estudos:ricoeur:texto-acao:tarefa-hermeneutica
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| + | ====== Tarefa da Hermenêutica ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **A tarefa da hermenêutica: | ||
| + | * O propósito é descrever o estado do problema hermenêutico antes de avançar contribuição própria em artigo seguinte, conduzindo a reflexão até o ponto em que uma aporia interna exige reorientação capaz de colocar a hermenêutica em diálogo sério com as ciências do texto, da semiologia à exegese. | ||
| + | * A hermenêutica é definida como a teoria das operações da compreensão em sua relação com a interpretação dos textos, sendo a efetuação do discurso como texto a ideia diretriz que preparará a superação da alternativa ruinosa entre explicar e compreender através da busca de complementaridade entre essas duas atitudes. | ||
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| + | **I. Das hermenêuticas regionais à hermenêutica geral** | ||
| + | * O balanço proposto converge para a formulação de uma aporia que pôs em movimento a própria pesquisa, e não pretende neutralidade, | ||
| + | * A história recente da hermenêutica é dominada por duas preocupações: | ||
| + | * A primeira localidade a ser desenclausurada pela hermenêutica é a linguagem escrita, cujo caráter fundamental é a polissemia das palavras, contrabalançada pelo papel seletivo dos contextos e pela atividade de discernimento própria à interpretação, | ||
| + | * O verdadeiro movimento de desregionalização começa com Friedrich Schleiermacher, | ||
| + | * Wilhelm Dilthey incorpora o problema regional da interpretação de textos ao campo mais vasto do conhecimento histórico, tomando a própria realidade histórica como texto a ser interpretado, | ||
| + | * O traço distintivo do compreender é buscado por Dilthey do lado da psicologia, na capacidade primordial de se transpor para a vida psíquica de outrem, fundamentando as ciências do espírito na psicologia do indivíduo agente, e apoiando-se, | ||
| + | * O problema hermenêutico herdado de Schleiermacher se recompõe em Dilthey como reprodução (Nachbilden) de um encadeamento estruturado a partir de signos fixados pela escrita, cumprindo a filologia o papel de estabelecer a validade universal da interpretação contra o arbítrio romântico e o subjetivismo cético, mas permanecendo a psicologia a justificação última que torna o problema da objetividade ao mesmo tempo inelutável e insolúvel, já que o conhecimento de si mesmo é sempre mediado por signos e obras, e a vida se estrutura teleologicamente sem se conhecer diretamente. | ||
| + | * A obra de Dilthey revela a aporia central de uma hermenêutica que subordina a compreensão do texto à compreensão de um outrem que nele se exprime, desviando o objeto da hermenêutica do sentido e da referência do texto para o vivido que nele se expressa, conflito bem identificado por Hans Georg Gadamer entre uma filosofia da vida e uma filosofia do sentido que reproduz as pretensões hegelianas do espírito objetivo. | ||
| + | * Dilthey apreendeu, contudo, o núcleo central do problema — que a vida só apreende a vida pela mediação de unidades de sentido que se elevam acima do fluxo histórico —, apontando um modo de superação da finitude sem saber absoluto, ainda que seja necessário renunciar à noção puramente psicológica de transferência para desdobrar o texto em direção ao seu sentido imanente e ao mundo que ele abre. | ||
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| + | **II. Da epistemologia à ontologia** | ||
| + | * O passo decisivo além de Dilthey não consistiu em aperfeiçoar a epistemologia das ciências do espírito, mas em questionar seu postulado fundamental, | ||
| + | * Em Sein und Zeit, a questão da Auslegung se junta desde a introdução à questão esquecida do ser, sendo o Dasein não um sujeito diante de um objeto, mas o lugar da precompreensão ontológica do ser, de modo que a fundação ontológica se distingue do fundamento epistemológico e a hermenêutica derivada — a metodologia das ciências históricas do espírito — se enraíza nessa hermenêutica fundamental. | ||
| + | * Diferentemente de Dilthey, que ligava a compreensão ao problema do outro, Heidegger desliga inteiramente a compreensão da comunicação com outrem, fundando-a antes na relação do ser com o mundo — o ser-em —, e não no ser-com, mundanizando assim o compreender e dessicologizando-o. | ||
| + | * As análises do cuidado, da angústia e do ser-para-a-morte, | ||
| + | * A compreensão, | ||
| + | * O célebre círculo hermenêutico, | ||
| + | * A filosofia de Sein und Zeit não é uma filosofia da linguagem, pois a questão do discurso (Rede) só é introduzida após as de situação, compreensão e interpretação, | ||
| + | * A aporia diltheyana não é resolvida por Heidegger, mas apenas deslocada e agravada, pois a filosofia heideggeriana pratica o movimento de remontada aos fundamentos sem conseguir realizar o movimento de retorno que reconduziria à questão epistemológica do estatuto das ciências do espírito, permanecendo em aberto como dar conta de uma questão crítica no quadro de uma hermenêutica fundamental. | ||
| + | * Essa aporia torna-se o problema central da filosofia hermenêutica de Hans Georg Gadamer em Wahrheit und Methode, organizada em torno do escândalo da distanciação alienante (Verfremdung) que se opõe ao pertencimento (Zugehörigkeit) primordial, debate percorrido nas três esferas estética, histórica e linguística da experiência hermenêutica. | ||
| + | * A filosofia de Gadamer sintetiza os dois movimentos descritos — das hermenêuticas regionais à geral e da epistemologia à ontologia — e esboça, diferentemente de Heidegger, o movimento de retorno da ontologia aos problemas epistemológicos, | ||
| + | * A Dilthey é reprovado permanecer prisioneiro de um conflito entre metodologias, | ||
| + | * O ápice da reflexão de Gadamer sobre a fundação das ciências do espírito é a noção de consciência da história efeitual (Wirkungsgeschichtliches Bewusstsein), | ||
| + | * A partir desse conceito de eficiência histórica, propõe-se o problema de como introduzir uma instância crítica numa consciência de pertencimento definida pela recusa da distanciação, | ||
