estudos:ricoeur:tempo-relato:historia-ficcao
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:ricoeur:tempo-relato:historia-ficcao [08/07/2026 13:06] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:ricoeur:tempo-relato:historia-ficcao [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== História e Ficção ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.// | ||
| + | |||
| + | **O entrecruzamento da história e da ficção** | ||
| + | * Este capítulo alcança o objetivo que regeu toda a investigação, | ||
| + | * Essa passagem foi preparada de longa data pela comensurabilidade que a fenomenologia assegurou entre os dois modos narrativos, ambos às voltas com as mesmas aporias, e pelo espaço comum criado pela teoria da leitura, já que também se é leitor de história tanto quanto de romance, sendo por isso na leitura que se situa o entrecruzamento. | ||
| + | * Por entrecruzamento entende-se a estrutura pela qual história e ficção só concretizam sua intencionalidade respectiva tomando emprestada a intencionalidade da outra, concretização que corresponde ao fenômeno do " | ||
| + | |||
| + | **A ficcionalização da história** | ||
| + | * O lugar vazio do imaginário já se marca no caráter não observável do ter-sido, crescendo a parte do imaginário à medida que a aproximação se torna mais estreita, como mostra o exemplo do gnômon, comentado por J. T. Fraser: interpretar a sombra projetada supõe uma atividade de tradução e interpretação que já é, em germe, a leitura de signos própria de todo conector do tempo. | ||
| + | * O calendário repousa igualmente numa síntese imaginária, | ||
| + | * O papel mediador do imaginário se intensifica na passagem da reinscrição cósmica à passeidade do passado: em Collingwood, | ||
| + | * A escrita da história toma emprestado da literatura não apenas ao nível da composição, | ||
| + | * Esse efeito de ficção multiplica-se pelas estratégias retóricas do pacto de leitura, que leva o leitor a conceder ao historiador o direito exorbitante de conhecer as almas, produzindo o que se pode chamar de ilusão controlada — como na pintura da Revolução Francesa por Michelet, comparável a Guerra e Paz de Tolstói, mas em sentido inverso, indo da ficção rumo à história. | ||
| + | * Uma derradeira modalidade de ficcionalização concerne aos eventos " | ||
| + | |||
| + | **A historicização da ficção** | ||
| + | * Levanta-se reciprocamente a hipótese de que o récit de ficção imita de certa forma o récit histórico: narrar qualquer coisa é narrá-la como se tivesse acontecido, sendo um primeiro indício desse "como se passado" | ||
| + | * Contra essa dissociação radical, propõe-se que os eventos narrados numa ficção são fatos passados para a voz narrativa, identificada ao autor implícito, de modo que entrar na leitura é incluir no pacto entre leitor e autor a crença de que os eventos relatados pertencem ao passado dessa voz — hipótese que torna a ficção quase histórica tanto quanto a história é quase fictícia, sendo esse rapport circular: é enquanto quase histórica que a ficção confere ao passado a vivacidade evocativa que faz de um grande livro de história uma obra-prima literária. | ||
| + | * Uma segunda razão para reter o "como se passado" | ||
| + | * Essa afinidade profunda entre o verossímil da pura ficção e as potencialidades não efetuadas do passado histórico explica por que a liberdade da ficção em relação às restrições documentais da história não é a última palavra sobre sua liberdade: livre da coação exterior da prova documental, a ficção permanece interiormente ligada ao serviço do quase-passado, | ||
| + | * O entrecruzamento entre história e ficção na refiguração do tempo repousa, em última análise, nesse empenho recíproco — o momento quase histórico da ficção trocando de lugar com o momento quase fictício da história —, do qual procede o que se convencionou chamar tempo humano, no qual se conjugam a representância do passado pela história e as variações imaginativas da ficção, sobre o pano de fundo das aporias da fenomenologia do tempo, restando ainda examinar a que espécie de totalização esse tempo assim refigurado se presta. | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
