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| + | ====== Hermenêutica Filosófica ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **Hermenêutica filosófica e hermenêutica bíblica** | ||
| + | * O propósito é explorar a contribuição da hermenêutica filosófica à exegese bíblica, admitindo entre as duas hermenêuticas uma relação complexa de inclusão mútua: num primeiro movimento, as mesmas categorias de obra, escrita, mundo do texto, distanciação e apropriação regulam a interpretação em ambas, fazendo da hermenêutica bíblica uma hermenêutica regional subordinada à hermenêutica filosófica geral; mas é justamente ao tratá-la como hermenêutica aplicada que se revela um rapport inverso, no qual a hermenêutica teológica acaba por subordinar a si a hermenêutica filosófica como seu próprio organon. | ||
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| + | **I. As " | ||
| + | * A primeira " | ||
| + | * A confissão de fé expressa nos documentos bíblicos é inseparável das formas de discurso — a estrutura narrativa do Pentateuco e dos Evangelhos, a estrutura oracular das profecias, a parábola, o hino —, sendo teologicamente significativa a tensão entre essas formas, como a oposição entre narração e profecia, e podendo mesmo a clausura do cânon ser considerada um ato estrutural fundamental que delimita o espaço de jogo das formas de discurso. | ||
| + | * Três problemas se colocam sob o título das formas do discurso bíblico: a afinidade entre uma forma de discurso e uma modalidade de confissão de fé, a relação entre um par de estruturas e a tensão correspondente na mensagem teológica, e a relação entre a configuração de conjunto do corpus literário e o espaço de interpretação por ela aberto, dívida reconhecida sobretudo a Gerhard von Rad e confirmada nos trabalhos de A. N. Wilder e W. A. Beardslee sobre o Novo Testamento. | ||
| + | * O exemplo da narração é o mais marcante: algo específico é dito sobre Javé e suas relações com Israel precisamente porque é dito sob a forma de um relato dos eventos de libertação do passado, como exprime o conceito de teologia das tradições de von Rad, que organiza o grande relato a partir do Credo primitivo de Deuteronômio 26, ligando indissoluvelmente a dimensão narrativa e a dimensão querigmática, | ||
| + | * A tensão entre narração e profecia é exemplar: a oposição entre a crônica e o oráculo se prolonga na percepção do tempo e no sentido do divino, de modo que, com a profecia, o Deus do Êxodo deve tornar-se o Deus do Exílio para permanecer o Deus do futuro e não apenas o Deus da memória, sendo possível supor que todas as formas de discurso bíblico constituam um sistema circular cujo conteúdo teológico recebe sentido da constelação total das formas, sem que se possa interpretar as significações sem o longo desvio de uma explicação estrutural das formas. | ||
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| + | **II. A Palavra e a escrita** | ||
| + | * A segunda aplicação da hermenêutica geral à exegese diz respeito ao par palavra-escrita, | ||
| + | * Em todos os estágios, a palavra mantém relação com a escrita: ela interpreta uma escritura anterior — como Jesus interpreta a Torá e Paulo interpreta o evento crístico à luz das profecias — e, por sua vez, torna-se nova escritura, como as cartas que se tornam cartas para toda a cristandade e os evangelhos que se somam até o fechamento do cânon, constituindo assim, desde o início, uma situação hermenêutica em que testemunho e interpretação do testemunho já contêm o elemento de distanciação que torna possível a escrita, atestada pela diferença insuperável entre os quatro evangelhos. | ||
| + | * O que parece primeiro é a cadeia palavra-escritura-palavra ou escritura-palavra-escritura, | ||
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| + | **III. O ser novo e a coisa do texto** | ||
| + | * A coisa do texto, ou o mundo do texto, é a categoria central tanto da hermenêutica filosófica quanto da bíblica, sobre a qual se articulam todas as demais — objetivação pela estrutura, distanciação pela escrita, compreensão de si —, sendo esse mundo aquele que o texto desdobra diante de si, tomando distância em relação à realidade cotidiana. | ||
| + | * Aplicar essas considerações à exegese bíblica, tratando a Bíblia como uma categoria de textos entre outras, é justamente o que possibilita a inversão que faz da hermenêutica geral o organon da hermenêutica bíblica, livrando-a da tentação de introduzir prematuramente categorias existenciais de compreensão, | ||
| + | * Colocar acima de tudo a coisa do texto significa deixar de tratar a inspiração das Escrituras em termos psicologizantes de insuflação de sentido a um autor, devendo antes ser dita da coisa que a Bíblia diz — o ser novo que ela desdobra —, sendo a revelação um traço do mundo bíblico e não uma comunicação psicológica direta. | ||
| + | * O mundo bíblico não é portado imediatamente por intenções psicológicas, | ||
| + | * Por se tratar de um mundo, no sentido de um horizonte global, não há privilégio de princípio para uma instrução dirigida à pessoa individual nem para os aspectos personalistas da relação Eu-Tu com Deus, pois o mundo bíblico tem aspectos cósmicos, comunitários, | ||
| + | * Assim como o mundo do texto literário é um mundo projetado que se distancia poeticamente da realidade cotidiana, o ser novo proposto pela Bíblia abre, na realidade quotidiana, a realidade do possível, retomando a observação de Heidegger sobre o Verstehen como decifração de nossos possíveis mais próprios a partir de uma situação em que já estamos lançados, o que em linguagem teológica significa que o reino de Deus vem e apela aos nossos possíveis mais próprios a partir de um sentido que não vem de nós. | ||
| + | * Essa via da aplicação de uma categoria hermenêutica geral à hermenêutica bíblica, tratada como hermenêutica regional, é a única capaz de reconhecer ao mesmo tempo a especificidade da coisa bíblica — como sustenta Ebeling —, sem recorrer a um conceito psicológico de inspiração, | ||
| + | * A centralidade do referente " | ||
| + | * A hermenêutica bíblica é, assim, ao mesmo tempo um caso particular da hermenêutica geral, pois o ser novo de que fala a Bíblia só é buscado no mundo desse texto entre outros, e um caso único, pois todos os discursos parciais remetem a um Nome que é ponto de intersecção e índice de incompletude, | ||
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| + | **IV. A constituição hermenêutica da fé bíblica** | ||
| + | * Interrogam-se as implicações teológicas da quarta categoria da hermenêutica centrada no texto, a categoria existencial por excelência da apropriação, | ||
| + | * A primeira consequência é que aquilo que a linguagem teológica chama fé é constituído pelo ser novo que é a coisa do texto, resistindo a toda redução psicologizante da fé, ainda que esta permaneça, em seu caráter pré-linguístico, | ||
| + | * A segunda consequência resulta da distanciação que a reflexão hermenêutica revela no cerne da compreensão de si como " | ||
| + | * A terceira consequência diz respeito ao aspecto positivo da distanciação a si mesmo implicada por toda compreensão de si diante do texto, sendo a desconstrução das ilusões do sujeito apenas o aspecto negativo da imaginação: | ||
