estudos:ricoeur:tempo-relato:mimesis
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| + | ====== Mimesis ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.// | ||
| + | **A tríplice mimesis** | ||
| + | * A hipótese fundamental estabelece que existe entre a atividade de narrar uma história e o caráter temporal da experiência humana uma correlação não acidental, mas dotada de necessidade transcultural, | ||
| + | * O abismo cultural entre a análise agostiniana do tempo nas Confissões e a análise aristotélica da intrigue na Poética exige a construção arriscada dos elos intermediários que articulam essa correlação, | ||
| + | * A construção proposta da mediação, intitulada Tempo e Relato como toda a obra, constitui apenas um esboço que ainda exige expansão, crítica e revisão, uma vez que não aborda a bifurcação fundamental entre relato histórico e relato de ficção, reservada às partes seguintes do livro. | ||
| + | * O fio condutor da exploração da mediação entre tempo e relato é a articulação entre os três momentos da mimesis, denominados mimesis I, mimesis II e mimesis III, sendo mimesis II o eixo pivô que institui a literariedade da obra por sua função de corte, mas cujo sentido pleno resulta de sua posição intermediária de mediação entre o aquém e o além. | ||
| + | * Distingue-se a tarefa da semiótica, que pode se estabelecer sobre a mera abstração de mimesis II considerando apenas as leis internas da obra, da tarefa da hermenêutica, | ||
| + | * Toda a estratégia do livro subordina a questão do encadeamento dos três estágios da mimesis à questão inicial da mediação entre tempo e relato, propondo-se desimplicar os aspectos temporais da configuração textual, ignorados por Aristóteles, | ||
| + | * Levanta-se a objeção de círculo vicioso entre o ato de narrar e o ser temporal, objeção aparentemente contornada pela escolha de dois pontos de partida distantes — o tempo em Agostinho e a intrigue em Aristóteles —, mas reforçada ao se atribuir função mediadora à intrigue, admitindo-se o caráter circular da tese sem que isso a reduza a uma tautologia morta. | ||
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| + | **Mimesis I** | ||
| + | * A composição da intrigue enraíza-se numa pré-compreensão do mundo da ação, cujos traços estruturais, | ||
| + | * A inteligibilidade engendrada pela intrigue ancora-se na competência de utilizar significativamente a rede conceitual que distingue estruturalmente o domínio da ação do movimento físico, rede que inclui fins, motivos, agentes, responsabilidade, | ||
| + | * O rapport entre compreensão narrativa e compreensão prática é duplo: de um lado, todo relato pressupõe familiaridade com a rede conceitual da ação, sendo a frase narrativa mínima uma frase de ação; de outro, o relato acrescenta traços sintáticos próprios da ordem sintagmática do discurso, distinta da ordem paradigmática e sincrônica da semântica da ação, sendo a intrigue o equivalente literário dessa ordem sintagmática. | ||
| + | * Ao passar da ordem paradigmática da ação para a ordem sintagmática do relato, os termos da semântica da ação adquirem integração e atualidade, constituindo essa relação dupla entre regras de composição e termos de ação tanto uma relação de pressuposição quanto de transformação. | ||
| + | * O segundo ancoramento da composição narrativa reside nos recursos simbólicos do campo prático, apoiado nos trabalhos de antropólogos como Clifford Geertz, para quem a cultura é pública porque a significação o é, e nos conceitos de sistema simbólico, textura da ação, regra e norma, que conferem à ação uma primeira legibilidade e permitem falar dela como um quase-texto. | ||
| + | * O termo símbolo introduz a ideia de regra e de norma, sentido privilegiado por Peter Winch ao caracterizar a ação significante como rule-governed behaviour, comparando-se os códigos culturais aos códigos genéticos, dos quais tomam o relevo por meio de costumes e da Sittlichkeit hegeliana. | ||
| + | * As presunções éticas da Poética de Aristóteles, | ||
| + | * O terceiro traço da pré-compreensão da ação concerne aos caracteres temporais que preparam a narração, retomando a tese agostiniana do triplo presente para reescrever o presente do futuro, do passado e do presente em termos da práxis cotidiana, articulação que constitui o mais elementar indutor de relato. | ||
| + | * O recurso à analítica existencial de Heidegger privilegia a estrutura da intratemporalidade (Innerzeitigkeit), | ||
| + | * O " | ||
| + | * Imitar ou representar a ação é, portanto, antes de mais nada, pré-compreender o agir humano em sua semântica, simbólica e temporalidade, | ||
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| + | **Mimesis II** | ||
| + | * Com mimesis II abre-se o reino do como se, termo reservado aqui para opor relato de ficção a relato histórico, ao passo que composição ou configuração designa a atividade que não envolve os problemas de referência e verdade, correspondendo ao muthos aristotélico definido como agenciamento dos fatos. | ||
| + | * Situar mimesis II entre um estágio anterior e um posterior visa compreender sua função de mediação entre o aquém e o além da configuração, | ||
| + | * A intrigue é mediadora entre acontecimentos individuais e uma história tomada como um todo, retirando de uma simples sucessão uma configuração inteligível cujo tema pode sempre ser interrogado. | ||
| + | * A intrigue compõe fatores heterogêneos como agentes, fins, meios, interações e circunstâncias, | ||
| + | * A intrigue é mediadora, enfim, por seus próprios caracteres temporais, podendo ser chamada, por generalização, | ||
| + | * A capacidade da história de se deixar seguir constitui a solução poética do paradoxo da distensão e da intenção, convertendo o paradoxo em dialética viva: a dimensão episódica puxa o tempo narrativo para a representação linear, enquanto a dimensão configurante impõe à sucessão o sentido do ponto final e permite ler o fim no começo e o começo no fim, invertendo a ordem dita natural do tempo. | ||
| + | * A configuração narrativa apresenta ainda dois traços complementares que asseguram a continuidade do processo entre mimesis II e mimesis III: a esquematização, | ||
| + | * A sedimentação produz paradigmas em múltiplos níveis — a forma da concordância discordante, | ||
| + | * A inovação permanece uma conduta regrada que se relaciona de modo variável aos paradigmas da tradição, entre a aplicação servil e o desvio calculado, passando pela deformação regrada, podendo o desvio atuar em relação aos tipos, aos gêneros ou ao próprio princípio formal da concordância-discordância, | ||
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| + | **Mimesis III** | ||
| + | * Mimesis II, remetida à sua inteligibilidade primeira, requer como complemento um terceiro estágio representativo, | ||
| + | * A investigação de mimesis III procede em quatro etapas: verificar se o encadeamento dos três estágios da mimesis marca uma progressão e não um círculo vicioso; mostrar como o ato de leitura prolonga o dinamismo do ato configurante; | ||
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| + | **O círculo da mimesis** | ||
| + | * A suspeita de circularidade viciosa entre mimesis I e mimesis III através de mimesis II é enfrentada preferindo-se falar de uma espiral sem fim, e não de um círculo vicioso, distinguindo-se duas versões da objeção: a violência da interpretação e a redundância da interpretação. | ||
| + | * A primeira versão sustenta que o relato impõe consonância a uma dissonância meramente temporal, reduzindo a solução narrativa do paradoxo a um efeito de violência interpretativa; | ||
| + | * A segunda versão sustenta que mimesis I seria já um efeito de sentido de mimesis III, tornando mimesis II redundante; contra essa objeção invoca-se a noção de estrutura pré-narrativa da experiência, | ||
| + | * A circularidade manifesta de toda análise do relato não constitui uma tautologia morta, mas um círculo bem-disposto no qual os argumentos avançados em ambas as vertentes do problema se apoiam mutuamente. | ||
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| + | **Configuração, | ||
| + | * A transição entre mimesis II e mimesis III é operada pelo ato de leitura, que retoma e completa o ato configurante, | ||
| + | * É o ato de ler que acompanha o jogo da inovação e da sedimentação dos paradigmas, permitindo ao destinatário efetuar os desvios e experimentar o prazer do texto de que fala Roland Barthes, sendo o leitor, segundo Roman Ingarden e Wolfgang Iser, quem completa a obra ao preencher as lacunas e zonas de indeterminação do texto, como no caso extremo do Ulysses de Joyce. | ||
| + | * O ato de leitura é o operador que conjuga mimesis III a mimesis II, restando por coordenar, na quarta parte da obra, os aportes de uma teoria da leitura à maneira de Wolfgang Iser e de uma teoria da recepção à maneira de Robert Jauss, ambas concordando em ver no efeito produzido pelo texto sobre seu receptor uma componente intrínseca de sua significação efetiva. | ||
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| + | **Narratividade e referência** | ||
| + | * Completar uma teoria da escrita por uma teoria da leitura é apenas o primeiro passo rumo a mimesis III, pois uma estética da recepção não pode tratar da comunicação sem tratar também da referência, | ||
| + | * A primeira pressuposição, | ||
| + | * A segunda pressuposição, | ||
| + | * A terceira pressuposição concerne à narratividade em particular, mais simples que a da poesia lírica porque o mundo aqui é apreendido sob o ângulo da práxis humana já pré-significada, | ||
| + | * A referência por traços e a referência metafórica cruzam-se sobre a temporalidade da ação humana, sendo o tempo humano aquilo que a historiografia e a ficção literária refiguram em comum ao cruzarem sobre ele seus modos referenciais. | ||
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| + | **O tempo narrado** | ||
| + | * Delinear os traços temporais de um mundo refigurado pelo ato de configuração retoma a noção de aumento icônico, segundo a qual a intersignificação entre categorias práticas, a simbolização interna à ação e sobretudo o tempo da ação são intensificados pela mise en intrigue. | ||
| + | * Uma teoria do tempo refigurado, ou tempo narrado, exige a mediação de um terceiro parceiro além da epistemologia da historiografia e da crítica literária, a saber a fenomenologia do tempo, cujo desdobramento de Agostinho a Husserl e Heidegger visa demonstrar a impossibilidade de uma fenomenologia pura do tempo isenta do regime aporético já revelado no exame das Confissões. | ||
| + | * A discussão das Lições de Husserl sobre a consciência íntima do tempo constituirá a contraprova maior dessa tese, reconduzindo, | ||
| + | * A análise heideggeriana da temporalidade no Ser e Tempo explora de modo decisivo a hierarquização dos níveis de temporalização já pressentida por Agostinho na dialética entre intenção e distensão, percorrendo a escala da temporalidade radical e mortal ao tempo cotidiano e público, com destaque para o nível intermediário da historialidade (Geschichtlichkeit), | ||
| + | * A originalidade fenomenológica da análise heideggeriana, | ||
| + | * Permanece em aberto o problema do limite superior do processo de hierarquização da temporalidade, | ||
