estudos:ricoeur:tempo-relato:historia
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| + | ====== Intencionalidade Histórica ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.// | ||
| + | **Introdução** | ||
| + | * Este capítulo explora o vínculo indireto que deve ser preservado entre a historiografia e a competência narrativa analisada no terceiro capítulo da primeira parte, vínculo esse que não pode ser direto, como resulta da confrontação entre os dois capítulos anteriores. | ||
| + | * A cisão epistemológica entre o conhecimento histórico e a competência de seguir uma história afeta esta em três níveis — procedimentos, | ||
| + | * Essa autonomização da explicação comporta três corolários que acentuam a ruptura entre história e relato: um trabalho de conceituação ligado ao debate dos universais históricos, | ||
| + | * Uma segunda cisão, semelhante, afeta as entidades que o historiador toma por objeto: enquanto o relato tradicional refere a ação a agentes identificáveis por nome próprio, a história-ciência recorre a entidades anônimas — nações, sociedades, classes, mentalidades —, substituindo os grandes homens hegelianos por forças sociais irredutíveis a agentes individuais, | ||
| + | * Uma terceira cisão resulta das duas anteriores e concerne ao estatuto epistemológico do tempo histórico, que parece dissociado da memória e da espera de agentes individuais, | ||
| + | * Apesar dessa tríplice ruptura epistemológica, | ||
| + | * A crítica do modelo nomológico diversificou a explicação sem renegar sua vocação explicativa, | ||
| + | * Um destino comparável ao do modelo nomológico atingiu assim a tese narrativista simples, que se diversificou até se desintegrar, | ||
| + | * A solução proposta é um método de questionamento regressivo, inspirado na fenomenologia genética de Husserl na Krisis, aplicado agora à intencionalidade da própria historiografia, | ||
| + | * A hipótese de trabalho consiste em explorar por quais vias indiretas o paradoxo do conhecimento histórico transpõe, em grau superior de complexidade, | ||
| + | * A reconstrução seguirá a ordem já apresentada — autonomia dos procedimentos explicativos, | ||
| + | * De modo paralelo, as entidades postas em cena pelo discurso histórico ordenam-se hierarquicamente em torno de entidades de primeiro grau — povos, nações, civilizações — que servem de objeto transicional entre os artefatos da historiografia e os personagens de um relato possível, constituindo quase-personagens. | ||
| + | * Por fim, será preciso mostrar que o tempo construído pelo historiador se ergue sobre a temporalidade configurada de mimesis II ao mesmo tempo que remete à temporalidade práxica de mimesis I, buscando-se no destino do acontecimento histórico o índice desse duplo movimento de afastamento e de reenvio. | ||
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| + | **A imputação causal singular** | ||
| + | * A imputação causal singular é o procedimento explicativo que faz a transição entre a causalidade narrativa do um-por-causa-do-outro aristotélico e a causalidade explicativa do modelo nomológico, | ||
| + | * A exposição mais precisa dessa lógica encontra-se no estudo crítico de Max Weber sobre Eduard Meyer, complementado pela Introduction à la philosophie de l’histoire de Raymond Aron, consistindo essencialmente em construir imaginativamente um curso diferente de acontecimentos, | ||
| + | * Esse raciocínio olha simultaneamente para dois lados — para a mise en intriga e para a explicação científica —, sendo o historiador, | ||
| + | * A imputação causal comporta uma análise fina em fatores segundo o interesse histórico do investigador, | ||
| + | * O verdadeiro traço distintivo de cientificidade advém da aplicação, | ||
| + | * A continuidade entre mise en intriga e imputação causal singular reside no papel da imaginação, | ||
| + | * A continuidade e a descontinuidade se repetem entre explicação causal singular e explicação por leis, sendo esta relação melhor esclarecida por Raymond Aron, para quem o hasard pode ser acidental em relação a uma série e adequado em relação a outra, sendo necessário considerar também a incerteza que afeta a delimitação dos sistemas e séries. | ||
| + | * A relação entre história e sociologia é exemplar dessa continuidade: | ||
| + | * A originalidade de Aron em relação a Weber está em subordinar sua epistemologia a uma filosofia da história voltada contra a ilusão retrospectiva de fatalidade, mostrando que as construções irreais preservam no passado a incerteza que foi o futuro dos personagens históricos, | ||
| + | * Contra a objeção de que o exemplo de Bismarck confinaria o argumento à esfera política e à explicação por razões, mostra-se que a imputação causal se distingue tanto da responsabilidade ética quanto da explicação nomológica, | ||
| + | * A extensão analógica da imputação causal singular a encadeamentos coletivos, e não apenas individuais, | ||
| + | * A batalha de Salamina exemplifica ainda a extensão da imputação causal singular a acontecimentos não redutíveis a ações individuais, | ||
| + | * A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo oferece um exemplo notável de imputação causal singular fora do campo da decisão individual e da história político-militar, | ||
| + | * Essa extensão da imputação causal singular a desenvolvimentos onde já não se discernem decisões individuais autoriza a estender analogicamente a noção de intriga a todas as imputações causais singulares, justificando o emprego do termo intriga por Paul Veyne, preferindo-se aqui, por rigor, falar de quasi-intriga. | ||
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| + | **As entidades de primeira ordem da historiografia** | ||
| + | * A cisão epistemológica entre entidades historiográficas e personagens narrativos é a pressuposição de partida: um personagem pode ser identificado por nome próprio e responsabilizado por suas ações, ao passo que as forças sociais que agem por trás das ações individuais são, em sentido próprio, anônimas, erro este que o individualismo metodológico comete ao exigir uma redução direta impraticável. | ||
| + | * Existe, contudo, um relé análogo à imputação causal singular, sob a forma de entidades de primeira ordem — entidades societais indecomponíveis em uma poeira de ações individuais, | ||
| + | * A obra de Maurice Mandelbaum, The Anatomy of Historical Knowledge, oferece dupla contribuição: | ||
| + | * A tese central é que o objeto irredutível da história é de ordem societal, distinguindo-se a história geral, cujo tema são sociedades particulares de existência contínua, das histórias especiais, dedicadas a aspectos abstratos da cultura sem existência contínua própria, definição de sociedade que se apoia em três componentes: | ||
| + | * A capacidade do fenômeno societal de se deixar analisar em aspectos ou facetas assegura a transição entre história global e histórias especializadas, | ||
| + | * A noção de sociedade oferece relé para a derivação das entidades históricas a partir dos personagens do relato por dupla razão: nada na noção de personagem exige que este seja um indivíduo, e o fenômeno societal comporta uma referência oblíqua aos indivíduos que o compõem, permitindo tratar a sociedade como um grande indivíduo, à maneira da Cidade platônica como uma alma escrita em letras maiúsculas ou das " | ||
| + | * Essa referência oblíqua funda-se no vínculo de pertença participativa, | ||
| + | * A tríplice referência do fenômeno societal ao indivíduo corresponde a três gestos fundamentais: | ||
| + | * O transfere de vocabulário do indivíduo às entidades de primeira ordem é apenas analógico, mas bem fundado no fenômeno de pertença participativa, | ||
| + | * A noção de quasi-personagem deve-se tanto ao fato de que cada sociedade é composta de indivíduos e se comporta como um grande indivíduo, quanto ao fato de que a técnica do relato já ensinou a desligar o personagem do indivíduo real, sendo a categoria de personagem, própria de mimesis II, o relé necessário entre as entidades históricas de primeira ordem e os indivíduos agentes de mimesis I. | ||
| + | * A simetria entre quasi-personagem e quasi-intriga deve-se ao fato de que a imputação causal singular tem seu campo privilegiado de aplicação justamente nas entidades de primeira ordem, cuja existência contínua é traço maior, sendo esta uma das teses centrais de Mandelbaum, que rompe com a tradição humeana ao recusar o caráter atomista de causa e efeito, definindo a causa como o conjunto completo dos fatores responsáveis por uma ocorrência particular. | ||
| + | * Dessa tese decorrem duas consequências importantes: | ||
| + | * A afinidade entre raciocínio causal e caráter contínuo dos fenômenos sociais explica-se pela autonomização da pergunta "por quê" em relação à pergunta "o quê", reconstrução essa que segue duas vias — análise longitudinal, | ||
| + | * A distinção entre necessidade causal condicional e determinismo universal é homogênea à distinção entre história geral e histórias especiais, já que a pluralidade irredutível das sociedades singulares — nações, classes, povos, civilizações — engendra tantos quasi-personagens quantas são as quasi-intrigas de que são heróis, não havendo, para o historiador, | ||
| + | * As entidades de segundo e terceiro grau construídas pelo historiador — objetos das histórias especiais como técnica, ciência, arte, religião — são fenômenos descontínuos, | ||
| + | * Correlativamente à derivação das entidades de segundo grau, situa-se a derivação da explicação nomológica à explicação causal singular, questão que remete à querela dos universais históricos, | ||
| + | * Essa última classe designa entidades de terceira ordem, mais abstratas que as demais apesar de sua aparência concreta, cuja base narrativa é cada vez menos reconhecível, | ||
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| + | **Tempos da história e destino do acontecimento** | ||
| + | * A questão do tempo histórico constitui o verdadeiro enjeu de toda esta segunda parte, sendo antecipada pela estreita parentela entre a imputação causal singular e a posição de entidades de primeira ordem, cuja existência contínua remete constantemente à questão do tempo histórico. | ||
| + | * O relé buscado para demonstrar que o tempo construído pelo historiador deriva, por uma série de desvios, da temporalidade própria do relato é encontrado no uso ambíguo que os historiadores fazem da noção de acontecimento. | ||
| + | * Reformulando, | ||
| + | * A tese central é que os acontecimentos históricos não diferem radicalmente dos acontecimentos enquadrados por uma intriga, sendo possível estender à noção de acontecimento histórico a reformulação que a noção de acontecimento-em-intriga impôs aos conceitos de singularidade, | ||
| + | * Retomando os Écrits sur l’histoire de Braudel, propõe-se mostrar que a própria noção de história de longa duração deriva do acontecimento dramático, isto é, do acontecimento-em-intriga, | ||
| + | * A resposta ao que torna pensável a distinção entre história quase imóvel, história lentamente ritmada e história à dimensão do indivíduo está no princípio de unidade que, apesar da distinção das durações, mantém coesas as três partes de La Méditerranée, | ||
| + | * Uma leitura atenta da obra revela o papel considerável de estruturas de transição que asseguram a coerência do conjunto, permitindo tratar todo o arranjo em termos de quasi-intriga, | ||
| + | * O segundo nível articula três sistemas concorrentes de organização — a conjuntura econômica, a física política dos impérios rivais e as civilizações —, sendo notável a insistência crescente de Braudel na questão de saber se pode existir um modelo unificado de economia mediterrânea, | ||
| + | * As civilizações são descritas por Braudel como os personagens mais complexos e contraditórios do Mediterrâneo, | ||
| + | * A terceira parte da obra, consagrada à política e aos homens, não é concessão à história tradicional, | ||
| + | * A morte de Filipe II, embora não seja grande acontecimento do ponto de vista da grande história do Mediterrâneo, | ||
| + | * A segunda tese proposta é que os três níveis da obra constituem juntos uma quasi-intriga no sentido amplo de Paul Veyne, cujo termo final não é a morte de Filipe II, mas o declínio do Mediterrâneo como herói coletivo na cena da história mundial e o deslocamento da história rumo ao Atlântico, sendo esta grande intriga, ao contrário do romance unificado de um Tolstói, tratada analiticamente por Braudel em subintrigas parciais que apenas interferem para engendrar uma imagem implícita do todo. | ||
| + | * Essa intriga virtual permite arbitrar entre duas leituras opostas da obra — uma que subordina o evento à longa duração e esta ao tempo geográfico, | ||
| + | * Esse longo desvio pelo caráter de quasi-intriga permite repensar a noção de acontecimento tida por Braudel como canônica: o acontecimento não é necessariamente breve e nervoso como uma explosão, mas uma variável da intriga presente em todos os níveis, com funções diversas, perdendo ou ganhando importância conforme sua travessia pelos demais níveis. | ||
| + | * O acontecimento é o que distingue o conceito de estrutura do historiador daquele do sociólogo ou economista, pois investe as estruturas de dentro de duas formas: pela discordância entre velocidades diferentes da vida, e pela atenção do historiador aos pontos de ruptura e à caducidade das estruturas mais estáveis. | ||
| + | * Notações semelhantes em outros historiadores franceses confirmam esse retorno ao acontecimento pelo viés da longa duração: Jacques Le Goff, em Pour un autre Moyen Age, resiste à sedução dos modelos intemporais ao pontuar a longa duração de festas, cerimônias e ritos, e ao insistir que os sistemas mentais são historicamente datáveis, definindo o Moyen Age como distância da " | ||
| + | * Georges Duby vê igualmente o acontecimento infiltrar-se nas estruturas ideológicas por meio de dissonâncias e desníveis de temporalidade entre situações objetivas e representações mentais, sublinhando os " | ||
| + | * O veículo do quasi-acontecimento é ainda a quasi-intriga, | ||
| + | * É no campo da história política, porém, que o retorno ao acontecimento se faz mais premente, como mostra François Furet em Penser la Révolution française ao interrogar como pensar a Revolução Francesa livrando-se da alternativa entre comemoração e execração, | ||
| + | * Nenhum dos dois modelos esgota, porém, o acontecimento Revolução, | ||
| + | * Sem esse retorno ao acontecimento, | ||
| + | * Essa analogia temporal é da mesma natureza que a analogia preservada no nível dos procedimentos, | ||
| + | * O quasi-acontecimento permanece correlativo às extensões análogas das noções de intriga e personagem, correspondendo ao que Aristóteles chamava mudança de fortuna — metabolè — em sua teoria formal da mise en intriga, de modo que a pluralidade dos tempos históricos preconizada por Braudel constitui uma expansão do traço cardinal do tempo narrativo, sua aptidão para combinar em proporções variáveis o episódico e o configurante, | ||
