estudos:ricoeur:tempo-relato:kant
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:ricoeur:tempo-relato:kant [08/07/2026 12:49] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:ricoeur:tempo-relato:kant [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Husserl e Kant ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.// | ||
| + | |||
| + | **O aparecer do tempo: as Lições de Husserl** | ||
| + | * Depois de confrontar Agostinho e Aristóteles, | ||
| + | * A consciência do tempo deve ser entendida como consciência " | ||
| + | * Desde o início, Husserl não pode evitar uma certa homonímia entre o curso da consciência e o curso objetivo do tempo do mundo, homonímias que se repetem ao longo da análise, como se a descrição do tempo imanente não pudesse se constituir sem empréstimos repetidos ao tempo objetivo posto entre parênteses, | ||
| + | * A análise da retenção parte da percepção de um som que dura, chamado tempo-objeto, | ||
| + | * Ao afastar-se do som que dura para o modo de sua persistência, | ||
| + | * A retenção caracteriza-se por uma dupla alteração — encurtamento e obscurecimento progressivos das fases escoadas — sem que isso rompa a continuidade da duração, sendo a intencionalidade longitudinal que assegura a fusão do " | ||
| + | * O diagrama linear do parágrafo 10, embora enriquecido pela linha oblíqua da descida à profundidade e pela vertical que une cada instante presente a essa profundidade, | ||
| + | * A retenção é descrita pelo termo modificação, | ||
| + | * A distinção entre lembrança primária (retenção) e lembrança secundária (relembrança ou Wiedererinnerung) responde à necessidade de dar conta do passado que já não tem, por assim dizer, um pé no presente, sendo ilustrada pelo exemplo da melodia relembrada, cuja diferença em relação à percepção não está no conteúdo, mas no modo de realização — entre percepção e quase-percepção. | ||
| + | * A primeira implicação dessa análise é reforçar, por contraste, a continuidade entre retenção e impressão, já que só a passagem contínua da percepção à não-percepção constitui a constituição temporal propriamente dita, sendo o " | ||
| + | * A relembrança distingue-se, | ||
| + | * A noção de " | ||
| + | * O terceiro nível da constituição, | ||
| + | * A auto-constituição do fluxo, que evita a regressão ao infinito ao afirmar que o fluxo "se constitui a si mesmo como fenômeno", | ||
| + | |||
| + | **Invisibilidade do tempo: Kant** | ||
| + | * O retorno a Kant não visa refutar Husserl, mas encontrar a razão pela qual a fenomenologia husserliana da consciência interna do tempo pede emprestado a estruturas do tempo objetivo que pretende ao mesmo tempo suspender e constituir, esperando-se em contrapartida mostrar que Kant também não pode construir suas pressuposições sobre um tempo que nunca aparece sem tomar emprestado a uma fenomenologia implícita que o modo transcendental de reflexão oculta. | ||
| + | * O que opõe mais evidentemente Kant a Husserl é a afirmação do caráter indireto de toda asserção sobre o tempo: o tempo não aparece, é uma condição do aparecer, estilo argumentativo completo apenas na Analítica dos princípios e nas Analogias da experiência, | ||
| + | * A definição do tempo e do espaço como intuições a priori não confere caráter intuitivo à própria asserção desse estatuto, pois o sentido interno não cessa de perder o direito de se constituir em fonte distinta de conhecimento de si ao longo da Crítica, remanescendo apenas uma referência nunca tematizada ao Gemüt. | ||
| + | * A questão ontológica que abre a Estética — "que são o espaço e o tempo?" | ||
| + | * A prioridade dada ao exame do espaço sobre o do tempo na Estética deve-se ao peso da geometria como ciência de relações e de proposições sintéticas não analiticamente demonstráveis, | ||
| + | * A exposição metafísica repousa no paralelismo rigoroso entre as propriedades do espaço e do tempo, com quatro argumentos refutativos: | ||
| + | * Uma fenomenologia incoativa perpassa, contudo, essa argumentação por pressuposição, | ||
| + | * O argumento sobre a infinitude do tempo, mais específico que o do espaço, exigindo que "a representação originária do tempo seja dada como ilimitada", | ||
| + | * A Analítica revela a razão principal da não fenomenalidade do tempo enquanto tal: a teoria do esquematismo não confere ao tempo o aparecer que a Estética lhe recusou, pois a " | ||
| + | * As Analogias da experiência são as mais ricas em notações sobre a determinação transcendental do tempo como ordem: a primeira analogia estabelece que os três modos do tempo são permanência, | ||
| + | * A segunda analogia, relativa à sucessão segundo a lei da causalidade, | ||
| + | * A terceira analogia, da comunidade ou reciprocidade, | ||
| + | * O texto sobre a Selbstaffektion, | ||
| + | * A Refutação do Idealismo, acrescentada na segunda edição, radicaliza esse vínculo entre tempo e espaço ao nível da própria consciência de existência, | ||
| + | * A confrontação entre Husserl e Kant conduz a um impasse comparável ao que opôs Agostinho e Aristóteles: | ||
| + | * A filiação entre Agostinho e Husserl é a mais fácil de reconhecer, sendo a fenomenologia da retenção e da lembrança primária e secundária uma forma refinada da dialética do triplo presente e da intentio-distentio animi; já a aproximação entre Kant e Aristóteles, | ||
| + | * Esse reaproximação lança nova luz sobre a relação entre Kant e Husserl: a oposição entre eles não é apenas formal — entre a intuitividade do tempo husserliano e a invisibilidade do tempo kantiano —, mas material, entre um tempo que, como a distentio animi agostiniana, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
