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| + | ====== Iniciativa ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **A iniciativa** | ||
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| + | * A meditação filosófica sobre a iniciativa visa esclarecer a posição do presente pessoal e histórico na arquitetura do tempo e, ao mesmo tempo, desenvolver seu alcance prático, ético e político como presente vivo, ativo e operante que responde às dificuldades da especulação. | ||
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| + | **I** | ||
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| + | * A reflexão pura sobre o presente encontra aporias herdadas de Agostinho, Kant, Husserl, Bergson e Heidegger, mas deve concentrar-se apenas nas dificuldades relativas ao presente. | ||
| + | * O presente só é pensado em oposição ao passado e ao futuro, ora como origem que projeta horizontes para trás e para diante, ora como trânsito em que expectativa e memória se cruzam. | ||
| + | * A relação entre presente, passado e futuro pode ser externa, quando as três dimensões se distinguem como não mais, ainda não e é, ou interna, quando passado e futuro aparecem como modificações positivas do próprio presente. | ||
| + | * A triplicidade do presente como presente do futuro, presente do passado e presente do presente confirma simultaneamente sua condição de origem e sua distensão íntima como passagem. | ||
| + | * A oposição entre presente e instante introduz uma terceira dialética, pois o presente vivo comporta espessura de iminência e recência, enquanto o instante exprime a incidência pontual, irruptiva e representável do agora. | ||
| + | * O instante tem direito próprio porque permite representar, | ||
| + | * A polaridade entre tempo fenomenológico e tempo cosmológico é especulativamente insuperável, | ||
| + | * A polaridade entre presente vivo e instante qualquer deve ser mantida como limite da fenomenologia do tempo, pois há um agora do presente vivido e um agora qualquer produzido por cortes no contínuo da mudança. | ||
| + | * A prática articula-se a esse paradoxo especulativo mediante a iniciativa, que oferece uma síntese prática entre presente vivo e instante qualquer. | ||
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| + | **II** | ||
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| + | * A preparação da síntese prática entre tempo sem presente e tempo com presente exige introduzir um terceiro tempo, expresso privilegiadamente pelo calendário. | ||
| + | * O calendário nasce na junção entre o tempo astronômico dos astros e o tempo cotidiano ou festivo dos ritmos biológicos e sociais, harmonizando trabalhos, dias, festas, estações e anos. | ||
| + | * Todo calendário escolhe um evento fundador que abre uma nova era e funciona como ponto zero ou momento axial a partir do qual os acontecimentos podem ser datados. | ||
| + | * A partir do momento axial, o tempo pode ser percorrido nos dois sentidos, do passado ao presente e do presente ao passado, incluindo a vida pessoal e comunitária nessa dupla orientação. | ||
| + | * O calendário utiliza unidades de medida derivadas de recorrências cósmicas, como dia, ano e mês, permitindo nomear intervalos constantes. | ||
| + | * O tempo calendárico reúne componentes físicos e fenomenológicos, | ||
| + | * A data faz coincidir um instante qualquer com um quase-presente, | ||
| + | * A data só se determina como futura ou passada em relação ao presente da enunciação, | ||
| + | * O tempo calendárico ocupa posição mediana, cosmologizando o tempo vivido e humanizando o tempo cósmico ao fazer coincidir um presente notável com um instante qualquer. | ||
| + | * A iniciativa encontra seu primeiro modelo no momento axial do calendário, | ||
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| + | **III** | ||
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| + | * A iniciativa deve ser considerada primeiramente no plano individual e depois no plano coletivo. | ||
| + | * No plano individual, começar é experiência decisiva, pois a vida já se encontra marcada pela passividade de um nascimento não escolhido, mas, sobre esse fundo, ainda pode dar novo curso às coisas. | ||
| + | * A inteligibilidade da iniciativa individual pertence à categoria do fazer e não do ver, pois o começo deve ser pensado como ato de começar e como aquilo que se faz acontecer. | ||
| + | * A categoria do “eu posso”, segundo Merleau-Ponty, | ||
| + | * A teoria da ação esclarece a iniciativa ao distinguir ações de base, que se sabe poder fazer sem ação prévia, e aquilo que se faz acontecer mediante essas ações. | ||
| + | * A distinção entre observar o curso das coisas e intervir no mundo impede extrapolar determinismos parciais ao universo inteiro, pois o fazer mostra que a realidade não é totalizável. | ||
| + | * A teoria dos sistemas permite pensar a intervenção como junção entre o poder-fazer do agente e as relações internas de condicionalidade de um sistema fechado. | ||
| + | * A intervenção isola um sistema, põe-no em movimento a partir de um estado inicial e mostra que a ação está implicada na própria descoberta das relações causais. | ||
| + | * A explicação causal nunca alcança completamente a convicção do poder-fazer, | ||
| + | * A iniciativa implica responsabilidade, | ||
| + | * Os atos de linguagem comprometem o locutor, especialmente os comissivos, cujo paradigma é a promessa, na qual alguém se coloca sob obrigação de fazer algo. | ||
| + | * Toda iniciativa comporta uma intenção de fazer e, portanto, um compromisso, | ||
| + | * A fidelidade à palavra dada garante que o começo tenha uma sequência e que a iniciativa inaugure efetivamente um novo curso das coisas. | ||
| + | * A análise da iniciativa atravessa quatro fases: poder, fazer, intervir e perseverar na promessa. | ||
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| + | **IV** | ||
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| + | * A iniciativa coletiva permite formular a questão do presente histórico dos contemporâneos em contraste com predecessores e sucessores. | ||
| + | * O presente histórico deve ser pensado na interseção entre horizonte de expectativa e espaço de experiência, | ||
| + | * O espaço de experiência designa o passado adquirido e estratificado, | ||
| + | * O horizonte de expectativa inclui esperança, temor, desejo, vontade, cuidado, cálculo e curiosidade, | ||
| + | * Espaço de experiência e horizonte de expectativa não são simétricos, | ||
| + | * O presente histórico nasce da variação incessante entre horizonte de expectativa e espaço de experiência. | ||
| + | * A filosofia das Luzes introduziu uma nova percepção do presente histórico como puxado por expectativas, | ||
| + | * A ideologia do progresso foi abalada pela história efetiva, pela suspeita sobre a razão instrumental, | ||
| + | * O presente moderno pode refletir-se como crise quando o horizonte de expectativa recua para um futuro incerto e o presente se vê dividido entre um passado ultrapassado e um fim último sem etapas intermediárias. | ||
| + | * A ideia de domínio da história é particularmente vulnerável e perigosa, pois ignora os efeitos perversos da ação, a imprevisibilidade das expectativas e o fato de que a ação histórica ocorre em circunstâncias não produzidas por ela. | ||
| + | * A ligação entre ação histórica e passado recebido preserva a dialética entre horizonte de expectativa e espaço de experiência. | ||
| + | * A crítica aos lugares comuns do progresso não deve negar a validade das categorias de horizonte de expectativa e espaço de experiência, | ||
| + | * A variação histórica entre experiência e expectativa revela a temporalização da história e confere às categorias de Koselleck seu estatuto meta-histórico. | ||
| + | * A implicação política dessas categorias é que deve ser preservada a tensão entre horizonte de expectativa e espaço de experiência para que ainda haja história. | ||
| + | * É preciso resistir às expectativas puramente utópicas, pois, sem ancoragem na experiência, | ||
| + | * As expectativas devem ser determinadas, | ||
| + | * A tarefa kantiana de uma história comum da humanidade permanece válida, desde que inclua direitos sociais e direitos à diferença sem abandonar o Estado de direito como condição de sujeitos individuais e coletivos de direito. | ||
| + | * Também é preciso resistir ao estreitamento do espaço de experiência, | ||
| + | * A tarefa consiste em tornar as expectativas mais determinadas e as experiências mais indeterminadas, | ||
| + | * A força do presente, nomeada por Nietzsche na Segunda consideração intempestiva, | ||
| + | * Nietzsche concebe a interrupção que o presente vivo opera sobre a fascinação exercida pelo passado, especialmente quando a historiografia torna o passado uma abstração fechada em si mesma. | ||
| + | * A reflexão intempestiva privilegia a vida contra o saber livresco e exige saber esquecer quando o passado histórico se torna fardo insuportável. | ||
| + | * A história crítica é necessária quando a história monumental e a história antiquária impedem a ação vital do presente sobre o passado. | ||
| + | * A força superior do presente dá o direito de interpretar o passado e de reconhecer a grandeza antiga a partir da grandeza atual. | ||
| + | * A força do presente é a capacidade histórica de refigurar o tempo, reativando potencialidades não cumpridas do passado transmitido em função de visões éticas e políticas do futuro. | ||
