estudos:ricoeur:tempo-relato:experiencia-temporal
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| + | ====== Experiência temporal ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit II. Paris: Ed. du Seuil, 1984.// | ||
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| + | **A experiência temporal fictícia** | ||
| + | * A distinção entre enunciação e enunciado deixou entrever a necessidade de dar aos jogos com o tempo uma finalidade que seria articular uma experiência do tempo neles apostada, abrindo assim o campo às problemáticas de refiguração sem ainda ultrapassar o limiar que separa a configuração narrativa da refiguração, | ||
| + | * A noção de mundo do texto exige que a obra literária se abra sobre um fora que ela projeta diante de si, ofertado à apropriação crítica do leitor, sendo essa abertura compatível com o fechamento estrutural da obra, à maneira de uma janela que recorta uma paisagem, constituindo o que se chama aqui uma transcendência imanente ao texto. | ||
| + | * Três obras — Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, Der Zauberberg de Thomas Mann e A la recherche du temps perdu de Marcel Proust — foram escolhidas por ilustrarem a distinção de A. A. Mendilow entre tales of time e tales about time, por explorarem modalidades inéditas de concordância discordante que afetam a experiência vivida dos personagens, | ||
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| + | **Entre o tempo mortal e o tempo monumental: Mrs. Dalloway** | ||
| + | * A leitura da configuração da obra deve articular-se com a atenção à visão de mundo e à experiência temporal que essa configuração projeta para fora de si, sendo a intrigue de Mrs. Dalloway formada por uma elipse cujos dois focos são Clarissa Dalloway, que dará uma recepção à noite, e Septimus Warren Smith, ex-combatente que se suicida horas antes, notícia trazida pelo médico Bradshaw. | ||
| + | * A técnica narrativa combina um primeiro procedimento de acúmulo progressivo de pequenos acontecimentos que empurram o récit até seu fecho esperado, com um segundo procedimento de amplas incursões no passado sob forma de pensamentos relatados que, paradoxalmente, | ||
| + | * Um terceiro procedimento permite ao narrador saltar de um fluxo de consciência a outro fazendo os personagens se cruzarem nos mesmos lugares e perceberem os mesmos incidentes, como o carro do príncipe de Gales ou o avião publicitário, | ||
| + | * O tempo cronológico, | ||
| + | * Os dois extremos da experiência temporal são figurados, de um lado, pelo acordo íntimo com o tempo monumental encarnado nas figuras de Autoridade, e, de outro, pelo " | ||
| + | * É por meio da justaposição entre a experiência do tempo em Septimus e em Clarissa que o livro faz sentido: Septimus é o " | ||
| + | * Não há uma experiência única do tempo em Mrs. Dalloway, mas uma rede subterrânea de ressonâncias entre experiências solitárias, | ||
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| + | **Der Zauberberg** | ||
| + | * O apagamento do sentido das medidas do tempo é o traço maior do modo de existir dos pensionistas do Berghof, contrastando "os de cima", aclimatados ao fora-do-tempo, | ||
| + | * A técnica narrativa confirma essa caracterização como Zeitroman pela desproporção crescente entre o tempo do narrar e o tempo narrado ao longo dos sete capítulos, e pelas intervenções da voz narrativa, sobretudo no Vorsatz, que anuncia contar a história "sob a forma do passado mais recuado", | ||
| + | * Um contraponto se impõe, todavia, pois a linha que separa "os de cima" dos "de baixo" separa também o mundo da doença e da morte do mundo cotidiano, sendo o amor de Hans Castorp por Madame Chauchat inteiramente dominado pela fusão entre atração sensual e fascínio pela decomposição, | ||
| + | * Uma terceira temática, a do destino da cultura europeia, encarnada nos preceptores Settembrini e Naphta, complica ainda mais o quadro, sendo a solução de Mann integrar tempo, doença e cultura na experiência singular de Hans Castorp, compondo assim um Bildungsroman à maneira de Wilhelm Meister, no qual o tempo permanece, contudo, a "irmã muda" da epopeia da morte e da tragédia da cultura. | ||
| + | * A pergunta central que atravessa o romance é se o herói aprendeu algo no Berghof, hipótese de leitura sustentada pela distância irônica entre a voz narrativa e a história narrada, sugerindo que o próprio herói mantém, em seu debate com o tempo, uma relação de distanciamento irônico análoga à do narrador. | ||
| + | * A experiência decisiva da eternidade percorre três momentos: a "sopa eterna" | ||
| + | * O " | ||
| + | * O que o romance oferece à refiguração do tempo não é uma solução especulativa às aporias temporais, mas sua Steigerung, sua elevação de um grau, explorando de modo extraordinariamente variado a relação entre tempo e eternidade — da "sopa eterna" | ||
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| + | **A la recherche du temps perdu: o tempo atravessado** | ||
| + | * A legitimidade de ler a Recherche como uma fábula sobre o tempo é contestada de três modos: pela confusão entre autobiografia real e ficção; pela tese de Gilles Deleuze segundo a qual o verdadeiro objeto da obra é a verdade, não o tempo, alcançada pelo aprendizado dos signos; e pela tese de Anne Henry, para quem a forma romanesca projeta sobre a anedota um corpus dogmático herdado do idealismo transcendental de Schelling e do pessimismo de Schopenhauer, | ||
| + | * Contra essas objeções, propõe-se que a singularidade da Recherche está em fazer coincidir a errância interminável do aprendizado dos signos com a revelação súbita que transforma retrospectivamente todo o récit na história invisível de uma vocação, cabendo à teoria narrativa distinguir, no romance em primeira pessoa, ao menos duas vozes narrativas: a do herói, que avança orientada para o futuro mesmo ao se lembrar, e a do narrador, que sobrevoa essa progressão e deposita sobre ela a significação de tempo perdido e tempo reencontrado. | ||
| + | * O tempo perdido, tal como se apresenta em Du côté de chez Swann, é marcado por um " | ||
| + | * Combray revela-se um paraíso perdido feito de ilhotas incomunicáveis de lembranças e de espaços — o lado de Méséglise e o lado de Guermantes —, pontuado por episódios anunciadores de desilusão, como a cena de Montjouvain, | ||
| + | * "Un amour de Swann", | ||
| + | * No Temps retrouvé, segundo foco da elipse da Recherche, a grande cena da biblioteca do hotel Guermantes é precedida por dois graus de iniciação: | ||
| + | * A grande revelação distingue dois sentidos do tempo reencontrado: | ||
| + | * Essa decisão de escrever é posta à prova pelo desfile da morte na cena do jantar de cabeças, em que os convidados aparecem como " | ||
| + | * Reencontrar o tempo perdido revela-se, ao final, uma operação de tríplice sentido: é a metáfora, que encerra as diferenças "nos anéis necessários de um belo estilo"; | ||
| + | * Os dois focos da elipse não se confundem inteiramente, | ||
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