filosofia científica, | ||
| + | * Considerando que Heidegger compreende a fenomenologia como renovação científica da filosofia, essa crítica pode ser entendida como uma autocrítica. | ||
| + | * Em cursos anteriores, Heidegger já afirmara que a possibilidade poderia ser concebida fenomenologicamente de modo rigoroso, sem relação com a possibilidade lógica ou a priori. | ||
| + | * Isso indica que o próprio Heidegger reconhecia não dispor ainda de um conceito plenamente esclarecido de possibilidade existencial. | ||
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| + | * A noção de possibilidade própria do ser-aí refere-se a um campo ontológico específico. | ||
| + | * Intensivamente, | ||
| + | * A possibilidade não se limita às determinações do ser humano, mas estende-se ao campo da intencionalidade em geral. | ||
| + | * A referência a tipos de estruturas de possibilidade sugere a necessidade de uma elucidação estrutural complexa desse fenômeno. | ||
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| + | * O fechamento histórico do campo fenomenal da possibilidade existencial explica a ausência de seu esclarecimento conceitual. | ||
| + | * As dificuldades da analítica existencial decorrem da transgressão categorial resultante da aplicação indevida de conceitos modais próprios da natureza. | ||
| + | * Pode-se estender esse diagnóstico às demais modalidades, | ||
| + | * Uma meta central da fenomenologia hermenêutica seria precisamente abrir esse campo fenomenal para investigação. | ||
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| + | * Em Ser e Tempo, há um progresso significativo em relação a esse fechamento. | ||
| + | * Heidegger identifica a compreensão como o solo fenomenal a partir do qual a possibilidade existencial pode ser vista. | ||
| + | * A possibilidade enquanto existencial é apresentada como problema, e não como conceito plenamente elaborado. | ||
| + | * A analítica existencial fornece apenas uma preparação para a tematização rigorosa da possibilidade. | ||
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| + | * A restrição metodológica pode ser enfraquecida se considerada apenas em relação ao estágio da analítica correspondente à compreensão. | ||
| + | * Com a progressão até a interpretação temporal do ser do ser-aí, a analítica ultrapassa o caráter meramente preparatório. | ||
| + | * Permanece, contudo, a questão de saber se Ser e Tempo contém um conceito de possibilidade suficientemente articulado para ser reconstruído. | ||
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| + | * O campo fenomenal da possibilidade existencial não está mais fechado em Ser e Tempo. | ||
| + | * A compreensão abre o horizonte no qual a possibilidade pode ser visualizada e conceitualizada. | ||
| + | * Isso justifica o caráter hermenêutico do esclarecimento fenomenológico da possibilidade existencial. | ||
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| + | * O caráter incipiente da elucidação da possibilidade não decorre de falta de rigor metodológico. | ||
| + | * Ele resulta da consciência das limitações impostas pela abertura ainda inicial do campo fenomenal correspondente. | ||
| + | * A analítica existencial permite apenas uma problematização preparatória da possibilidade. | ||
| + | * A ausência de uma teoria da possibilidade existencial é, assim, coerente com as exigências metodológicas do projeto. | ||
| + | * Apesar disso, Heidegger fornece delimitações contrastivas em relação às abordagens tradicionais das modalidades. | ||
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