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| + | ====== O que é um texto? ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **O que é um texto?** | ||
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| + | * O ensaio examina o debate entre explicar e interpretar, | ||
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| + | **I. O que é um texto?** | ||
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| + | * O texto deve ser entendido como todo discurso fixado pela escrita, de modo que a fixação escrita constitui o próprio texto e suscita imediatamente a questão de sua relação com a palavra. | ||
| + | * A escrita parece inicialmente acrescentar-se a uma palavra anterior, pois, segundo a concepção saussuriana da fala como realização singular da língua, o texto ocupa perante a língua a mesma posição de efetuação que a fala, conservando graficamente aquilo que antes teria aparecido na oralidade. | ||
| + | * A precedência psicológica e sociológica da fala não impede que a escrita transforme radicalmente a relação com os enunciados, pois o texto não se limita a transcrever uma fala anterior, mas inscreve diretamente na letra o querer-dizer do discurso. | ||
| + | * A leitura revela a autonomia da escrita, pois a relação entre escrever e ler não é diálogo nem interlocução, | ||
| + | * A leitura de um livro configura uma relação peculiar com um autor considerado como já ausente ou morto, pois a obra se torna plenamente disponível quando não há mais resposta do autor, restando apenas a leitura. | ||
| + | * A diferença entre leitura e diálogo confirma que a escrita constitui uma efetuação paralela à fala, interceptando-a e inscrevendo diretamente a intenção de dizer, mesmo que historicamente tenha começado como transcrição gráfica dos signos da fala. | ||
| + | * A escrita não apenas conserva o discurso como arquivo nem apenas aumenta sua eficácia analítica, mas transforma profundamente as relações entre linguagem e mundo e entre linguagem, autor e leitor. | ||
| + | * A função referencial do discurso consiste em dizer algo sobre algo, pois a frase visa afirmar algo verdadeiro ou real e, pela referência, | ||
| + | * Na fala viva, a presença dos interlocutores e da situação circunstancial permite que demonstrativos, | ||
| + | * Quando o texto substitui a fala, o movimento da referência em direção à mostração é interceptado, | ||
| + | * A relação de texto a texto, surgida com o apagamento do mundo mostrado pela fala viva, engendra o quase-mundo dos textos, isto é, a literatura. | ||
| + | * A interceptação da referência pela escrita faz com que as palavras deixem de desaparecer diante das coisas e passem a valer como palavras escritas para si mesmas. | ||
| + | * A ocultação do mundo circunstancial pelo quase-mundo dos textos pode tornar-se tão completa que o próprio mundo, em uma civilização da escrita, passa a ser presentificado pelas obras como mundo grego ou mundo bizantino, constituindo um imaginário literário. | ||
| + | * A transformação da relação entre texto e mundo esclarece a transformação da relação entre texto, autor e leitor, pois o autor já não se identifica ao locutor que se designa imediatamente por “eu”, mas advém no espaço de significação instituído pela escrita. | ||
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| + | **II. Explicação ou compreensão? | ||
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| + | * A leitura é o lugar em que se confrontam explicação e interpretação, | ||
| + | * Em Dilthey, a oposição fundamental ocorre entre explicar e compreender, | ||
| + | * A compreensão funda a interpretação como conhecimento do psiquismo alheio por signos, enquanto a interpretação acrescenta objetivação graças à fixação e conservação escrita desses signos. | ||
| + | * A distinção entre explicar e compreender se obscurece quando se interrogam as condições científicas da interpretação, | ||
| + | * A tensão final em Dilthey conduz à necessidade de abandonar a subordinação da interpretação à compreensão psicológica de outrem e de reabrir a questão de sua relação com a explicação. | ||
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| + | **III. O texto e a explicação estrutural** | ||
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| + | * A autonomia do texto diante da fala abre duas possibilidades de leitura: permanecer no suspenso do texto e explicá-lo por sua estrutura interna, ou levantar esse suspenso e interpretá-lo, | ||
| + | * A leitura explicativa instala-se no lugar sem lugar do texto, prolongando a suspensão da referência ao mundo e ao sujeito falante, de modo que o texto passa a ter apenas um dentro, sem exterior transcendente. | ||
| + | * A constituição do texto como texto e da literatura como rede de textos torna legítima a interceptação da dupla transcendência do discurso para o mundo e para outrem, possibilitando a explicação. | ||
| + | * A explicação textual não deriva de um modelo naturalista transferido às ciências do espírito, mas procede do próprio campo dos signos, aplicando aos textos regras que a linguística aplica aos sistemas da língua. | ||
| + | * O modelo estrutural da linguística, | ||
| + | * A aplicação do modelo estrutural ao texto é legítima como hipótese de trabalho, pois unidades superiores à frase podem apresentar organizações análogas às unidades inferiores estudadas pela linguística. | ||
| + | * Claude Lévi-Strauss formula essa hipótese para os mitos ao tratar suas grandes unidades constitutivas como mythèmes, análogas a fonemas, morfemas e semantemas, de modo que sua função significante resulta do arranjo relacional e não de uma substância isolada. | ||
| + | * A análise lévi-straussiana do mito de Édipo distribui as frases em quatro colunas relativas à superestimação e subestimação do parentesco, à destruição de monstros e à dificuldade de andar direito, fazendo aparecer uma correlação lógica entre contradições. | ||
| + | * A análise estrutural explica o mito ao evidenciar a lógica das operações entre pacotes de relações, mas não o interpreta como fala atual, pois mantém o texto suspenso em sua significação para o leitor. | ||
| + | * Nos relatos folclóricos e nas análises de Propp, Roland Barthes e Greimas, a explicação estrutural segmenta o relato, estabelece níveis de integração e descronologiza a narrativa para revelar a lógica subjacente das ações. | ||
| + | * Aos encadeamentos de ações correspondem actantes definidos não como personagens psicológicos, | ||
| + | * A análise estrutural reconstrói a narrativa como um todo, mas mantém narrador e destinatário dentro dos sinais textuais da narratividade, | ||
| + | * A disputa entre explicar e interpretar passa a ocorrer no mesmo terreno da linguagem, e não mais entre campos heterogêneos como natureza e espírito. | ||
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| + | **IV. Rumo a um novo conceito de interpretação** | ||
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| + | * A interpretação deve ser considerada como a outra atitude possível diante do texto, inicialmente oposta à explicação, | ||
| + | * A leitura pode prolongar o suspenso referencial do texto ou levantá-lo, | ||
| + | * A interpretação ainda pode ser inicialmente oposta à explicação, | ||
| + | * A interpretação conserva o caráter de apropriação reconhecido por Schleiermacher, | ||
| + | * A apropriação também designa a luta contra a distância cultural e hermenêutica, | ||
| + | * A apropriação possui caráter atual, pois a leitura efetua as possibilidades semânticas do texto como a execução de uma partitura musical, fazendo com que o texto encontre um mundo e um sujeito no leitor. | ||
| + | * Nesse ponto crítico, explicação estrutural e interpretação como apropriação ainda parecem exteriores uma à outra, como duas atitudes entre as quais seria necessário escolher. | ||
| + | * A oposição antinômica deve ser superada por uma articulação que torne análise estrutural e hermenêutica complementares. | ||
| + | * Cada atitude remete à outra por seus próprios traços, pois a explicação solicita a interpretação e a interpretação necessita da mediação explicativa. | ||
| + | * A análise estrutural do mito não pode reduzir o sentido ao arranjo formal, pois os mythèmes ainda se exprimem em frases significantes e remetem a questões sobre origem, morte, sofrimento e sexualidade. | ||
| + | * A análise estrutural não elimina a questão radical do mito, mas a restitui em maior profundidade, | ||
| + | * A explicação estrutural pode ser situada como etapa necessária entre interpretação ingênua e interpretação crítica, integrando explicação e compreensão em um único arco hermenêutico da leitura como retomada do sentido. | ||
| + | * A reconciliação entre explicar e interpretar exige deslocar a interpretação de uma apropriação subjetiva da intenção do autor para a intenção do próprio texto, isto é, para a direção de pensamento que o texto abre. | ||
| + | * Explicar consiste em destacar a estrutura estática das relações internas do texto, enquanto interpretar consiste em seguir o caminho de pensamento aberto pelo texto e reconhecer uma operação objetiva de interpretação produzida pelo próprio texto. | ||
| + | * Na exegese do relato sacerdotal da criação em Gênesis 1,1-2,4a, a articulação entre relato de ação e relato de palavra mostra que a interpretação já atua internamente no texto antes de ser ato do exegeta. | ||
| + | * A interpretação objetiva e intratextual retoma a hermeneia aristotélica como ato da linguagem sobre as coisas, anterior a qualquer segundo discurso sobre um primeiro discurso. | ||
| + | * Em Aristóteles, | ||
| + | * Em Charles Sanders Peirce, a relação entre signo, objeto e interpretante oferece um modelo mais próximo da exegese textual, pois a série aberta dos interpretantes permite compreender a interpretação como comentário, | ||
| + | * A aplicação do conceito peirciano de interpretante aos textos é analógica, mas legítima, pois permite pensar o texto como objeto, a semântica profunda como signo e a cadeia comunitária de interpretações como série de interpretantes incorporada à dinâmica do texto. | ||
| + | * A interpretação pode ser despsicologizada ao máximo quando é vinculada ao trabalho interno do texto, cabendo ao exegeta seguir a direção indicada pela relação interpretativa sustentada pelo próprio texto. | ||
| + | * A apropriação não é eliminada, mas deslocada para o termo final do arco hermenêutico, | ||
| + | * A leitura é o ato concreto em que se cumpre o destino do texto, pois nela explicação e interpretação se opõem e se reconciliam indefinidamente. | ||
