estudos:ricoeur:tempo-relato:ficcao
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| + | ====== Ficção ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.// | ||
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| + | **A ficção e as variações imaginativas sobre o tempo** | ||
| + | * A tarefa consiste em pensar os mundos da ficção em contraponto com o mundo histórico quanto à resolução das aporias da temporalidade reveladas pela fenomenologia, | ||
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| + | **A neutralização do tempo histórico** | ||
| + | * O traço mais visível da oposição entre tempo fictício e tempo histórico é o afrancamento do narrador em relação à obrigação, | ||
| + | * Essa liberação das restrições do tempo cosmológico tem por contrapartida positiva a independência da ficção na exploração de recursos do tempo fenomenológico que permanecem inexplorados pelo relato histórico, sendo a ficção uma reserva de variações imaginativas aplicadas à temática do tempo fenomenológico e às suas aporias. | ||
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| + | **Variações sobre a falha entre o tempo vivido e o tempo do mundo** | ||
| + | * O fato de epopeia, drama e romance misturarem livremente personagens e datas históricas reais a elementos inventados não subordina o tempo da ficção ao tempo histórico; ao contrário, a mera ficcionalidade do narrador e dos heróis despoja essas referências de sua função de representância, | ||
| + | * Mrs. Dalloway deriva todo o seu dinamismo do antagonismo entre tempo mortal e tempo monumental, mas o narrador nunca confronta duas categorias abstratas, e sim duas experiências-limite — o suicídio de Septimus e a figura da " | ||
| + | * Der Zauberberg posiciona o problema em termos inteiramente distintos: "os de baixo" não gozam de nenhum privilégio monumental, e "os de cima" vivem um tempo mórbido e decadente, de modo que Hans Castorp, ao contrário de Clarissa, tenta resolver a antinomia pela abolição de um de seus termos — a supressão das medidas do tempo —, sendo essa uma variação imaginativa particularmente perversa da reinscrição histórica do tempo vivido sobre o tempo cósmico. | ||
| + | * A Recherche propõe outra variante, na qual o tempo do mundo assume a figura dos diversos reinos do aprendizado dos signos — mundanidade, | ||
| + | * Ao percorrer essas três fábulas, a ficção não apenas propõe respostas variáveis a uma mesma aporia, mas desloca a própria posição do problema, descompartimentando distinções que a fenomenologia havia separado cuidadosamente, | ||
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| + | **Variações sobre as aporias internas da fenomenologia** | ||
| + | * A solução husserliana ao paradoxo agostiniano do triplo presente distingue a retenção, incluída no presente vivo, da relembrança, | ||
| + | * Esse mesmo entrelaçamento é efetivamente operado pelas variações imaginativas da ficção: em Mrs. Dalloway, cada personagem gera sua própria duração fazendo se recobrirem protenções de quase-presentes passados e retenções do presente vivo, sendo esse recobrimento por sobreposição prolongado de um fluxo de consciência a outro pelas técnicas narrativas de transição. | ||
| + | * Em Der Zauberberg, é a relembrança irrompendo no presente vivo que confere a Clawdia Chauchat sua inquietante estranheza, ao identificá-la com Pribislav pelo motivo do lápis emprestado, recobrimento levado até a identificação, | ||
| + | * Na Recherche, o termo husserliano de recobrimento passa ao termo heideggeriano de repetição: | ||
| + | * As três fábulas exploram ainda o limite superior do processo de hierarquização da temporalidade, | ||
| + | * Em Mrs. Dalloway, o suicídio de Septimus sugere que não é mais o tempo que é mortal, mas a eternidade que dá a morte; em Der Zauberberg multiplicam-se as variantes díspares de eternidade — identitária, | ||
| + | * Uma última via, à qual a fenomenologia permanece muda, é a remitologização do tempo, praticada exclusivamente pela ficção: em Mrs. Dalloway, as badaladas de Big Ben têm ressonância quase mística; em Der Zauberberg, a colisão entre o tempo interior liberado e o tempo cósmico exaltado por contraste confina com o imemorial; na Recherche, o mito redobra as variações imaginativas ao apresentar dois rostos antitéticos do Tempo — o destruidor, encarnado nos " | ||
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| + | **Variações imaginativas e tipos ideais** | ||
| + | * Enquanto o tempo histórico soluciona as aporias por uma conciliação apaziguadora que tende a despojá-las de seu gume, as fábulas sobre o tempo têm a virtude de reavivar essas aporias e torná-las produtivas, sendo resolver poeticamente menos dissolvê-las que despojá-las de seu efeito paralisante. | ||
| + | * As variações imaginativas revelam que, sob o mesmo nome, a fenomenologia designa simultaneamente a aporia e sua resolução ideal — seu tipo ideal, no sentido weberiano —, sendo esse o caso exemplar da constituição da unidade do fluxo temporal por recobrimento em Husserl, que remonta a montante até Agostinho e desce a jusante até Heidegger, revelando a dialética intentio-distentio como nome simultâneo de um fenômeno a resolver e de sua solução ideal. | ||
| + | * O mesmo vale para a hierarquização heideggeriana entre temporalidade, | ||
| + | * A repetição heideggeriana ocupa posição estratégica comparável à da dialética intentio-distentio em Agostinho e à do recobrimento em Husserl, sendo ao mesmo tempo uma aporia a resolver e o tipo ideal de sua resolução, | ||
| + | * Por fim, a reviviscência do tema da eternidade nas três fábulas mostra os limites do próprio estilo eidético da fenomenologia: | ||
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