estudos:ricoeur:tempo-relato:tempo-vivido
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| + | ====== Tempo Vivido ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.// | ||
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| + | Entre le temps vécu et le temps universel : le temps historique | ||
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| + | **Entre o tempo vivido e o tempo universal: o tempo histórico** | ||
| + | * Além da oposição entre a especulação sobre a história universal e a epistemologia da escrita da história, uma terceira via consiste em refletir sobre o lugar do tempo histórico entre o tempo fenomenológico e o tempo que a fenomenologia não consegue constituir, chamado tempo do mundo ou tempo objetivo. | ||
| + | * A história revela sua capacidade criadora de refiguração do tempo por meio de instrumentos de pensamento como o calendário, | ||
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| + | **O tempo calendário** | ||
| + | * O tempo calendário é a primeira ponte lançada pela prática historiadora entre o tempo vivido e o tempo cósmico, constituindo a invenção de um terceiro-tempo que é a sombra projetada, no plano da prática historiadora, | ||
| + | * O tempo mítico regula o tempo das sociedades sobre o tempo cósmico ao ordenar entre si ciclos de duração diferente, sendo pela mediação do rito que se revela raiz comum do tempo do mundo e do tempo dos homens, ao passo que o mito alarga o tempo ordinário e o rito aproxima o tempo mítico da esfera profana da ação. | ||
| + | * Seguindo Émile Benveniste, o "tempo crônico" | ||
| + | * O tempo calendário toma emprestado ao tempo físico suas propriedades de continuum uniforme, infinito, linear, segmentável à vontade, mas o princípio de sua divisão — o momento axial — escapa à física e à astronomia, remetendo à noção fenomenológica de presente, sem a qual não poderíamos dar sentido a um acontecimento novo que rompe com uma era anterior, nem à ideia de percurso bidirecional, | ||
| + | * O momento axial confere ao tempo calendário um caráter " | ||
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| + | **A sucessão das gerações: contemporâneos, | ||
| + | * A segunda mediação proposta pela prática historiadora é a sucessão das gerações, cujo escoramento biológico sucede ao escoramento astronômico do calendário, | ||
| + | * Kant já recorria à ideia de geração na Ideia de uma história universal do ponto de vista cosmopolita, | ||
| + | * Dilthey distingue o pertencimento à mesma geração, marcado pelas mesmas influências e mudanças, da sucessão das gerações propriamente dita, um " | ||
| + | * Alfred Schutz, cruzando a fenomenologia genética e a fenomenologia da intersubjetividade, | ||
| + | * O mundo dos predecessores mantém, todavia, uma zona de recobrimento parcial com a memória individual, ilustrada pelo récit ancestral transmitido pelos avós, que serve de relé entre a memória e o passado histórico, concebido como tempo dos mortos e tempo anterior ao meu nascimento. | ||
| + | * Duas consequências decorrem desse papel conector: a primeira concerne à morte anônima na escrita da história, visada obliquamente pela substituição das gerações e ultrapassada de imediato pela atribuição incessante dos papéis a novos atores, sem que a história, contudo, possa jamais eliminar de todo a morte de seu campo de atenção sem perder sua qualidade histórica; a segunda, mais notável, concerne ao simbolismo opaco que reveste ancestrais e sucessores, ocupando o lugar de um Outro absoluto, como atesta o postulado kantiano de uma humanidade imortal composta de indivíduos mortais. | ||
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| + | **Arquivos, documento, traço** | ||
| + | * A noção de traço constitui o derradeiro conector entre as perspectivas sobre o tempo dissociadas pela especulação, | ||
| + | * As definições enciclopédicas de arquivo isolam três características — o remisão à noção de documento, a relação a uma instituição e a finalidade de conservação —, sobre as quais uma sociologia pode legitimamente denunciar o caráter ideológico da discriminação que preside à conservação dos documentos. | ||
| + | * A crítica de primeiro grau da noção de documento observa que qualquer traço deixado pelo passado se torna documento desde que o historiador saiba interrogá-lo, | ||
| + | * Renunciar às noções de traço e testemunho do passado em favor de uma nova ciência histórica fundada em bancos de dados equivaleria, | ||
| + | * A fonte de autoridade do documento é, assim, a significância ligada ao traço, definido pelo senso comum como vestígio de uma passagem ou marca deixada por uma coisa, combinando uma relação de significância — o vestígio de uma passagem — e uma relação de causalidade inscrita na coisidade da marca, o que faz do traço um efeito-signo e um conector entre duas perspectivas sobre o tempo. | ||
| + | * É na medida em que o traço marca no espaço a passagem do objeto da busca que ele remete ao tempo do calendário e, além dele, ao tempo astral, tornando-se documento datado, o que permite retomar o problema, deixado em aberto por Heidegger, da relação entre a temporalidade do Cuidado e o tempo " | ||
| + | * Heidegger distingue o ente que já não existe (vergangen) do Dasein " | ||
| + | * A significância do traço não pode, contudo, ser inteiramente dada conta sem recorrer também ao "tempo vulgar", | ||
| + | * O traço ilustra assim, ao contrário do calendário, | ||
| + | * O traço permanece, assim, um dos instrumentos mais enigmáticos pelos quais o récit histórico refigura o tempo, construindo a junção que opera o recobrimento do existencial e do empírico — problema que já não é do historiador-sábio, | ||
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