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| + | ====== Razão Prática ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **A razão prática** | ||
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| + | * A razão prática deve ser construída gradualmente como uma razão digna desse nome, mas irredutível à racionalidade científico-técnica, | ||
| + | * O percurso parte das noções contemporâneas de razão de agir e raciocínio prático, passa pela sociologia compreensiva de Max Weber e pelas noções de regra de ação e conduta regrada, alcança Kant e Hegel, e procura reconverter a razão prática à sua função crítica diante das representações ideológicas da ação social. | ||
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| + | **I. Os conceitos de “razão de agir” e de “raciocínio prático”** | ||
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| + | * A teoria contemporânea da ação, sobretudo em língua inglesa, fornece o ponto de partida para pensar a razão prática e permite depois buscar paralelos em outros campos de investigação. | ||
| + | * No plano da teoria da ação, a razão prática identifica-se às condições de inteligibilidade da ação sensata, entendida como ação da qual um agente pode prestar contas a si mesmo ou a outro de modo aceitável em uma comunidade de linguagem e de valor. | ||
| + | * A ação humana não é muda nem incomunicável, | ||
| + | * A teoria da ação explicita as condições de inteligibilidade presentes na semântica espontânea da ação, cujos recursos devem ser experimentados antes que se apontem seus limites. | ||
| + | * A razão de agir é a noção central nesse nível, e importa menos decidir se ela exclui a causalidade do que compreender positivamente aquilo que ela significa. | ||
| + | * A razão de agir estende-se a todo o campo da motivação, | ||
| + | * Os caracteres de desejabilidade podem ser explicitados em classes gerais de motivos, de modo que explicar uma ação é interpretá-la como exemplo de uma disposição compreensível culturalmente. | ||
| + | * A disposição implicada no motivo introduz uma forma de explicação causal teleológica, | ||
| + | * A análise da razão de agir aproxima-se mais da Ética a Nicômaco do que da Crítica da Razão Prática, pois, como Aristóteles, | ||
| + | * A referência aristotélica ao desejo deliberativo situa a lógica da práxis em um nível antropológico e discursivo intermediário, | ||
| + | * Os três traços anteriores da razão de agir preparam a passagem da semântica da ação à sintaxe do raciocínio prático. | ||
| + | * O raciocínio prático emerge quando a razão de agir se refere à intenção em vista da qual se faz algo, ordenando proposições práticas em cadeias como “fazer isto para obter aquilo”. | ||
| + | * O raciocínio prático herda o syllogismo prático aristotélico, | ||
| + | * O raciocínio prático organiza estrategicamente os meios em relação a um caráter de desejabilidade terminal, confirmando a máxima aristotélica de que se delibera apenas sobre os meios. | ||
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| + | **II. O conceito de “regra de ação”** | ||
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| + | * A razão de agir e o raciocínio prático ainda não cobrem todo o campo da razão prática, sendo necessário introduzir a dimensão da ação regrada ou normada. | ||
| + | * A sociologia compreensiva de tipo weberiano amplia a análise da ação individual ao acrescentar a orientação para outrem, pois uma ação social leva em conta a conduta de outro, seja para opor-se a ela, seja para compor-se com ela. | ||
| + | * A relação social exige que cada agente motive sua ação por símbolos e valores públicos, isto é, por regras que não exprimem apenas desejos individuais tornados comunicáveis. | ||
| + | * Assim como falar implica comprometer-se com regras semânticas e sintáticas de uma comunidade linguística, | ||
| + | * A mediação simbólica, conforme Clifford Geertz, evidencia que a ação social é codificada por sistemas culturais públicos de símbolos em interação. | ||
| + | * A noção de regra ou norma não deve ser reduzida à coerção, pois as normas configuram a ação, dão-lhe forma e sentido, funcionando como programas simbólicos de comportamento. | ||
| + | * Os códigos simbólicos conferem legibilidade à ação humana e podem ser transpostos em uma escrita cultural, como ocorre na etnografia. | ||
| + | * A ação mediada por símbolos confirma sociologicamente a noção de razão de agir e, ao introduzir normas e regras, amplia o raciocínio prático para além da deliberação sobre meios. | ||
| + | * A deliberação passa a incidir também sobre fins, abrindo uma distância reflexiva em que pretensões normativas opostas se confrontam e a razão prática opera como juízo e arbitragem. | ||
| + | * Ideologia e utopia podem surgir nesse espaço reflexivo porque a representação se distancia das mediações simbólicas imanentes à ação. | ||
| + | * No plano coletivo, as representações funcionam como sistemas de justificação e legitimação do ordem estabelecida ou de uma ordem alternativa, | ||
| + | * A passagem da ideologia integradora à ideologia como distorção sistemática e mistificação exige ainda um percurso ulterior. | ||
| + | * O conceito de razão prática, nesse estágio, reencontra a phronèsis aristotélica como sabedoria prática mais ampla do que a preferência raciocinada. | ||
| + | * A phronèsis coordena preferência raciocinada, | ||
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| + | **III. O momento kantiano: se a razão, enquanto tal, pode ser prática** | ||
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| + | * A questão kantiana da razão prática não pode ser eliminada nem hipostasiada, | ||
| + | * Kant colocou a liberdade no centro da problemática prática, fazendo da liberdade prática uma determinação da liberdade. | ||
| + | * O conceito filosófico de liberdade emerge em Kant de uma situação aporética da filosofia especulativa, | ||
| + | * A passagem pelo problema da liberdade produz uma ruptura entre raciocínio prático e razão prática, deslocando a análise para além do uso ordinário dos conceitos de ação. | ||
| + | * Kant concebeu a razão prática como determinação recíproca da liberdade e da lei, de modo que a razão se torna prática ao determinar a vontade a priori por uma lei da liberdade. | ||
| + | * O conceito kantiano de razão prática é incontornável, | ||
| + | * A noção aristotélica de arétè, entendida como excelência, | ||
| + | * A ideia de que a razão comanda por si mesma, sem consideração pelo desejo, produz dicotomias prejudiciais à ação, como forma contra conteúdo, lei contra máxima, dever contra desejo e imperativo contra felicidade. | ||
| + | * O projeto de construir a Crítica da Razão Prática sobre o modelo da Crítica da Razão Pura desconhece a especificidade do agir humano, que exige transições e mediações, | ||
| + | * A regra de universalização deve ser entendida como critério de controle da boa-fé das máximas, e não como princípio supremo capaz de fundar uma ciência da práxis. | ||
| + | * A ideia de uma ciência da prática é perigosa, pois o agir pertence ao domínio das coisas mutáveis e decidíveis, | ||
| + | * A razão prática deve ser reconduzida à região média entre o lógico e o alógico, recuperando uma crítica adequada à esfera do agir humano e não derivada da razão pura. | ||
| + | * A passagem por Kant é necessária para determinar a razão prática, mas não autoriza permanecer no horizonte kantiano. | ||
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| + | **IV. A tentação hegeliana** | ||
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| + | * A crítica de Kant aproxima-se de Hegel, mas a concepção hegeliana da ação permanece uma tentação à qual é preciso resistir, embora contenha elementos decisivos. | ||
| + | * A Sittlichkeit hegeliana seduz porque situa as fontes da ação sensata na vida ética concreta, nas tradições sedimentadas e nas interpretações que mantêm eficaz a fundação da comunidade. | ||
| + | * A vida ética concreta forma o sistema de crenças axiológicas que regula o permitido e o proibido em uma comunidade. | ||
| + | * A moralidade kantiana constitui, diante da Sittlichkeit, | ||
| + | * O momento da moralidade abstrata é necessário porque a modernidade vive a alienação em relação à tradição como componente inevitável de sua relação com o passado transmitido. | ||
| + | * A moralidade abstrata torna-se insustentável pelas contradições que engendra, sobretudo pelas dicotomias internas ao agir humano e pela elevação da universalização a princípio supremo. | ||
| + | * A crítica da moralidade abstrata permite valorizar o conceito hegeliano de vontade, no qual universalidade, | ||
| + | * A vontade singular, em Hegel, une sentido e individualidade ao particularizar-se em uma obra sem perder sua universalidade reflexiva. | ||
| + | * Pensar a singularidade como individualidade sensata é um ganho decisivo para reconstruir a razão prática moderna, análogo ao desejo deliberado e à phronèsis na antiguidade. | ||
| + | * O passo seguinte em direção à filosofia política hegeliana torna-se tentador porque promete uma síntese concreta entre liberdade e norma nas instituições. | ||
| + | * Hegel busca nas estruturas da família, da economia e da política as mediações concretas que faltavam à lei vazia kantiana, propondo uma Sittlichkeit institucional posterior à moralidade abstrata. | ||
| + | * A ética concreta hegeliana retoma, em horizonte pós-kantiano, | ||
| + | * A filosofia hegeliana do Estado renova a visão arquitônica da política, na qual o indivíduo encontra sentido e satisfação em uma instituição de direito. | ||
| + | * A ideia hegeliana de ação sensata na vida política ainda permanece insuperada e mesmo não plenamente alcançada, sobretudo diante da regressão contemporânea da mediação institucional da liberdade. | ||
| + | * A recusa moderna das instituições em nome de uma liberdade selvagem esquece que, sem mediação institucional, | ||
| + | * A hesitação diante de Hegel não concerne à síntese entre liberdade e instituição, | ||
| + | * A elevação do Geist acima da consciência individual e da intersubjetividade ameaça produzir a hipóstase do Estado como entidade quase divina. | ||
| + | * A recusa da hipóstase do Estado exige explorar a alternativa husserliana de derivar comunidades superiores, como o Estado, da constituição intersubjetiva de outrem. | ||
| + | * A sociologia compreensiva de Max Weber realiza melhor o projeto husserliano ao explicar ação social, ordem legítima e legitimação do poder por indivíduos em relação recíproca, sem recorrer a um suplemento de espírito. | ||
| + | * As instituições devem ser entendidas como objetivações ou reificações de relações intersubjetivas, | ||
| + | * A hipóstase do espírito objetivo possui também sentido epistemológico, | ||
| + | * A pretensão de saber em ética e política é teoricamente ruinosa e praticamente perigosa, pois abre caminho para que indivíduos, | ||
| + | * Se o Estado deriva de relações intersubjetivas objetivadas e alienadas, seu conhecimento permanece probabilístico e vinculado ao curso das coisas humanas, sem transformar a razão prática em teoria da práxis. | ||
| + | * A razão prática deve manter seu estatuto médio entre a ciência das coisas necessárias e as opiniões arbitrárias, | ||
| + | * Ao perder a pretensão teorética de saber, a razão prática recupera função crítica diante do afastamento entre a ideia de uma constituição política satisfatória e a realidade empírica do Estado. | ||
| + | * A função crítica da razão prática consiste em desmascarar os mecanismos de distorção pelos quais objetivações legítimas do vínculo comunitário se transformam em alienações intoleráveis. | ||
| + | * As objetivações legítimas são normas, regras e mediações simbólicas que fundam a identidade comunitária, | ||
| + | * A crítica das ideologias incorpora-se à razão prática como seu momento crítico. | ||
| + | * As ideologias, enquanto representações de segundo grau das mediações simbólicas da ação, possuem função positiva de integração, | ||
| + | * A crítica das ideologias deve atingir as raízes das distorções nas relações dissimuladas entre trabalho, poder e linguagem, apreendendo sua função de legitimação do poder estabelecido ou de poderes alternativos. | ||
| + | * A crítica das ideologias permite reconverter a razão prática do saber à crítica, desde que não se erija ela mesma em saber absoluto na oposição simplista entre ciência e ideologia. | ||
| + | * Não há lugar totalmente exterior às ideologias, pois a crítica nasce no interior delas e só se eleva acima das opiniões arbitrárias mediante a ideia moral de autonomia como impulso utópico. | ||
| + | * A razão prática não existe sem sabedoria prática, mas, em situações de alienação, | ||
